Victoria limita uso de telas em sala de aula e reacende debate sobre atenção, aprendizagem e bem-estar
/0 Comentários/em Blog/por movimentopelafelicidadeO estado de Victoria, na Austrália, anunciou uma medida inédita no país: a partir do primeiro período letivo de 2027, estudantes do ensino médio das escolas públicas terão o uso de dispositivos digitais em sala de aula limitado a, no máximo, duas horas por dia.
A proposta busca reduzir o tempo diante das telas e ampliar atividades com maior interação presencial, uso de papel e caneta, debates em grupo, experimentos práticos, apresentações, uso de quadros e outras formas de aprendizagem mais ativas. A mensagem do governo local foi resumida pelo ministro da Educação e vice-premiê, Ben Carroll: “olhos para cima, telas para baixo”.
Segundo Carroll, a mudança pretende promover um “reinício” na sala de aula, com impacto positivo sobre comportamento, calma, saúde mental e qualidade da atenção. Para ele, o foco precisa voltar para a figura mais importante do ambiente escolar: o professor.
Tecnologia com propósito, não por hábito
A decisão amplia uma política já anunciada para o ensino fundamental. Também a partir de 2027, crianças dos anos 3 a 6 terão o uso de dispositivos limitado a 90 minutos por dia, enquanto estudantes da educação infantil até o ano 2 terão contato apenas mínimo com telas em sala.
No ensino médio, a proposta não significa eliminar a tecnologia, mas impedir que ela ocupe todo o espaço da experiência escolar. O próprio governo afirmou que haverá exceções para estudantes com deficiência ou neurodiversidade que dependam de recursos tecnológicos, além de casos ligados a disciplinas específicas.
Essa distinção é importante. A tecnologia pode ser uma grande aliada quando usada com intencionalidade pedagógica. Ela facilita pesquisas, amplia repertórios, conecta estudantes a diferentes realidades e pode tornar o aprendizado mais dinâmico. O problema surge quando a tela deixa de ser ferramenta e se transforma em filtro permanente entre o estudante, o professor, os colegas e o próprio processo de aprender.
A sala de aula como espaço de presença
Melinda Davis, professora da Swinburne University of Technology e ex-professora do ensino médio, recebeu positivamente o anúncio. Para ela, a tecnologia passou a ser usada nas escolas de uma forma para a qual nunca foi realmente planejada. Os laptops, segundo Davis, tomaram o lugar das anotações tradicionais e da pesquisa em sala, e muitos estudantes seguem usando telas até mesmo nos intervalos.
Ela também observa que o tema é social, além de educacional. Muitos jovens usam as telas para evitar interações presenciais. Essa constatação ajuda a ampliar o debate: reduzir o uso de dispositivos não é apenas uma estratégia para melhorar notas ou concentração, mas também uma tentativa de recuperar a convivência, a escuta e o vínculo entre os estudantes.
Ao mesmo tempo, Davis alerta que a implementação exigirá cuidado. Retirar ou limitar telas de estudantes muito habituados a elas pode gerar resistência e sobrecarga para os professores. Isso mostra que a mudança não pode ser apenas normativa. Ela precisa vir acompanhada de formação docente, planejamento pedagógico e apoio às escolas.
Um movimento que começou com os celulares
Victoria já havia banido smartphones nas escolas públicas em 2020. A medida depois foi adotada por instituições não governamentais e, posteriormente, expandida para outras regiões da Austrália. A partir de 2027, o estado pretende ampliar a restrição para incluir relógios inteligentes e fones de ouvido, reduzindo ainda mais o acesso dos alunos à tecnologia pessoal durante o dia escolar.
Para Carroll, a medida acompanha práticas recomendadas internacionalmente. Ele também criticou as grandes empresas de tecnologia, afirmando que seus algoritmos não têm como prioridade o melhor interesse dos jovens. Segundo o ministro, enquanto essas empresas estão focadas em capturar olhares, a escola precisa estar focada na mente e no coração dos estudantes.
A frase é forte porque toca em uma questão central do nosso tempo. A atenção se tornou um dos recursos mais disputados da vida contemporânea. Se adultos já enfrentam dificuldade para se concentrar diante do excesso de estímulos, crianças e adolescentes, ainda em desenvolvimento emocional e cognitivo, podem ser ainda mais vulneráveis a esse ambiente de distração contínua.
Aprender também é conviver
Anthony Oldmeadow, diretor do Ngayuk College, em Kalkallo, na região metropolitana de Melbourne, classificou o limite como um passo positivo. Para ele, a tecnologia oferece grandes oportunidades, inclusive para formar cidadãos conectados ao mundo, mas também tem um lado capaz de distrair os estudantes. A proposta, em sua avaliação, ajuda a reduzir essa distração sem impedir o uso intencional dos recursos digitais.
Essa visão equilibrada é essencial. O desafio das escolas não é voltar ao passado nem negar os avanços tecnológicos. É criar uma cultura em que o digital esteja a serviço da aprendizagem, e não o contrário. Em muitos momentos, escrever à mão, olhar para o professor, participar de um debate, fazer uma experiência prática ou apresentar uma ideia diante dos colegas pode desenvolver competências que nenhuma tela substitui plenamente.
A escola é também um espaço de socialização. É onde crianças e jovens aprendem a esperar sua vez, discordar com respeito, construir vínculos, lidar com frustrações, colaborar e perceber o outro. Quando a tela ocupa todos os intervalos da atenção, parte dessa formação humana pode se enfraquecer.
Bem-estar digital e felicidade
Para o Instituto Movimento pela Felicidade, iniciativas como essa reforçam uma reflexão urgente: a felicidade e o bem-estar não dependem apenas de acesso a ferramentas, mas da qualidade das experiências humanas que construímos. A vida digital pode aproximar, informar e facilitar. Mas, quando usada em excesso ou sem propósito, também pode gerar dispersão, ansiedade, comparação e isolamento.
A educação precisa preparar os jovens para o mundo tecnológico, mas também para a presença. Saber usar dispositivos é importante. Saber ficar sem eles também é. O equilíbrio entre conexão digital e conexão humana será uma das grandes competências emocionais deste século.
Limitar telas em sala de aula, portanto, não deve ser visto apenas como uma regra disciplinar. Pode ser entendido como um convite para recuperar a atenção, o diálogo, a escuta, a escrita, a experimentação e a convivência. Em outras palavras, um convite para lembrar que aprender é um processo profundamente humano.
Ao colocar “olhos para cima e telas para baixo”, Victoria abre uma discussão que vai além da Austrália. Ela nos provoca a perguntar: que tipo de ambiente queremos oferecer às novas gerações? Um espaço de estímulos permanentes e atenção fragmentada, ou uma escola capaz de cultivar foco, vínculo, bem-estar e sentido?
Postagem inspirada na notícia “Eyes up, screens down’: Victoria restricts tech in high school classrooms to two hours a day in national first”.




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