Sete minutos de realidade virtual podem ajudar estudantes a reduzir o estresse e recuperar o foco

Em períodos de provas, entregas e cobranças acadêmicas, poucos minutos de pausa podem fazer uma diferença maior do que se imagina. Um estudo conduzido por pesquisadores da City St George’s, no Reino Unido, indica que uma intervenção de apenas sete minutos em realidade virtual pode ajudar estudantes a se sentirem mais calmos, menos ansiosos e mais preparados para lidar com as pressões da vida acadêmica.

Publicado na revista científica Scientific Reports, o trabalho surge em um momento em que escolas e universidades buscam novas estratégias para enfrentar o crescimento de problemas relacionados ao estresse, à ansiedade e à sensação de sobrecarga entre estudantes.

Os dados apresentados pelos pesquisadores ajudam a dimensionar o desafio. Uma pesquisa recente realizada com mais de 5.700 professores britânicos mostrou que 56% deles identificaram problemas de saúde mental relacionados à ansiedade diante de provas entre alunos do equivalente ao ensino médio. Quase metade relatou casos de estudantes que deixaram de frequentar a escola por causa da ansiedade provocada pelos exames.

No ensino superior, o cenário também chama atenção. Na Inglaterra, o número de universitários que declararam alguma condição relacionada à saúde mental praticamente quadruplicou ao longo da década encerrada no ano acadêmico de 2023/2024.

Uma pausa curta, mas intencional

A experiência analisada pelos pesquisadores foi desenvolvida pela empresa de tecnologia em saúde Phase Space e contou com a participação dos próprios estudantes durante sua criação.

O programa reúne técnicas já utilizadas no gerenciamento do estresse, como exercícios respiratórios, visualização e estratégias positivas de enfrentamento. A diferença está na forma como essas práticas são apresentadas. Com o auxílio de óculos de realidade virtual, sons e imagens procuram criar um ambiente imersivo capaz de favorecer a sensação de calma, presença e concentração.

Participaram da pesquisa 131 estudantes da área da saúde. Eles foram divididos aleatoriamente em dois grupos. Sessenta e sete utilizaram os óculos de realidade virtual, enquanto outros 64 assistiram ao mesmo conteúdo por meio de um smartphone. A experiência foi repetida durante cinco dias consecutivos.

Antes e depois de cada sessão, os participantes avaliaram como se sentiam em relação a aspectos como calma, estresse e ansiedade. Os pesquisadores também utilizaram questionários consolidados na área de saúde mental para avaliar o nível de estresse percebido, o bem-estar e sintomas depressivos no início do estudo e novamente duas semanas depois.

Os dois grupos apresentaram benefícios. No entanto, entre os estudantes que utilizaram a realidade virtual, a redução imediata de estresse e ansiedade foi significativamente maior, assim como o aumento das sensações de calma e felicidade.

Outro resultado relevante apareceu duas semanas depois. Os participantes que haviam realizado as sessões com realidade virtual ainda relatavam níveis menores de estresse percebido, indicando que os efeitos da experiência podem ultrapassar o momento imediato de utilização da tecnologia.

O valor de um “reset” emocional

Talvez um dos dados mais interessantes esteja na percepção dos próprios estudantes.

Quase nove em cada dez participantes do grupo de realidade virtual afirmaram que a experiência fez uma diferença real na maneira como se sentiam. Entre os que acompanharam o mesmo conteúdo pelo celular, esse índice foi de 34%.

Nos relatos coletados pelos pesquisadores, muitos estudantes disseram ter passado rapidamente de um estado de estresse e sobrecarga para uma condição de maior tranquilidade, estabilidade e capacidade de concentração.

Também foram mencionados sentimentos de maior controle e confiança, além de uma disposição maior para incluir momentos de autocuidado e reflexão durante períodos intensos de estudo.

Alguns participantes relataram ainda benefícios que ultrapassaram as próprias sessões, como melhora do sono, maior produtividade e percepção de que estavam mais preparados para administrar as demandas acadêmicas.

Esse ponto é especialmente importante porque os estudantes não enxergaram os sete minutos como um tempo perdido ou retirado do estudo. Ao contrário, perceberam a experiência como uma pausa estratégica, capaz de ajudá-los a retornar às tarefas em melhores condições emocionais e cognitivas.

Aprender a interromper o ciclo da sobrecarga

Para a pesquisadora Aileen O’Brien, principal autora do estudo, jovens precisam de mais do que intervenções destinadas apenas a momentos de crise. Segundo ela, também é necessário oferecer ferramentas práticas e baseadas em evidências que permitam administrar a pressão antes que ela se transforme em uma situação de esgotamento.

Essa compreensão se aproxima de uma discussão cada vez mais presente na ciência do bem-estar: cuidar da saúde mental não significa apenas reagir ao sofrimento quando ele já está instalado.

Também significa desenvolver recursos que nos ajudem a reconhecer limites, administrar emoções e criar espaços de recuperação ao longo da rotina.

O Instituto Movimento pela Felicidade trabalha justamente com a ideia de que felicidade e bem-estar não devem ser tratados apenas como estados ocasionais, mas como competências que podem ser cultivadas por meio de conhecimento, escolhas e práticas aplicáveis ao cotidiano. Essa perspectiva está alinhada à proposta de ampliar a compreensão científica da felicidade e de seus efeitos sobre a saúde mental e a qualidade de vida.

No livro Pessoas Felizes Fazem Coisas Incríveis, Benedito Nunes também apresenta a felicidade como uma construção cotidiana, alimentada por hábitos, escolhas e resiliência, e não como uma condição permanente ou resultado de grandes acontecimentos. Essa compreensão ajuda a olhar para práticas simples de autorregulação de maneira diferente: pequenas pausas podem não eliminar os desafios, mas podem modificar a forma como nos relacionamos com eles.

Tecnologia a serviço do bem-estar

Os pesquisadores não sugerem que escolas e universidades sejam capazes de eliminar as fontes de estresse da vida acadêmica. Provas, prazos, decisões profissionais e expectativas continuarão fazendo parte da experiência educacional.

A possibilidade que se abre é outra: ensinar os estudantes a interromper por alguns minutos o fluxo da pressão, reorganizar as emoções e recuperar perspectiva.

Zillah Watson, cofundadora e CEO da Phase Space, explica que os estudantes envolvidos no desenvolvimento da ferramenta deixaram claro desde o início que não queriam mais um recurso de bem-estar que parecesse uma tarefa adicional.

Eles buscavam algo simples, rápido e capaz de ajudá-los a diminuir o ruído mental provocado pelas cobranças do dia a dia.

Por isso, uma palavra apareceu repetidamente nos depoimentos: “reset”.

A tecnologia, nesse contexto, funciona menos como uma fuga da realidade e mais como uma ferramenta para retornar a ela em melhores condições.

É uma distinção importante. O objetivo do autocuidado não é construir uma vida sem desafios, o que seria impossível, mas ampliar nossa capacidade de lidar com eles sem permitir que a pressão ocupe permanentemente todo o espaço disponível.

Talvez esteja aí uma das principais contribuições deste estudo. Em uma cultura que muitas vezes associa desempenho a permanecer constantemente ocupado, parar por alguns minutos pode parecer improdutivo. A ciência, porém, começa a mostrar justamente o contrário.

Quando a pausa é consciente e orientada para a recuperação, ela pode se transformar em parte do próprio desempenho.

Mais do que sete minutos de realidade virtual, portanto, a pesquisa chama atenção para uma habilidade que pode ser útil dentro e fora das salas de aula: aprender a perceber quando a mente está sobrecarregada, criar espaço para reorganizá-la e então seguir adiante.

Porque bem-estar não significa ausência de pressão. Significa desenvolver recursos para que a pressão não determine, sozinha, a maneira como vivemos.

Postagem inspirada na notícia “Seven-minute virtual reality intervention helps reset student overwhelm, study finds”.

Tratar a insônia pode ser decisivo para reduzir sintomas de depressão

Sono e saúde mental estão profundamente conectados. E uma nova pesquisa reforça que tratar a insônia pode produzir benefícios que vão além de uma noite melhor de descanso.

Pesquisadores da Universidade da Austrália Ocidental observaram que pessoas com depressão e problemas de sono apresentaram melhora não apenas nos sintomas de insônia, mas também em aspectos ligados à própria depressão depois de participarem de um programa de terapia cognitivo-comportamental para insônia.

O estudo, publicado na revista Behaviour Research and Therapy, sugere que cuidar do sono pode ser uma estratégia importante para favorecer uma recuperação mais consistente da depressão.

Insônia e depressão costumam caminhar juntas

Segundo Vanika Lall, uma das pesquisadoras envolvidas no trabalho, até nove em cada dez pessoas com depressão também apresentam algum tipo de alteração no sono.

Essa relação é particularmente relevante porque a insônia pode piorar os sintomas depressivos, prolongar sua duração e até reduzir a resposta a tratamentos direcionados especificamente à depressão.

Outro ponto importante é o risco de recorrência.

Quando a insônia permanece sem tratamento, aumenta a possibilidade de a depressão retornar no futuro. Ao mesmo tempo, embora tratamentos para depressão também possam melhorar o sono, isso nem sempre acontece de forma completa.

Na prática, isso significa que ignorar a qualidade do sono pode deixar uma peça importante de fora do cuidado com a saúde mental.

A terapia para insônia foi além do sono

O estudo, chamado Sleep Well for Mood, acompanhou pessoas que apresentavam ao mesmo tempo depressão e sono prejudicado.

Ao todo, 88 participantes realizaram um programa de quatro semanas de terapia cognitivo-comportamental para insônia, conhecida pela sigla CBT-I.

Esse tipo de tratamento é estruturado e de curta duração. Seu objetivo é trabalhar pensamentos e comportamentos que dificultam o sono, combinando estratégias cognitivas, mudanças de comportamento e educação sobre hábitos de sono.

Os participantes foram avaliados antes do início do programa, ao final do tratamento e novamente três meses depois.

Os resultados mostraram melhora nos sintomas de insônia.

Mas não foi só isso.

Depois do tratamento, os participantes também relataram menos pensamentos negativos sobre questões do cotidiano, menos preocupações relacionadas ao sono e maior participação em atividades significativas, incluindo atividades físicas e sociais.

Dormir melhor pode interromper ciclos negativos

A pesquisa chama atenção para mecanismos que ajudam a entender por que cuidar do sono pode também beneficiar a saúde emocional.

Segundo os pesquisadores, pensamentos negativos persistentes e um estilo de vida mais inativo podem alimentar sintomas de depressão.

A terapia para insônia parece atuar justamente sobre parte desses fatores.

Ao dormir melhor, reduzir preocupações com o próprio sono e retomar atividades significativas, a pessoa pode começar a interromper um ciclo em que cansaço, isolamento, ruminação e piora do humor se reforçam mutuamente.

Esse ponto é especialmente importante porque mostra que o sono não deve ser tratado como um aspecto secundário da saúde mental.

Ele faz parte da própria experiência emocional.

O sono é um dos pilares do bem-estar

No contexto da ciência da felicidade, essa relação faz bastante sentido.

Bem-estar não depende apenas da forma como pensamos ou sentimos. Ele também é influenciado pelos hábitos que sustentam nossa vida cotidiana.

Sono, atividade física, relações sociais, propósito e saúde mental estão interligados.

Quando um desses pilares se fragiliza, os demais também podem ser afetados.

O Instituto Movimento pela Felicidade trabalha justamente com essa compreensão mais integrada da saúde e do bem-estar, aproximando ciência, comportamento e práticas que possam ser aplicadas de forma concreta no dia a dia.

Dormir bem, nesse sentido, não é apenas descansar.

É oferecer ao corpo e à mente condições melhores para regular emoções, recuperar energia e lidar com as demandas da vida.

Tratar o sono pode ajudar a tratar também o humor

Um dos achados mais relevantes do estudo é a possibilidade de usar a terapia cognitivo-comportamental para insônia como uma ferramenta complementar no cuidado da depressão.

Os pesquisadores consideram que esse tipo de intervenção pode ser eficiente tanto em termos de tempo quanto de custo, justamente por atuar sobre a insônia e, ao mesmo tempo, sobre fatores que contribuem para a manutenção dos sintomas depressivos.

Isso pode representar uma mudança importante na forma como os tratamentos são organizados.

Em vez de enxergar sono e depressão como problemas separados, a abordagem passa a considerar a interação entre os dois.

Atividades significativas também fazem diferença

Outro aspecto interessante da pesquisa foi o aumento da participação dos participantes em atividades físicas e sociais.

Essa mudança pode parecer simples, mas tem grande relevância.

Quando uma pessoa está deprimida, é comum que atividades antes prazerosas ou importantes sejam abandonadas.

Isso pode reduzir ainda mais as oportunidades de contato social, movimento, realização pessoal e experiências positivas.

Ao melhorar o sono e diminuir pensamentos negativos, pode surgir também mais disposição para retomar atividades que devolvam significado à rotina.

Essa relação se aproxima de uma ideia recorrente na ciência da felicidade: o bem-estar costuma ser construído não apenas por aquilo que sentimos, mas também pelo que fazemos repetidamente.

Cuidar do sono é também cuidar da saúde mental

A principal contribuição do estudo talvez seja reforçar algo que durante muito tempo foi subestimado.

A insônia não é apenas uma consequência da depressão.

Em muitos casos, ela pode também contribuir para mantê-la.

Por isso, identificar e tratar problemas persistentes de sono pode ser uma parte essencial do cuidado com a saúde mental.

Isso não significa que tratar a insônia substitua outras formas de tratamento para depressão.

Mas significa que o sono merece ocupar um lugar mais central nessa conversa.

A própria pesquisa indica que ampliar o acesso à terapia cognitivo-comportamental para insônia pode ajudar mais pessoas a alcançar uma recuperação de longo prazo e reduzir a recorrência dos sintomas.

Felicidade também começa no descanso

Quando pensamos em felicidade e bem-estar, é comum associar esses temas a experiências positivas, relações, propósito ou realização pessoal.

Mas existe uma dimensão mais básica que não pode ser ignorada: o corpo precisa de condições para funcionar bem.

E o sono é uma delas.

Uma noite ruim isolada faz parte da vida. O problema começa quando dormir mal se torna rotina e passa a afetar humor, energia, concentração, relações e capacidade de participar da própria vida.

Por isso, cuidar do sono pode ser uma das atitudes mais simples e importantes para proteger a saúde mental.

Às vezes, o caminho para uma vida emocionalmente mais equilibrada pode começar por algo aparentemente básico: voltar a dormir bem.

Postagem inspirada na notícia “Treating insomnia could be key to reducing symptoms of depression”.

Mais passos por dia podem estar ligados a uma melhor saúde mental na adolescência

Caminhar mais durante o dia pode estar relacionado a menos problemas de saúde mental no início da adolescência.

Essa é a principal conclusão de um estudo conduzido pelo Instituto de Psiquiatria, Psicologia e Neurociência do King’s College London, em parceria com a Universidade de Massachusetts Amherst, que acompanhou 5.515 adolescentes participantes do Adolescent Brain Cognitive Development Study, nos Estados Unidos.

Os pesquisadores observaram uma associação clara: quanto maior o número de passos dados diariamente pelos adolescentes, menor foi a presença de sintomas relacionados a ansiedade, humor deprimido e problemas comportamentais um ano depois.

Os resultados chamam atenção principalmente porque apontam para uma estratégia simples, acessível e integrada à vida cotidiana: movimentar-se mais.

Dos 5 mil aos 12 mil passos

Os participantes utilizaram dispositivos Fitbit durante três semanas, por volta dos 11 ou 12 anos de idade.

Um ano depois, os pesquisadores avaliaram sua saúde mental por meio do Child Behaviour Checklist, um instrumento amplamente utilizado para identificar sintomas emocionais e comportamentais.

Ao comparar esses dados com o nível de atividade física registrado anteriormente, surgiu um padrão consistente.

Os adolescentes que caminhavam menos de 5 mil passos por dia apresentaram mais sintomas. Aqueles que chegavam a cerca de 8 mil passos tiveram resultados melhores. Já os jovens que alcançavam 12 mil passos ou mais diariamente apresentaram os menores níveis de problemas de saúde mental entre os grupos observados.

Outro aspecto interessante é que, dentro da faixa analisada, os benefícios não pareceram atingir um limite.

Ou seja, os pesquisadores não identificaram um ponto a partir do qual caminhar mais deixasse de estar associado a melhores indicadores.

Pequenos aumentos também parecem importar

Talvez um dos aspectos mais relevantes do estudo seja justamente não sugerir uma lógica de “tudo ou nada”.

Segundo Amanda Paluch, professora associada de cinesiologia da Universidade de Massachusetts Amherst, os adolescentes não precisam se tornar atletas de alto rendimento para perceber possíveis benefícios.

A pesquisadora destacou que aumentos de aproximadamente 1.000 a 2.000 passos diários, independentemente do ponto de partida, estiveram associados a melhores indicadores de estrutura cerebral e saúde mental.

Isso muda bastante a forma como o tema pode ser abordado dentro das famílias, escolas e comunidades.

Em vez de estabelecer metas difíceis ou transformar atividade física em mais uma fonte de cobrança, a discussão pode começar por uma pergunta muito mais prática: como criar oportunidades reais para que adolescentes se movimentem um pouco mais todos os dias?

Caminhar até a escola quando possível, brincar ao ar livre, realizar atividades esportivas ou simplesmente escolher formas de movimento que façam sentido e sejam prazerosas podem ser caminhos mais sustentáveis.

O cérebro adolescente também apresentou diferenças

O estudo encontrou ainda pequenas diferenças na estrutura cerebral dos adolescentes mais ativos.

Aqueles com maior número de passos apresentaram tecido cerebral ligeiramente mais espesso em duas regiões relacionadas ao movimento e à regulação das emoções.

Essa diferença explicou parte da associação entre atividade física e melhores resultados de saúde mental.

Os próprios pesquisadores, entretanto, fazem questão de destacar que esse achado ainda é preliminar.

As diferenças cerebrais observadas foram pequenas e são necessárias novas investigações para compreender melhor como a atividade física, o desenvolvimento cerebral e a saúde emocional se relacionam ao longo da adolescência.

Ainda assim, o resultado acrescenta uma dimensão importante à discussão.

Movimentar o corpo pode não estar relacionado apenas ao condicionamento físico. Também pode fazer parte de um conjunto de fatores associados ao desenvolvimento emocional e cerebral dos jovens.

Adolescência é uma fase especialmente importante

A adolescência representa um período de intensas transformações.

O cérebro está em desenvolvimento, a identidade começa a ganhar novos contornos, as relações sociais adquirem uma importância ainda maior e surgem diferentes pressões relacionadas à escola, à família, ao futuro e à necessidade de pertencimento.

Por isso, hábitos construídos nessa fase podem exercer influência importante sobre o bem-estar presente e futuro.

A conexão entre estilo de vida e saúde mental também está entre os temas discutidos pelo Instituto Movimento pela Felicidade, que aborda os impactos das mudanças comportamentais sobre a qualidade de vida e compreende a felicidade e o bem-estar a partir de diferentes campos científicos.

A atividade física se encaixa nesse contexto não apenas como prevenção de doenças, mas como parte de uma vida mais equilibrada.

Movimento não precisa significar desempenho

Um aspecto importante do estudo é afastar a ideia de que os benefícios do exercício estão restritos aos adolescentes envolvidos em esportes competitivos.

A proposta é muito mais ampla.

Movimento pode significar caminhar, brincar, andar de bicicleta, dançar, praticar algum esporte ou realizar qualquer outra atividade que reduza o tempo de inatividade e faça parte naturalmente da rotina.

Isso é particularmente relevante em uma época em que uma parcela significativa do cotidiano de crianças e adolescentes acontece diante de telas.

Criar espaço para o movimento pode significar também criar oportunidades de contato com outras pessoas, experiências ao ar livre e momentos de desconexão das pressões digitais.

Nesse sentido, a atividade física pode se relacionar não apenas à saúde do corpo, mas também a outros componentes importantes do bem-estar.

A felicidade também se constrói por meio dos hábitos

Em Pessoas felizes fazem coisas incríveis, Benedito Nunes aborda a felicidade não como um estado permanente, mas como uma construção que pode ser alimentada por escolhas e hábitos cotidianos. A prática de exercícios físicos aparece nesse contexto como uma das atitudes que podem contribuir para a disposição, a saúde e a percepção de bem-estar.

Essa visão ajuda a interpretar os novos resultados sobre adolescentes.

Quando pensamos em saúde mental, frequentemente buscamos respostas apenas no campo emocional.

Mas corpo e mente não funcionam como territórios independentes.

Sono, alimentação, movimento, relações sociais, ambiente e experiências emocionais se influenciam mutuamente.

Promover saúde mental, portanto, também significa observar como estruturamos o cotidiano.

Associação não significa causa

Há uma ressalva importante.

O estudo é observacional.

Isso significa que os pesquisadores encontraram uma associação entre mais passos e melhores indicadores de saúde mental, mas não podem afirmar que caminhar mais seja diretamente responsável por essa melhora.

É possível, por exemplo, que adolescentes que já apresentavam menos dificuldades emocionais fossem naturalmente mais ativos.

Os pesquisadores levaram em consideração problemas de saúde mental existentes anteriormente, o que fortalece os resultados, mas não elimina completamente outras explicações possíveis.

Além disso, poucos participantes atingiram níveis extremamente elevados de atividade física. Portanto, não é possível saber se o mesmo padrão continuaria indefinidamente acima das faixas observadas.

O estudo também não encontrou relação entre o número de passos e o desempenho escolar.

Um caminho simples para cuidar do bem-estar dos jovens

Apesar das limitações, a pesquisa apresenta uma mensagem relevante.

Quando falamos em promoção da saúde mental na adolescência, soluções importantes nem sempre precisam ser complexas ou caras.

Criar oportunidades para caminhar, brincar, praticar atividades físicas e incorporar mais movimento à rotina pode ser uma estratégia complementar de cuidado.

Mais importante ainda é fazer isso sem transformar o exercício em mais uma exigência.

Para que um comportamento se torne sustentável, ele precisa caber na vida real.

A própria pesquisa reforça essa ideia ao sugerir que os jovens encontrem atividades de que realmente gostem e formas possíveis de se movimentar a partir de sua realidade.

É uma perspectiva bastante alinhada à compreensão da felicidade como algo que pode ser desenvolvido por meio de práticas simples, consistentes e aplicáveis ao cotidiano, princípio que orienta o trabalho do Instituto Movimento pela Felicidade.

Talvez a principal mensagem seja justamente essa: não precisamos esperar grandes transformações para começar a cuidar do bem-estar.

Às vezes, alguns passos a mais já representam movimento na direção certa.

Postagem inspirada na notícia “Higher daily step counts linked to fewer mental health problems in early adolescence”.

A felicidade pode ser aprendida e começa naquilo que escolhemos perceber

A felicidade nem sempre está nos grandes acontecimentos. Muitas vezes, ela se apresenta de forma discreta, quase silenciosa, em experiências que fazem parte da rotina e que, justamente por serem comuns, acabam passando despercebidas.

Pode estar em uma caminhada pelo bairro, no trajeto até o trabalho, no sabor que permanece depois de um café ou chá, em uma música que toca ao fundo ou simplesmente na percepção de que, naquele momento, o corpo está bem e não sente dor.

Aprender a notar essas experiências pode parecer algo pequeno. Mas é justamente aí que existe uma mudança importante: direcionar a atenção para aquilo que também está funcionando bem.

Vivemos em um mundo que apresenta problemas reais e desafios que não devem ser ignorados. Ainda assim, treinar a mente para reconhecer o que existe de positivo ao nosso redor pode ajudar a construir uma experiência de vida mais equilibrada.

Por que percebemos tão facilmente o que está errado?

Existe uma razão para que defeitos, ameaças, falhas e problemas chamem tanto a nossa atenção.

Ao longo da evolução humana, identificar rapidamente aquilo que poderia dar errado foi uma habilidade fundamental para a sobrevivência. Nossos ancestrais precisavam estar atentos a perigos, lembrar de situações ameaçadoras e antecipar riscos.

Essa capacidade foi extremamente útil.

O problema é que ela continua atuando em um contexto completamente diferente.

Hoje, o mesmo mecanismo pode nos levar a perceber com muito mais facilidade um comentário desagradável do que dezenas de interações positivas, uma dificuldade no trabalho em vez das várias coisas que deram certo ou uma preocupação futura em vez de um momento agradável que está acontecendo agora.

Não significa que sejamos naturalmente incapazes de enxergar o lado bom da vida.

Significa apenas que, para muitas pessoas, prestar atenção ao positivo exige intenção.

Felicidade também envolve treinar a atenção

Pensamentos e experiências negativas costumam deixar marcas fortes na memória, enquanto momentos positivos podem desaparecer rapidamente se não prestamos atenção a eles.

O psicólogo Rick Hanson costuma explicar essa dinâmica a partir da forma como nosso cérebro evoluiu: acontecimentos negativos tendem a permanecer conosco com mais facilidade, enquanto os positivos precisam ser percebidos e assimilados de maneira mais consciente.

Por isso, uma das estratégias propostas pelas pesquisas sobre bem-estar é bastante simples: quando perceber que entrou em um fluxo persistente de pensamentos negativos, procure identificar também algum aspecto real e positivo daquele momento.

Não se trata de inventar motivos para estar feliz.

Também não significa substituir problemas por um otimismo artificial.

A proposta é ampliar a percepção.

Talvez o trânsito esteja mais tranquilo naquele dia. Talvez você tenha acordado sem aquela dor que incomodava há dias. Talvez alguém tenha enviado uma mensagem carinhosa. Talvez exista uma música de que você gosta tocando naquele instante.

Essas experiências não apagam as dificuldades, mas impedem que elas ocupem todo o nosso campo de atenção.

Duas pessoas podem viver situações muito diferentes no mesmo lugar

Nenhuma experiência humana é completamente objetiva.

Duas pessoas podem estar exatamente no mesmo ambiente e, ainda assim, perceber e recordar aquele momento de maneiras bastante diferentes.

Idade, história de vida, cultura, expectativas e circunstâncias pessoais influenciam nossa experiência. Mas existe também aquilo que podemos chamar de disposição para perceber aspectos positivos.

Uma pessoa pode olhar para um dia comum e lembrar principalmente dos contratempos.

Outra pode viver os mesmos problemas, mas também registrar uma conversa agradável, uma refeição prazerosa ou um momento de tranquilidade.

Isso não transforma uma delas em alguém ingênuo.

A diferença está, muitas vezes, no foco da atenção.

E atenção pode ser treinada.

Essa perspectiva se aproxima da própria compreensão de felicidade defendida pelo Instituto Movimento pela Felicidade: não como um estado permanente ou um privilégio de algumas pessoas, mas como uma competência humana que pode ser compreendida, desenvolvida e aplicada de maneira consciente.

O cotidiano está cheio de pequenos acontecimentos positivos

Em Pessoas felizes fazem coisas incríveis, Benedito Nunes também apresenta a felicidade como uma construção diária, alimentada por hábitos, escolhas e pela capacidade de reconhecer valor nas experiências da vida.

Essa ideia ajuda a compreender por que momentos aparentemente insignificantes podem ter tanta importância.

Imagine alguém trabalhando enquanto uma música toca ao fundo.

Durante boa parte do tempo, a pessoa talvez nem perceba os sons. Está concentrada nas tarefas, preocupada com algum problema ou antecipando o compromisso seguinte.

Mas basta interromper essa sequência por alguns segundos e realmente escutar.

De repente, aquilo que era apenas ruído de fundo se transforma em uma experiência agradável.

O mesmo vale para tantas situações do cotidiano.

A luz entrando pela janela.

O vento movimentando as folhas.

O sorriso de alguém.

Uma fotografia sobre uma mesa.

O cheiro de uma refeição.

A lembrança despertada por uma música.

O problema não é a falta de experiências positivas. Muitas vezes, é a falta de atenção dedicada a elas.

Psicologia positiva: desenvolver aquilo que já funciona

Foi justamente a tentativa de ampliar o olhar sobre a saúde mental que ajudou a consolidar, nos anos 1990, o movimento conhecido como psicologia positiva.

Um de seus principais nomes, o psicólogo Martin Seligman, questionou uma abordagem concentrada quase exclusivamente em doenças, transtornos e dificuldades psicológicas.

A proposta não era abandonar o estudo do sofrimento humano.

Era acrescentar outra pergunta: além de tratar aquilo que está errado, como podemos fortalecer aquilo que já funciona bem?

Isso inclui emoções positivas, relações, forças pessoais, propósito, engajamento e outras dimensões capazes de contribuir para uma vida mais satisfatória.

A psicologia positiva ajudou a consolidar uma ideia particularmente importante: algumas características relacionadas ao bem-estar podem ser desenvolvidas por meio da prática.

Em outras palavras, nosso nível de felicidade não está completamente determinado pela personalidade, pela genética ou pela história familiar.

Há espaço para aprendizagem.

Praticar o positivo não significa negar a realidade

É importante estabelecer uma diferença.

Buscar experiências positivas não é fingir que tudo está bem.

Não significa desconsiderar tristeza, ansiedade, frustração ou problemas reais.

A vida humana inclui todas essas experiências.

O que se propõe é evitar que a atenção permaneça permanentemente capturada pelo que está errado.

Quando percebemos uma emoção difícil, podemos reconhecê-la e, ao mesmo tempo, procurar algo igualmente verdadeiro que ofereça outra perspectiva: esperança, gratidão, prazer, vínculo, segurança ou tranquilidade.

Esse exercício pode ajudar a ampliar nosso repertório emocional.

E, aos poucos, também pode modificar a maneira como registramos nossas experiências na memória.

Guardar os bons momentos também é uma habilidade

Uma experiência positiva pode durar poucos segundos.

O que fazemos com ela depois é outra história.

Recordar conscientemente momentos agradáveis ajuda a dar maior espaço a essas experiências em nossa memória.

É como se disséssemos ao cérebro: isso também importa.

Uma fotografia de uma pessoa querida pode despertar lembranças.

Um cartão recebido de alguém especial pode trazer novamente a sensação de afeto.

O canto de um pássaro, um sabor familiar ou a luz atravessando uma janela podem criar pequenas pausas de bem-estar.

São acontecimentos simples.

Mas são justamente esses acontecimentos que formam grande parte dos nossos dias.

E talvez uma vida mais feliz dependa, em parte, de aprender a reconhecê-los.

A felicidade pode começar com uma pausa de poucos segundos

Não precisamos transformar a rotina inteira para praticar essa habilidade.

Podemos começar agora.

Olhar para o ambiente e identificar algo agradável.

Perceber uma sensação física confortável.

Reconhecer uma pessoa importante.

Escutar verdadeiramente uma música.

Observar a luz, a temperatura ou algum elemento da natureza.

Não é uma técnica complicada.

A dificuldade está justamente em lembrar de fazê-la.

Com a repetição, entretanto, aquilo que inicialmente exige esforço pode se transformar em hábito.

E hábitos moldam a maneira como vivemos.

Felicidade como competência e escolha consciente

Um dos pontos mais importantes da ciência da felicidade é perceber que bem-estar não depende exclusivamente daquilo que acontece conosco.

Também depende da maneira como nos relacionamos com nossas experiências.

Isso não significa que tenhamos controle sobre tudo.

Não escolhemos todas as circunstâncias, não evitamos todas as perdas e nem podemos eliminar todos os problemas.

Mas podemos desenvolver uma relação mais consciente com nossa própria atenção.

Podemos aprender a não permitir que somente aquilo que falta, preocupa ou ameaça determine nossa percepção da vida.

Esse entendimento está no centro do trabalho do Instituto Movimento pela Felicidade, que busca disseminar a felicidade à luz da ciência e transformá-la em conhecimento aplicável ao cotidiano das pessoas.

Talvez seja justamente essa uma das ideias mais libertadoras sobre felicidade: ela não precisa ser aguardada.

Pode ser praticada.

Não como obrigação de estar alegre o tempo inteiro, mas como capacidade de perceber, registrar e valorizar aquilo que também existe de bom em meio à complexidade da vida.

A felicidade pode estar em acontecimentos extraordinários, sem dúvida.

Mas, na maior parte dos dias, ela provavelmente estará escondida em coisas muito menores.

E aprender a encontrá-la também é aprender a olhar.

Postagem inspirada na notícia “Happiness Can Be Learned”.

Viver mais é importante, mas viver melhor é o que realmente importa

A longevidade se tornou um dos grandes temas do nosso tempo. Suplementos, relógios inteligentes, banhos gelados, protocolos de jejum, exames avançados e diferentes estratégias de biohacking prometem ajudar as pessoas a viver por mais tempo e com mais saúde.

Mas, diante de tantas informações, surge uma questão essencial: afinal, o que realmente contribui para uma vida longa e saudável e o que é apenas mais uma tendência passageira do universo do bem-estar?

As pesquisas sobre longevidade ajudam a colocar essa discussão em perspectiva. Mais do que simplesmente acrescentar anos à vida, a ciência vem reforçando a importância de preservar autonomia, capacidade física, saúde mental, vínculos sociais e propósito ao longo do envelhecimento.

Em outras palavras, talvez a pergunta mais relevante não seja apenas “quanto tempo queremos viver?”, mas “como queremos viver durante esse tempo?”.

Mais anos de vida não significam necessariamente mais saúde

Existe uma diferença importante entre expectativa de vida e expectativa de vida saudável.

O chamado healthspan, que pode ser entendido como o período da vida vivido com boa saúde e sem limitações significativas provocadas por doenças ou incapacidades, tornou-se um conceito central nas pesquisas sobre longevidade.

Essa distinção é importante porque viver muitos anos não significa necessariamente permanecer saudável durante todo esse período.

Como explica Niko Hems, responsável pelas áreas de estratégia e comunicação médica da clínica preventiva YEARS, de Berlim, o verdadeiro objetivo da longevidade não deveria ser simplesmente adicionar anos à existência.

“Falamos sobre longevidade como se o objetivo fosse acrescentar mais anos. O verdadeiro objetivo é continuar sendo a pessoa que você deseja ser pelo maior tempo possível.”

Essa ideia amplia profundamente a discussão sobre envelhecimento.

Para muitas pessoas, chegar aos 80, 90 ou 100 anos é menos importante do que continuar caminhando, convivendo com amigos, viajando, aprendendo, cuidando da própria casa, participando da vida familiar ou realizando atividades que tenham significado.

Longevidade, portanto, também é autonomia.

As estratégias mais importantes continuam sendo as mais simples

Em um mercado repleto de novidades, existe uma tendência natural de buscar a próxima descoberta capaz de prolongar a vida.

Mas algumas das evidências científicas mais consistentes continuam apontando para hábitos conhecidos há bastante tempo.

Movimentar o corpo regularmente é um deles.

Uma boa capacidade cardiorrespiratória está associada a menor risco de mortalidade, enquanto a preservação da força muscular contribui para manter independência e funcionalidade à medida que envelhecemos.

Isso não significa que todos precisem se transformar em atletas.

Caminhadas, exercícios de força, mobilidade e outras formas de movimento incorporadas de maneira sustentável ao cotidiano podem ajudar a construir uma espécie de reserva física para o futuro.

A lógica é simples: quanto mais capacidade funcional preservamos hoje, maiores são as chances de continuar realizando atividades importantes amanhã.

Essa perspectiva dialoga diretamente com um dos princípios da ciência da felicidade: o bem-estar costuma ser construído menos por grandes acontecimentos isolados e mais pela consistência de pequenas escolhas realizadas ao longo do tempo. Como também propõe o livro Pessoas felizes fazem coisas incríveis, a felicidade pode ser compreendida como uma construção diária alimentada por hábitos, escolhas e relações.

Conhecer o próprio corpo também é prevenção

Outro aspecto relevante da longevidade é conhecer alguns indicadores fundamentais da própria saúde.

Pressão arterial, glicemia, colesterol e outros marcadores podem revelar alterações antes que apareçam sintomas evidentes.

A intenção não é transformar a vida em uma vigilância permanente de números e aplicativos, mas compreender quais indicadores são relevantes para cada pessoa e acompanhá-los com orientação profissional.

Existe uma diferença importante entre cuidar da saúde apenas quando surge um problema e construir uma cultura de prevenção.

Quanto mais cedo algumas alterações são identificadas, maiores costumam ser as possibilidades de intervenção.

Por isso, exames periódicos e acompanhamento profissional podem ajudar a transformar informações sobre o organismo em decisões mais conscientes.

Dormir também é uma estratégia de longevidade

O sono é outro elemento frequentemente subestimado.

Rotinas profissionais exigentes, responsabilidades familiares, preocupações financeiras, dores físicas e o uso constante de dispositivos eletrônicos fazem com que muitas pessoas durmam menos do que precisam.

Entretanto, pesquisas vêm associando tanto a duração adequada quanto a regularidade do sono a melhores desfechos de saúde.

Um estudo mencionado na pesquisa sobre longevidade observou que adultos com sono regular e adequado apresentavam risco de mortalidade 39% menor em comparação com pessoas que dormiam de maneira irregular e insuficiente.

Isso não significa que seja necessário dormir e acordar exatamente no mesmo horário todos os dias.

A mensagem é mais simples: descanso suficiente e uma rotina relativamente consistente fazem parte dos pilares básicos da saúde.

Dormir bem também influencia nossa disposição, nossa capacidade de regular emoções e a forma como reagimos aos acontecimentos cotidianos.

Por isso, o sono não deve ser entendido apenas como uma pausa entre dois dias produtivos. Ele é parte ativa da nossa saúde física e emocional.

Relações humanas também fazem parte da longevidade

Talvez uma das dimensões mais importantes dessa discussão não esteja em exames, tecnologias ou suplementos.

Está nas relações.

Ser humano é também pertencer.

Amizades, vínculos familiares, comunidades, grupos de interesse e relações afetivas oferecem suporte emocional, companhia, identidade e sensação de pertencimento.

Isso não significa precisar estar cercado de pessoas o tempo inteiro. Significa saber que existem relações significativas disponíveis quando precisamos compartilhar uma alegria, uma preocupação ou simplesmente uma conversa.

O tema ocupa espaço importante nos estudos sobre felicidade. O Instituto Movimento pela Felicidade destaca justamente a qualidade das relações como uma dimensão fundamental do bem-estar e da longevidade.

Essa perspectiva também aparece nas pesquisas de longa duração realizadas por Harvard, que observaram uma associação importante entre qualidade das relações, saúde e bem-estar ao longo da vida, tema igualmente abordado em Pessoas felizes fazem coisas incríveis.

Talvez seja por isso que envelhecer bem não dependa apenas do funcionamento do coração, dos músculos ou do metabolismo.

Também depende de ter pessoas com quem dividir a vida.

Propósito pode ser tão importante quanto prevenção

Existe ainda outro componente essencial para pensar a longevidade: propósito.

O que desejamos continuar fazendo quando envelhecermos?

Cuidar da família? Viajar? Trabalhar em projetos que tenham significado? Participar da comunidade? Ensinar algo? Aprender algo novo? Conviver com amigos?

Essas perguntas ajudam a transformar saúde em algo concreto.

Cuidar do corpo deixa de ser apenas uma tentativa abstrata de evitar doenças e passa a estar ligado à possibilidade de continuar vivendo aquilo que consideramos importante.

Nesse sentido, saúde e propósito se encontram.

Ter objetivos, sentir-se útil e perceber significado na própria trajetória pode influenciar profundamente a maneira como experimentamos cada etapa da vida.

A longevidade deixa então de ser uma competição contra o relógio para se tornar uma oportunidade de ampliar experiências, relações e contribuições.

Não é preciso mudar tudo ao mesmo tempo

Talvez um dos maiores erros na busca por uma vida mais saudável seja acreditar que precisamos transformar completamente nossos hábitos de uma única vez.

Na prática, mudanças radicais costumam ser difíceis de sustentar.

Começar pequeno pode ser mais eficiente.

Uma caminhada diária. Um horário um pouco mais regular para dormir. Uma consulta médica que vinha sendo adiada. Um reencontro com alguém importante. Uma atividade que devolva sentido ao cotidiano.

Essas escolhas podem parecer simples, mas acumuladas ao longo dos anos ajudam a formar um estilo de vida mais saudável.

O Instituto Movimento pela Felicidade trabalha justamente com essa perspectiva ao abordar a preparação positiva para a longevidade, aproximando envelhecimento, bem-estar e princípios da psicologia positiva.

Longevidade também é qualidade de vida

Viver mais é uma conquista extraordinária da sociedade contemporânea.

Mas talvez o grande desafio daqui para frente não seja apenas aumentar a quantidade de anos disponíveis.

Será melhorar a qualidade desses anos.

Isso significa preservar movimento, autonomia, descanso, saúde emocional, relações significativas e razões para continuar acordando com interesse pelo dia que começa.

A ciência da felicidade nos lembra que uma vida plena não é construída apenas pela ausência de doenças. Ela envolve conexão, significado, escolhas conscientes e capacidade de perceber valor no cotidiano.

Por isso, talvez a melhor estratégia de longevidade não esteja em perseguir obsessivamente cada nova tendência.

Ela pode começar em algo muito mais simples: cuidar do corpo que nos permite experimentar a vida, das pessoas que caminham ao nosso lado e dos propósitos que fazem essa caminhada valer a pena.

No fim, a verdadeira medida de uma vida longa talvez não esteja apenas no número de anos vividos, mas na quantidade de vida que conseguimos colocar dentro deles.

Postagem inspirada na notícia “The Real Difference Between Living Longer and Living Better”.

Bem-estar de jovens adultos cai de forma acentuada e acende alerta sobre o futuro

A forma como os jovens adultos avaliam suas próprias vidas piorou de maneira significativa nos últimos anos nos Estados Unidos, segundo novos dados da Gallup. Entre pessoas de 18 a 29 anos, apenas 44% foram classificadas como “prosperando” em 2026, percentual 20 pontos abaixo do pico de 64% registrado em 2010.

A queda não ocorreu de maneira uniforme ao longo do tempo. Em 2019, 57% dos jovens adultos ainda estavam nessa categoria. Durante a pandemia de Covid-19, o índice despencou para 39% em 2020. Houve uma recuperação parcial nos anos seguintes, chegando a 51% em 2023, mas o movimento voltou a perder força.

O dado chama atenção não apenas pela intensidade da queda, mas também pelo que ela revela sobre a experiência de vida das gerações mais jovens.

No levantamento, a Gallup considera que uma pessoa está “prosperando” quando avalia sua vida atual com nota 7 ou superior, em uma escala de zero a dez, e espera que sua vida em cinco anos alcance nota 8 ou mais.

Em outras palavras, a classificação combina duas dimensões importantes para o bem-estar: satisfação com o presente e esperança em relação ao futuro.

A queda não se limita aos mais jovens

Os adultos entre 30 e 44 anos apresentam uma trajetória semelhante.

Em 2026, 45% das pessoas dessa faixa etária foram classificadas como prosperando. Em 2016 e 2017, esse percentual havia chegado a 62%.

Entre aqueles com idade de 45 a 64 anos, a deterioração foi menos intensa, mas os números também preocupam. O índice de 46% registrado em 2026 iguala o nível mais baixo observado para esse grupo desde 2008.

O contraste aparece entre os adultos de 65 anos ou mais.

Nesse grupo, a avaliação positiva da vida melhorou progressivamente ao longo do tempo, passando de 38% em 2008 para 53% em 2026, igualando o melhor resultado já registrado anteriormente, em 2021.

Assim, enquanto diferentes gerações em idade ativa enfrentam uma redução importante em sua percepção de bem-estar, os mais velhos seguem uma direção oposta.

O problema parece acompanhar as gerações

Uma das análises mais relevantes do levantamento surge quando os pesquisadores observam os mesmos grupos de nascimento ao longo do tempo.

Entre pessoas que atualmente têm entre 34 e 46 anos, 46% são classificadas como prosperando.

Em 2010, quando esse mesmo grupo fazia parte da população de 18 a 29 anos, o percentual era de 64%.

Isso indica que a piora não pode ser explicada apenas pela substituição de uma geração por outra.

A avaliação da vida também diminuiu à medida que esse grupo envelheceu.

Ao mesmo tempo, os jovens que chegaram posteriormente à vida adulta já estão começando essa etapa com indicadores de bem-estar inferiores aos registrados pelas gerações anteriores.

O fenômeno sugere que mudanças econômicas, sociais e emocionais podem estar alterando de maneira mais ampla a forma como as pessoas experimentam o início e a consolidação da vida adulta.

Saúde mental, relações e prazer cotidiano perderam força

A maior parte da deterioração entre os jovens ocorreu depois de 2019.

Segundo a Gallup, alguns dos indicadores mais associados à avaliação da vida ajudam a compreender essa mudança.

Entre eles aparecem o crescimento da depressão, a piora na qualidade dos relacionamentos próximos, a redução das experiências diárias de prazer e a diminuição da sensação de estar ativo e produtivo no cotidiano.

Também houve quedas na satisfação com o padrão de vida, na percepção de contar com lideranças capazes de gerar entusiasmo em relação ao futuro e na sensação de alcançar objetivos pessoais.

Entre os adultos de 30 a 44 anos, o diagnóstico ou tratamento de depressão chegou a 37%, um aumento de 15 pontos em relação a 2019.

Na mesma faixa etária, a parcela daqueles que relatavam experiências significativas de prazer no dia a dia caiu 16 pontos, chegando a 63%.

Também houve reduções relevantes no sentimento de produtividade, no orgulho em relação à comunidade e na percepção de existir alguma liderança capaz de despertar confiança no futuro.

Esses indicadores mostram que o bem-estar dificilmente pode ser reduzido a uma única variável.

Ele envolve saúde mental, qualidade das relações, condições materiais, participação social, propósito e percepção de futuro.

Essa perspectiva dialoga diretamente com a ciência da felicidade, que procura compreender o bem-estar como resultado de diferentes dimensões da experiência humana e não apenas como uma emoção passageira.

Relações humanas aparecem novamente no centro da questão

A deterioração na qualidade dos vínculos próximos é especialmente significativa.

O Instituto Movimento pela Felicidade destaca as relações positivas como um dos territórios fundamentais para compreender felicidade, saúde e longevidade. No programa Diálogos com a Felicidade, as relações familiares positivas são tratadas justamente como um dos elementos centrais para a construção do bem-estar.

Quando a qualidade dos relacionamentos diminui, o impacto tende a ultrapassar o campo social.

Ter pessoas com quem contar, compartilhar dificuldades, experimentar pertencimento e construir confiança ajuda a formar uma espécie de rede de proteção emocional.

Por outro lado, solidão, isolamento e deterioração dos vínculos podem ampliar a vulnerabilidade diante de estresse, ansiedade e depressão.

Os dados da Gallup sugerem que essa dimensão relacional está justamente entre aquelas que mais se fragilizaram entre os jovens adultos.

Insegurança econômica também pesa na percepção da vida

A piora do bem-estar não ocorre isoladamente das condições materiais.

Entre os fatores apontados pela análise aparecem dificuldades de acesso à moradia, insegurança profissional, aumento das despesas básicas e receio de instabilidade no mercado de trabalho.

Há também uma nova fonte de preocupação: o impacto potencial da inteligência artificial sobre os empregos.

Segundo a Gallup, o temor de perder oportunidades profissionais para sistemas de IA é maior entre pessoas abaixo dos 45 anos.

Ao mesmo tempo, cresceu o pessimismo em relação ao mercado de trabalho, inclusive entre pessoas com formação universitária.

Esse cenário ajuda a compreender por que satisfação econômica e percepção de futuro caminham tão próximas da avaliação geral da vida.

A felicidade não depende exclusivamente da renda. Mas sentir-se constantemente ameaçado por dívidas, desemprego, falta de moradia acessível ou instabilidade financeira pode reduzir drasticamente a sensação de segurança e liberdade.

Por que os mais velhos estão melhorando?

O movimento observado entre adultos de 65 anos ou mais ajuda a reforçar essa interpretação.

Enquanto os grupos mais jovens registraram piora, os idosos apresentaram avanços em diferentes indicadores ligados à segurança financeira.

A parcela daqueles que dizem ter dinheiro suficiente para fazer tudo o que desejam aumentou, assim como o número de pessoas que passaram a relatar menos preocupações financeiras ao longo da semana.

A insegurança alimentar também caiu significativamente.

Ao mesmo tempo, cresceu a proporção de idosos que dizem sentir-se seguros e protegidos.

A análise sugere que o patrimônio acumulado por parte dessa geração e uma posição financeira relativamente mais confortável podem ter ajudado a proteger esse grupo de algumas das pressões enfrentadas por adultos mais jovens.

Além disso, pessoas acima de 65 anos tendem a estar menos expostas a preocupações como construção de carreira, custos relacionados à criação dos filhos, acesso à primeira moradia e competição no mercado de trabalho.

Também chama atenção o fato de a depressão ter diminuído justamente entre os mais velhos, enquanto aumentou entre adultos mais jovens.

Felicidade depende também de acreditar que o futuro é possível

Talvez um dos aspectos mais profundos do levantamento esteja justamente na forma como o bem-estar é medido.

Não basta avaliar positivamente a vida atual.

Para ser considerada prosperando, a pessoa também precisa acreditar que sua vida será melhor no futuro.

Isso coloca esperança, expectativa e perspectiva no centro da discussão sobre felicidade.

Uma sociedade em que as pessoas deixam de acreditar que podem melhorar de vida enfrenta um desafio que ultrapassa indicadores econômicos tradicionais.

O problema passa a ser também emocional e social.

Em Pessoas felizes fazem coisas incríveis, Benedito Nunes apresenta a felicidade como uma construção que envolve escolhas, relações, saúde, resiliência, propósito e capacidade de atribuir sentido à própria trajetória.

Os dados da Gallup ajudam a mostrar como essas dimensões podem se deteriorar simultaneamente.

Quando diminuem a qualidade das relações, o sentimento de realização, a segurança econômica, a produtividade percebida e a confiança no futuro, a própria avaliação da vida tende a acompanhar esse movimento.

Um alerta que ultrapassa os Estados Unidos

Embora os dados retratem especificamente a realidade norte-americana, as questões levantadas são relevantes para outras sociedades.

O enfraquecimento das relações, a expansão dos problemas de saúde mental, a pressão econômica, a insegurança profissional e a dificuldade de imaginar um futuro melhor não são fenômenos restritos a um único país.

Por isso, o levantamento também convida a ampliar a forma como medimos progresso.

Crescimento econômico e inovação são importantes, mas não contam toda a história sobre a qualidade de vida de uma sociedade.

Perguntar se as pessoas se sentem saudáveis, conectadas, seguras, produtivas e esperançosas pode revelar dimensões que os indicadores tradicionais deixam escapar.

É justamente nesse ponto que a ciência da felicidade oferece uma contribuição importante.

Felicidade não significa ignorar dificuldades ou exigir que todos permaneçam permanentemente otimistas. Significa criar condições individuais e coletivas para que as pessoas possam desenvolver relações significativas, cuidar da saúde mental, encontrar propósito, sentir segurança e enxergar possibilidades reais no futuro.

Quando uma geração inteira começa a avaliar sua vida de maneira menos positiva, portanto, o problema não deve ser interpretado apenas como uma questão individual.

Pode ser um sinal de que algo no ambiente social, econômico e relacional precisa ser revisto.

E talvez uma das perguntas mais importantes para sociedades que desejam prosperar seja justamente esta: estamos construindo um futuro no qual as novas gerações consigam acreditar?

Postagem inspirada na notícia “Life Ratings of Young Adults Down 20 Points Since 2010”.

Colorir pelo celular ou tablet também pode ajudar a reduzir estresse e ansiedade

Celulares e tablets costumam aparecer no centro das discussões sobre os efeitos negativos do excesso de tempo diante das telas. Mas uma nova pesquisa sugere que a relação entre tecnologia e saúde mental pode ser mais complexa do que simplesmente contar quantas horas uma pessoa permanece conectada.

Um estudo publicado no Journal of Mental Health descobriu que atividades de colorir realizadas em dispositivos digitais podem proporcionar benefícios semelhantes aos obtidos com lápis e papel, contribuindo para reduzir estresse, ansiedade e sintomas de depressão entre jovens.

A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade de Southampton, no Reino Unido, acompanhou quase 300 estudantes universitários durante um programa de colorir com atenção plena. Os participantes realizaram pelo menos seis sessões ao longo de duas semanas.

Aproximadamente metade utilizou lápis de cor e papel. A outra metade realizou a atividade por meio de aplicativos de colorir em celulares ou tablets.

Ao final da experiência, os dois grupos apresentaram melhorias significativas em indicadores de estresse, atenção plena e sintomas autorrelatados de ansiedade e depressão.

E um resultado chamou especialmente a atenção: os maiores benefícios foram observados justamente entre aqueles que apresentavam níveis mais baixos de bem-estar antes de iniciar o programa.

Nem todo tempo de tela é igual

Para Emma Palmer Cooper, professora associada de Psicologia da Universidade de Southampton e responsável pela pesquisa, boa parte dos estudos sobre dispositivos móveis concentra sua atenção nos possíveis prejuízos relacionados ao uso da tecnologia.

Mas olhar apenas para o tempo de tela pode esconder uma questão importante: o que fazemos enquanto estamos diante dela.

Redes sociais, jogos, aplicativos de mensagens, leitura, trabalho, exercícios de respiração e atividades criativas são experiências muito diferentes, ainda que todas ocorram diante de uma tela.

Segundo Palmer Cooper, o impacto dos dispositivos digitais varia de acordo com a atividade realizada. Por isso, ao concentrar a discussão apenas nos riscos, podemos deixar de perceber algumas possibilidades de utilizar a própria tecnologia para estimular práticas relacionadas à atenção plena e ao bem-estar.

Essa perspectiva ajuda a deslocar o debate de uma pergunta simples, como “quanto tempo você passa no celular?”, para outra talvez mais relevante: “como você utiliza esse tempo?”.

Por que colorir pode ajudar a acalmar a mente?

Pesquisas anteriores já haviam relacionado atividades de colorir a melhorias no bem-estar e a uma maior sensação de calma.

Uma das possíveis explicações está na capacidade da atividade de direcionar a atenção para o momento presente.

Ao escolher cores, observar formas e preencher espaços, a pessoa concentra seus recursos mentais em uma tarefa específica. Isso pode reduzir, pelo menos temporariamente, o espaço ocupado por pensamentos repetitivos, preocupações ou emoções negativas.

É uma lógica semelhante à encontrada em algumas práticas de atenção plena: em vez de permanecer mergulhada em antecipações sobre o futuro ou acontecimentos do passado, a mente recebe um ponto concreto de atenção no presente.

Colorir também combina concentração e criatividade, mas sem exigir necessariamente uma grande habilidade artística. O objetivo não precisa ser produzir uma obra perfeita. A própria atividade pode ser a experiência.

Uma ferramenta simples em um momento de mudanças

O estudo se concentrou em universitários, um grupo que pode atravessar mudanças importantes em um curto período da vida.

Para muitos jovens, o ingresso na universidade significa sair de casa, afastar-se temporariamente de familiares e amigos, assumir novas responsabilidades e construir uma nova rede social.

Essas transformações podem ser estimulantes, mas também podem trazer insegurança, solidão e pressão.

Palmer Cooper destaca que as universidades têm um papel importante na criação de estruturas de apoio aos estudantes, mas os resultados sugerem que atividades simples e de baixo custo, como o colorir com atenção plena, também podem funcionar como um recurso complementar de promoção do bem-estar.

Isso não significa substituir acompanhamento psicológico ou tratamento quando eles são necessários. Trata-se de ampliar o repertório de práticas que podem contribuir para o autocuidado cotidiano.

Quando a tecnologia deixa de ser apenas distração

Há outro aspecto interessante nos resultados.

Hoje, para muitos jovens, encontrar um celular ou tablet disponível pode ser muito mais fácil do que ter em mãos lápis de cor, desenhos impressos e outros materiais.

Se a versão digital da atividade produz resultados semelhantes, isso aumenta sua acessibilidade.

A pesquisa sugere, portanto, que a própria tecnologia frequentemente associada à distração também pode ser utilizada de maneira intencional para criar momentos de concentração e desaceleração.

Essa mudança de perspectiva é importante porque nossa relação com a tecnologia provavelmente não será construída apenas pela tentativa de eliminá-la da vida cotidiana.

O desafio talvez esteja em desenvolver uma relação mais consciente com os dispositivos, reconhecendo quando eles contribuem para o excesso de estímulos e quando podem funcionar como ferramentas úteis.

Felicidade também envolve aprender a direcionar a atenção

A pesquisa se conecta a uma questão relevante para a ciência da felicidade: nosso bem-estar não depende somente daquilo que acontece ao nosso redor, mas também da forma como direcionamos nossa atenção e construímos nossos hábitos.

O Instituto Movimento pela Felicidade trabalha justamente com a compreensão da felicidade como uma competência que pode ser desenvolvida e aplicada à vida pessoal, social e profissional. Isso envolve reconhecer práticas que contribuam para uma existência mais saudável, consciente e equilibrada.

Em Pessoas felizes fazem coisas incríveis, Benedito Nunes também apresenta a felicidade como uma construção cotidiana alimentada por hábitos, escolhas e pela maneira como nos relacionamos com nossas próprias experiências.

Nesse contexto, a atividade de colorir pode parecer pequena. E talvez seja justamente esse o ponto.

Nem todas as estratégias de promoção do bem-estar precisam envolver grandes transformações. Às vezes, alguns minutos dedicados a uma atividade capaz de organizar a atenção, reduzir o fluxo de preocupações e criar espaço mental podem ajudar a tornar o dia mais leve.

O estudo não transforma celulares e tablets em aliados automáticos da saúde mental, tampouco elimina os riscos associados ao uso excessivo ou inadequado das telas. O que ele acrescenta é uma perspectiva mais equilibrada: a tecnologia não possui um efeito único sobre o bem-estar.

Muito depende daquilo que fazemos com ela.

Ao substituir alguns minutos de consumo automático de conteúdo por uma atividade criativa e consciente, talvez a mesma tela que frequentemente dispersa nossa atenção possa, em determinados momentos, ajudar justamente a recuperá-la.

Postagem inspirada na notícia “Colouring on devices can improve student wellbeing, study finds”.

O aroma do café pode melhorar o humor, sugere pequeno estudo

Para milhões de pessoas, o cheiro de café recém-passado faz parte do início do dia, de uma pausa no trabalho ou de momentos de convivência. Agora, um pequeno estudo realizado no Japão sugere que esse aroma tão familiar pode ter efeitos sobre o humor mesmo antes do primeiro gole.

A pesquisa, publicada na revista científica Nutrients, investigou como a exposição por alguns minutos ao cheiro de café recém-preparado afetava o estado emocional, a atividade cerebral e a frequência cardíaca de 20 estudantes universitários japoneses.

Os participantes não beberam o café. Durante o experimento, ficaram próximos a um recipiente com a bebida recém-preparada e simplesmente respiraram normalmente enquanto o aroma se espalhava pelo ambiente.

Após cinco minutos, os pesquisadores observaram reduções significativas em indicadores relacionados a fadiga, tensão, ansiedade, confusão e depressão. As medições das ondas cerebrais também registraram uma pequena elevação em um índice associado ao relaxamento.

Os resultados são iniciais e precisam ser interpretados com cautela, mas levantam uma questão interessante: até que ponto estímulos aparentemente simples do cotidiano podem influenciar momentaneamente a forma como nos sentimos?

O poder sensorial de um café recém-passado

O aroma do café resulta de uma combinação complexa de centenas de compostos voláteis produzidos durante a torra e liberados no preparo.

Quando os grãos são aquecidos, diferentes reações químicas formam substâncias responsáveis pelos inúmeros aromas associados ao café. Mais tarde, ao entrar em contato com a água quente, parte desses compostos é liberada no ar, criando o cheiro facilmente reconhecido por tantas pessoas.

Estudos anteriores já haviam sugerido que o aroma do café poderia estar associado a alterações no humor, na atenção, no nível de estresse e até na atividade cerebral.

A novidade desta pesquisa foi observar diferentes respostas ao mesmo tempo.

Antes e depois da exposição ao aroma, os cientistas avaliaram o estado emocional dos participantes, registraram sua atividade cerebral por eletroencefalografia e acompanharam indicadores cardíacos.

Para preparar o café usado no experimento, foram utilizados 20 gramas de café moído de Sumatra e 400 mililitros de água aquecida a 85 °C. O preparo foi realizado em filtro de papel por aproximadamente três minutos.

Depois disso, o recipiente foi colocado a cerca de 50 centímetros dos participantes, que permaneceram respirando normalmente durante cinco minutos.

Menos emoções negativas, mas sem aumento de energia

Depois da exposição ao cheiro do café, houve uma redução significativa na avaliação geral de perturbação do humor.

Curiosamente, porém, os níveis de energia dos participantes não apresentaram mudanças relevantes.

Isso sugere que, pelo menos nesse pequeno experimento, o aroma pareceu estar mais associado à redução de estados emocionais negativos do que a uma sensação propriamente estimulante.

A atividade cerebral também apresentou uma alteração pequena, mas estatisticamente significativa. O chamado índice de relaxamento aumentou aproximadamente de 0,74 para 0,78.

Já a frequência cardíaca e a variabilidade do ritmo cardíaco não mostraram alterações significativas.

Outro resultado interessante foi que as mudanças emocionais observadas em cada participante não acompanharam necessariamente as alterações cerebrais ou cardíacas.

Os pesquisadores levantam, assim, a hipótese de que humor, atividade cerebral e funcionamento cardiovascular possam responder de maneiras relativamente independentes ao estímulo, em vez de serem manifestações de um único mecanismo fisiológico.

Um resultado interessante, mas ainda preliminar

Apesar dos achados, existe uma limitação importante.

O estudo não contou com um grupo de comparação.

Nenhum participante passou pelos mesmos cinco minutos em uma situação sem cheiro ou diante apenas de água quente, por exemplo.

Sem essa comparação, não é possível afirmar com segurança que as mudanças observadas foram provocadas especificamente pelo aroma do café. Outros fatores, como permanecer alguns minutos em repouso durante o experimento, podem ter contribuído para os resultados.

Além disso, o número de participantes foi pequeno.

Os próprios achados, portanto, apontam para a necessidade de pesquisas maiores, randomizadas e com grupos de controle que comparem o café com outros aromas ou com a ausência de estímulos olfativos.

Felicidade também pode estar nas pequenas experiências

Mesmo com essas limitações, a pesquisa chama atenção para uma dimensão importante do bem-estar: nossa relação com as experiências sensoriais do cotidiano.

Um cheiro conhecido, uma música, a luz do começo da manhã, uma conversa agradável ou alguns minutos de tranquilidade podem parecer acontecimentos pequenos diante das grandes preocupações da vida. Ainda assim, essas experiências ajudam a compor a maneira como atravessamos nossos dias.

Na ciência da felicidade, compreender o bem-estar não significa buscar um estado permanente de euforia. A felicidade pode ser entendida também como uma construção cotidiana, formada por hábitos, escolhas, relações e pela capacidade de reconhecer experiências positivas que muitas vezes passam despercebidas. Essa ideia aparece também em Pessoas felizes fazem coisas incríveis, ao tratar a felicidade como uma jornada formada por diferentes momentos e não como uma condição constante.

Talvez seja justamente por isso que determinados rituais ganham tanto significado.

O café da manhã compartilhado, a pausa feita com atenção ou o aroma que desperta uma lembrança agradável podem funcionar como pequenas interrupções em uma rotina acelerada. Eles não resolvem dificuldades nem substituem cuidados necessários com a saúde mental, mas podem criar breves espaços de presença, conforto e conexão.

O estudo japonês ainda está longe de provar que sentir cheiro de café é uma estratégia para melhorar o bem-estar. O que ele oferece é uma pista científica curiosa sobre algo que muitas pessoas experimentam intuitivamente: nosso estado emocional também é construído pela forma como percebemos e vivenciamos o ambiente ao nosso redor.

Em uma época marcada pela pressa e pelo excesso de estímulos, prestar atenção às pequenas experiências agradáveis talvez seja uma maneira simples de recuperar algo igualmente importante para a felicidade: a capacidade de estar presente.

Postagem inspirada na notícia “Smelling freshly brewed coffee briefly improves mood, small study suggests”.

Quando as apostas dos pais afetam o bem-estar e o futuro dos filhos

Os impactos do jogo excessivo podem ultrapassar a vida de quem aposta e alcançar toda a estrutura familiar. Uma nova pesquisa realizada na Austrália mostra que comportamentos de risco relacionados às apostas entre pais e responsáveis estão associados a piores indicadores de saúde física, saúde mental, bem-estar emocional e desempenho escolar entre crianças.

O estudo, conduzido pela Australian National University (ANU), amplia a discussão sobre os danos provocados pelos jogos de azar ao mostrar que eles não devem ser compreendidos apenas como um problema individual ou financeiro. Seus efeitos podem modificar relações, rotinas e até mesmo o ambiente emocional no qual uma criança se desenvolve.

Para uma abordagem de saúde e bem-estar, essa constatação é especialmente relevante. A família é um dos primeiros espaços de construção de segurança emocional, pertencimento e confiança. Quando esse ambiente se torna instável, as consequências podem aparecer em diferentes dimensões da vida.

Os impactos vão além das perdas financeiras

A pesquisa combinou informações de dois grandes estudos longitudinais representativos da população australiana com entrevistas realizadas junto a profissionais que trabalham com apoio relacionado a jogos de azar, crianças e famílias no Território da Capital Australiana.

Nos dois conjuntos de dados analisados, comportamentos de risco relacionados às apostas dos pais estiveram associados de maneira consistente a piores resultados entre os filhos. Foram identificados problemas relacionados ao funcionamento físico, à saúde mental, ao equilíbrio emocional e ao envolvimento com a escola.

Para Aino Suomi, professora associada e diretora do Centro de Pesquisa sobre Jogos de Azar da ANU, as crianças muitas vezes permanecem pouco visíveis nas discussões sobre os prejuízos provocados pelas apostas.

Segundo a pesquisadora, elas costumam ser reunidas na ampla categoria de pessoas afetadas pelo comportamento de quem joga. No entanto, há uma diferença importante: crianças dependem diretamente dos adultos responsáveis por elas e da estabilidade do ambiente familiar.

Quando o jogo se torna excessivo, portanto, seus efeitos podem aparecer na saúde, nas relações e na participação escolar dos filhos.

Quando o estresse financeiro muda as relações familiares

O estudo também mostra que os efeitos observados não resultam apenas do ato de apostar.

As dificuldades financeiras podem intensificar os problemas, ao mesmo tempo em que a preocupação constante dos pais com o jogo pode alterar a maneira como eles se relacionam com os filhos. A combinação de tensão econômica, distração emocional e conflitos familiares pode transformar o ambiente no qual a criança cresce.

Isso ajuda a compreender por que o dinheiro representa apenas uma parte da questão.

Uma família que passa a conviver com dívidas, insegurança ou conflitos relacionados ao jogo também pode experimentar mudanças na disponibilidade emocional dos adultos. Pais preocupados ou absorvidos pelo comportamento de apostar podem ter mais dificuldade para oferecer atenção, diálogo e presença.

Nesse cenário, relações familiares positivas aparecem como um importante fator de proteção.

A pesquisa constatou que práticas parentais saudáveis e vínculos fortes entre pais e filhos podem ajudar a reduzir alguns dos impactos negativos.

Essa conclusão reforça algo que os estudos sobre felicidade e bem-estar vêm demonstrando de diferentes maneiras: a qualidade das relações que construímos exerce influência profunda sobre nossa experiência de vida.

A família não precisa ser um espaço de perfeição. Precisa, sobretudo, ser um território onde exista segurança suficiente para que dificuldades possam ser reconhecidas, conversadas e enfrentadas coletivamente.

Um problema que muitas vezes permanece escondido

Outra parte da pesquisa analisou como os serviços especializados em jogos de azar e os serviços voltados para crianças e famílias identificam situações desse tipo.

Um dos desafios é que os problemas relacionados ao jogo frequentemente permanecem ocultos.

Profissionais entrevistados relataram que sentimentos de vergonha e estigma podem dificultar a procura por ajuda. Além disso, o jogo excessivo pode acabar encoberto por situações aparentemente mais urgentes, como violência familiar, problemas de saúde mental ou abuso de álcool e outras drogas.

Isso significa que uma família pode chegar a um serviço de assistência apresentando diferentes dificuldades sem que o comportamento relacionado às apostas seja imediatamente reconhecido como parte do problema.

Por isso, os pesquisadores defendem que profissionais das áreas de saúde, assistência social e apoio familiar estejam mais preparados para investigar esse fator quando houver sinais de dificuldades financeiras, emocionais ou relacionais.

Não é preciso criar tudo novamente

Uma das conclusões mais importantes do estudo é que enfrentar o problema não exige necessariamente a criação de uma estrutura completamente nova de atendimento.

No contexto australiano analisado, os pesquisadores identificaram uma rede de profissionais já capacitada para trabalhar com saúde infantil e familiar. O desafio é tornar os impactos das apostas mais visíveis dentro dos serviços existentes.

Isso pode envolver maior conscientização dos profissionais, inclusão de perguntas adequadas sobre jogos de azar nas avaliações familiares e maior integração entre serviços especializados, assistência às famílias, saúde mental e aconselhamento financeiro.

O princípio pode ser ampliado para diferentes sociedades: muitas vezes, prevenir sofrimento não significa necessariamente criar novas instituições, mas ajudar as estruturas existentes a enxergarem melhor problemas que permanecem invisíveis.

Cuidar dos adultos também é cuidar das crianças

Quando um comportamento de risco ocorre dentro de uma família, seus efeitos raramente permanecem restritos a apenas uma pessoa.

Filhos percebem tensões, mudanças de humor, ausência emocional e conflitos, mesmo quando os adultos acreditam estar protegendo-os do problema. A experiência infantil é profundamente influenciada pelo ambiente de relações que a cerca.

Por isso, compreender os efeitos das apostas também como uma questão de saúde familiar representa uma mudança importante de perspectiva.

A felicidade e o bem-estar não são experiências construídas isoladamente. Elas dependem, entre outros elementos, da qualidade dos vínculos, da sensação de segurança e da possibilidade de contar com relações capazes de oferecer acolhimento diante das dificuldades.

Reconhecer precocemente comportamentos que ameaçam essa estabilidade pode evitar que problemas inicialmente individuais se transformem em sofrimento coletivo.

O estudo australiano nos lembra, assim, de uma responsabilidade essencial: quando cuidamos das condições emocionais, financeiras e relacionais de uma família, também estamos protegendo o desenvolvimento e as possibilidades de futuro das crianças que fazem parte dela.

Postagem inspirada na notícia “Parental gambling linked to poorer health and educational outcomes”.

Criatividade como pausa para o bem-estar: programa de arte melhora emoções e reduz estresse entre estudantes

Em meio a provas, trabalhos, prazos e às muitas exigências da vida acadêmica, parar por algumas horas para trabalhar com argila, pintar uma tela ou experimentar uma nova técnica artística pode parecer apenas uma atividade de lazer. Uma experiência realizada no Reino Unido, porém, mostra que essas pausas criativas podem representar muito mais.

O Murray Edwards College, da Universidade de Cambridge, desenvolveu ao longo do último ano acadêmico o programa Creative Breaks, uma iniciativa voltada ao bem-estar dos estudantes por meio da arte. O projeto atraiu quase um quarto da comunidade estudantil e apresentou resultados positivos na redução de emoções negativas e no aumento das positivas.

A proposta era relativamente simples: criar momentos nos quais os estudantes pudessem interromper temporariamente as demandas acadêmicas para experimentar a criatividade, a expressão pessoal e o relaxamento.

Ao longo do ano, foram realizados 12 workshops quinzenais conduzidos pela organização local Arts & Minds e por artistas profissionais. Cerâmica, mosaicos, pintura acrílica, terracota, tinta, carvão e arte têxtil estiveram entre as atividades oferecidas.

A procura foi tão grande que praticamente todas as oficinas tiveram suas vagas preenchidas, muitas vezes apenas um dia depois da abertura das inscrições.

Quando criar também significa descansar

O sucesso do programa oferece uma reflexão importante sobre nossa compreensão do descanso.

Descansar nem sempre significa simplesmente ficar parado ou dormir. Algumas atividades podem proporcionar uma mudança de foco capaz de interromper temporariamente ciclos de preocupação, pressão e estresse.

Foi justamente essa experiência que muitos participantes relataram.

Para alguns estudantes, as oficinas ofereceram a oportunidade de utilizar uma forma de pensamento completamente diferente daquela exigida pelas atividades acadêmicas. Outros disseram que os encontros ajudaram a recuperar a perspectiva diante das obrigações da universidade e a voltar posteriormente aos estudos com maior capacidade de concentração.

Um dos participantes resumiu a experiência dizendo que a atividade permitia utilizar “uma parte diferente do cérebro” daquela normalmente mobilizada pela vida acadêmica ou mesmo pelas interações sociais.

Outro estudante afirmou que as oficinas reduziram significativamente seu estresse e permitiram que se afastasse momentaneamente do trabalho acadêmico. Curiosamente, essa pausa não prejudicou sua produtividade. Segundo o relato, depois das atividades tornou-se mais fácil voltar ao trabalho e se concentrar.

É uma constatação interessante em uma cultura que frequentemente associa desempenho à ocupação permanente. Às vezes, interromper uma tarefa pode ser justamente aquilo de que precisamos para retomá-la de uma maneira mais saudável.

Os efeitos apareceram também nas emoções

O programa não foi avaliado apenas por meio das impressões dos participantes.

Antes e depois das oficinas, os estudantes responderam à escala PANAS, instrumento utilizado para avaliar afetos positivos e negativos. Os resultados mostraram que todas as oficinas estiveram associadas a um aumento significativo das emoções positivas e a uma redução significativa das emoções negativas.

Os efeitos apareceram entre diferentes perfis de participantes, incluindo estudantes de graduação e pós-graduação, britânicos e internacionais e alunos tanto das áreas de ciências e tecnologia quanto de artes, humanidades e ciências sociais.

Ao todo, 142 estudantes participaram do Creative Breaks, o equivalente a 23% da comunidade do College. Foram registradas 274 participações nas oficinas ao longo do ano. Em média, cada estudante compareceu a dois encontros, embora alguns tenham participado de até dez.

Os números ajudam a mostrar que a criatividade não despertou apenas curiosidade momentânea. Muitos estudantes decidiram voltar.

Criatividade também aproxima pessoas

Outro efeito importante aconteceu para além da produção artística.

De acordo com Susan Imrie, responsável pela área de bem-estar do College e uma das líderes do projeto, alguns estudantes relataram que as oficinas contribuíram para fazer amizades e aumentar a sensação de fazer parte daquela comunidade.

Esse aspecto ganhou relevância principalmente entre os estudantes de pós-graduação, que normalmente vivem fora do campus. Um terço dos participantes do programa pertencia justamente a esse grupo.

As oficinas, portanto, não criaram apenas espaço para desenhar, pintar ou modelar. Criaram oportunidades de encontro.

Essa dimensão merece atenção porque bem-estar e pertencimento estão profundamente relacionados. Um ambiente pode oferecer excelentes condições acadêmicas ou profissionais e, ainda assim, deixar de promover qualidade de vida quando as pessoas não encontram oportunidades de criar vínculos e sentir que fazem parte de uma comunidade.

A felicidade, nesse sentido, não é construída exclusivamente dentro de cada indivíduo. Ela também se fortalece nos espaços que favorecem convivência, expressão e conexão.

A liberdade de não ser perfeito

Talvez um dos depoimentos mais reveladores do programa tenha vindo de um estudante que participou de uma atividade com carvão.

Além de aprender a utilizar o material, ele disse ter aprendido a ser menos exigente consigo mesmo e a permitir-se não ser perfeito.

A frase revela uma dimensão importante da experiência criativa.

Grande parte da vida acadêmica e profissional é estruturada em torno da avaliação. Há notas, resultados, metas, desempenho e comparação. A criação artística pode abrir um território diferente, no qual experimentar, errar, recomeçar e descobrir caminhos inesperados fazem parte do próprio processo.

Isso não significa que a arte seja desprovida de técnica ou excelência. Significa que o ato de criar pode oferecer um espaço no qual o erro deixa de ser necessariamente um fracasso e passa a ser parte da descoberta.

É justamente nessa relação entre criatividade e felicidade que encontramos uma conexão importante com a Ciência da Felicidade. Em Pessoas felizes fazem coisas incríveis, Benedito Nunes dedica um capítulo à felicidade e à criatividade, inserindo a capacidade criativa entre diferentes dimensões de uma vida mais significativa. O livro também relaciona felicidade ao cultivo das emoções, à resiliência e à construção de vínculos de pertencimento.

Criar pode ser também uma forma de autocuidado

Os próprios estudantes começaram a perceber essa possibilidade.

Um deles afirmou que a atividade havia sido agradável e relaxante e que pretendia continuar praticando-a como uma maneira de descansar e desacelerar.

Esse talvez seja um dos resultados mais interessantes de iniciativas como o Creative Breaks: apresentar às pessoas novos recursos para cuidar do próprio bem-estar.

Nem todas encontrarão relaxamento pintando, fazendo cerâmica ou trabalhando com tecidos. Mas a experiência mostra a importância de descobrir atividades capazes de criar pausas significativas dentro da rotina.

Essa perspectiva está alinhada à proposta do Instituto Movimento pela Felicidade de transformar os conhecimentos produzidos pela Ciência da Felicidade e áreas relacionadas em práticas úteis e aplicáveis ao cotidiano.

Cuidar do bem-estar não precisa estar restrito aos momentos em que algo já não vai bem. Também significa desenvolver hábitos, espaços e experiências capazes de fortalecer nossos recursos emocionais antes que o estresse se torne excessivo.

Felicidade também precisa de espaço para criar

Diante da grande adesão e dos resultados observados, o Creative Breaks terá continuidade no próximo ano acadêmico. O financiamento foi renovado e a proposta agora é ampliar o projeto, mantendo as oficinas e experimentando novos formatos, como sessões abertas e projetos artísticos colaborativos.

A experiência de Cambridge deixa uma mensagem que ultrapassa os muros da universidade.

Escolas, universidades, empresas e outras organizações costumam dedicar grande atenção ao desempenho das pessoas. Mas talvez seja necessário perguntar com a mesma frequência quais espaços estamos oferecendo para que elas respirem, experimentem, convivam e expressem outras dimensões de si mesmas.

A criatividade pode contribuir para esse processo justamente porque nos convida a sair, ainda que temporariamente, das respostas prontas. Ao pintar, modelar, escrever, desenhar ou construir alguma coisa, mobilizamos curiosidade, atenção e expressão.

E, algumas vezes, aquilo que começa como uma simples pausa pode terminar produzindo algo muito maior: uma emoção positiva, uma nova amizade, uma maneira diferente de enfrentar o estresse ou a descoberta de que não precisamos acertar tudo o tempo inteiro.

A felicidade também pode ser cultivada nesses pequenos espaços de liberdade. Espaços em que deixamos de produzir apenas resultados e nos permitimos, simplesmente, criar.

Postagem inspirada na notícia “Creative Breaks arts-based programme boosts student wellbeing”.