Inteligência artificial pode tornar o cuidado de pessoas com demência mais personalizado e humano
/0 Comentários/em Blog/por movimentopelafelicidadeEnvelhecer com qualidade envolve muito mais do que viver por mais tempo. Significa preservar, na medida do possível, autonomia, vínculos, saúde mental, conforto e oportunidades de continuar participando da vida. É justamente nesse encontro entre longevidade, tecnologia e bem-estar que uma nova iniciativa da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, pretende avançar.
O National Institute on Aging, órgão que integra os National Institutes of Health dos Estados Unidos, concedeu à universidade um financiamento de US$ 25 milhões, com duração de cinco anos, para a criação de um centro dedicado a investigar como a inteligência artificial pode melhorar a vida da população idosa e, especialmente, das pessoas que vivem com Alzheimer e outras demências relacionadas à doença.
O projeto será desenvolvido em colaboração com o VA Palo Alto Health Care System e o Stanford Institute for Human-Centered AI. A proposta parte de um desafio conhecido por famílias, cuidadores e profissionais da saúde: duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem apresentar necessidades muito diferentes e responder de formas igualmente distintas aos tratamentos disponíveis.
Muito além da perda de memória
A perda de memória é provavelmente o sintoma mais conhecido das demências, mas está longe de ser o único. Agitação, dificuldades para dormir, alterações de comportamento e sintomas de depressão podem comprometer intensamente a qualidade de vida tanto da pessoa que vive com a doença quanto de quem participa de seus cuidados.
Existem medicamentos, terapias e intervenções não farmacológicas com evidências científicas de benefício. O problema é encontrar, entre tantas possibilidades, aquela que faz mais sentido para determinado indivíduo em determinado momento.
Na prática, esse processo pode exigir sucessivas tentativas e ajustes. E, quando se trata de pessoas idosas e vulneráveis, tempo, efeitos colaterais e desgaste emocional importam muito.
É justamente aí que a inteligência artificial pode contribuir.
O novo centro, chamado Stanford University Artificial Intelligence and Technology Collaboratory for Precision Health and Interventions in Aging and AD/ADRD, pretende desenvolver ferramentas capazes de analisar grandes volumes de informações sobre cada paciente e auxiliar profissionais da saúde na escolha de intervenções mais personalizadas.
A ideia não é substituir médicos, enfermeiros, terapeutas ou cuidadores, mas ampliar a capacidade de compreender cada pessoa em sua complexidade.
Um cuidado que acompanha as mudanças da pessoa
Para Ehsan Adeli, professor da Stanford e um dos três pesquisadores responsáveis pelo centro, personalizar um tratamento significa entender tanto o indivíduo quanto a maneira como suas necessidades se transformam ao longo do tempo.
Segundo ele, ao conectar informações sobre o cérebro com aquilo que pode ser observado na vida cotidiana, sistemas de inteligência artificial poderão ajudar profissionais a escolher uma intervenção, verificar se ela está produzindo resultados e adaptar o cuidado conforme as condições da pessoa evoluem.
Esse aspecto é particularmente importante nas demências, porque o quadro clínico não permanece estático.
Uma determinada estratégia pode funcionar durante algum tempo e depois precisar ser ajustada. Alterações no sono, na mobilidade, no comportamento ou no estado emocional podem sinalizar que alguma coisa mudou, e identificar essas transformações mais rapidamente pode permitir intervenções igualmente mais rápidas.
Adeli desenvolve pesquisas que combinam inteligência artificial, tecnologias de sensoriamento sem contato e imagens cerebrais para compreender mudanças no comportamento e na saúde do cérebro. Esse conhecimento será utilizado para investigar maneiras mais precisas de acompanhar sintomas no cotidiano.
Menos tentativa e erro, mais personalização
Outra pesquisadora que lidera o projeto é Feng Vankee Lin, professora de psiquiatria e ciências comportamentais da Stanford e responsável pela área de pesquisa em enfermagem do VA Palo Alto Health Care System.
Ao longo de sua experiência profissional, Lin encontrou diversos pacientes com demência que utilizavam vários medicamentos simultaneamente para controlar sintomas diferentes. Alguns desses medicamentos provocavam efeitos colaterais e, em certos casos, nem mesmo produziam uma melhora significativa na qualidade de vida.
Ao mesmo tempo, existem intervenções não medicamentosas que podem contribuir para o bem-estar, como exercícios físicos e determinadas técnicas de neuromodulação. O desafio é que elas também exigem tempo, acompanhamento e recursos.
Nesse cenário, a inteligência artificial poderia ajudar a identificar quais alternativas parecem mais adequadas às características de cada paciente.
O terceiro pesquisador principal do centro, James Landay, professor de ciência da computação, contribuirá especialmente com o conhecimento em interação entre seres humanos e computadores e em design centrado nas pessoas.
Essa dimensão será decisiva. Afinal, uma tecnologia pode ser extremamente sofisticada e, ainda assim, fracassar se não for compreensível ou utilizável por idosos, familiares, cuidadores e profissionais da saúde.
Tecnologia dentro da vida cotidiana
O centro deverá financiar entre dez e quinze projetos de pesquisa por ano ao longo dos próximos cinco anos.
Entre as possibilidades estão novos dispositivos vestíveis capazes de acompanhar aspectos da saúde, programas de computador destinados ao desenvolvimento ou manutenção de habilidades cognitivas e neurotecnologias capazes de personalizar a estimulação cerebral.
Também poderão ser desenvolvidos sistemas de sensoriamento sem contato para identificar alterações nos movimentos e no comportamento de uma pessoa dentro de casa. Essas informações poderiam ajudar equipes de saúde a perceber se determinada intervenção está funcionando ou se ajustes precisam ser realizados.
Outras possibilidades parecem ainda mais futuristas, como robôs capazes de auxiliar pessoas em sessões de musicoterapia ou estimular a prática de exercícios físicos.
O centro de Stanford é um dos cinco financiados nos Estados Unidos pelo mesmo programa do National Institutes of Health, criado para acelerar o uso responsável da inteligência artificial no cuidado relacionado às demências.
Tecnologia a serviço de uma longevidade com mais qualidade
A iniciativa chama atenção não apenas pelo avanço tecnológico, mas pela mudança de perspectiva que representa.
Durante muito tempo, discussões sobre envelhecimento estiveram concentradas na ampliação da expectativa de vida. Hoje, torna-se cada vez mais evidente que o desafio está também em ampliar a qualidade desses anos.
Isso significa considerar aspectos físicos, cognitivos, emocionais e sociais de maneira integrada.
Na visão defendida pelo Instituto Movimento pela Felicidade, saúde, bem-estar e felicidade não são dimensões isoladas da experiência humana. Uma vida saudável e próspera depende também da forma como cuidamos do corpo, da mente, das relações, do ambiente e do sentido que atribuímos à própria existência.
Esse entendimento ganha ainda mais importância diante das demências.
Quando a cura ainda não está disponível para muitas dessas condições, cuidar significa também preservar dignidade, reduzir sofrimento, manter vínculos e criar oportunidades para que a pessoa continue experimentando momentos de conexão, conforto e participação.
Nesse contexto, inteligência artificial, dispositivos inteligentes ou sistemas de monitoramento só terão verdadeiro valor quando estiverem a serviço das pessoas.
A tecnologia pode ajudar a interpretar milhares de dados em poucos segundos. Mas a finalidade desse conhecimento continua essencialmente humana: compreender melhor quem está sendo cuidado.
Esse talvez seja um dos caminhos mais promissores para a chamada longevidade positiva. Não apenas acrescentar anos à vida, mas buscar condições para que, mesmo diante das limitações impostas pelo envelhecimento ou por uma doença, esses anos possam conter o máximo possível de autonomia, cuidado, afeto e bem-estar.
A ciência da felicidade nos lembra que uma vida significativa não é construída apenas nos grandes acontecimentos. Ela também se manifesta na qualidade das experiências cotidianas, nas relações e na capacidade de proporcionar cuidado e acolhimento.
Se a inteligência artificial conseguir ajudar famílias e profissionais a oferecer exatamente o cuidado de que uma pessoa precisa, no momento em que ela precisa, talvez um de seus usos mais transformadores não esteja apenas em tornar a medicina mais inteligente, mas em ajudá-la a se tornar cada vez mais personalizada e humana.
Postagem inspirada na notícia “New center will use AI to tailor dementia care”.




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