Torcer juntos pode ser um remédio social contra a solidão e a divisão
/0 Comentários/em Blog/por movimentopelafelicidadeEm uma sociedade marcada pela polarização, pelo isolamento e pelo enfraquecimento dos vínculos comunitários, uma atividade popular e aparentemente simples pode ter um potencial social ainda pouco reconhecido: torcer por um time.
Pesquisadores da Harvard Kennedy School, nos Estados Unidos, estão investigando como a paixão compartilhada pelos esportes pode aproximar pessoas, reduzir barreiras políticas e culturais e fortalecer o sentimento de pertencimento. A proposta parte de uma constatação importante: embora o esporte movimente multidões e faça parte da identidade de milhões de pessoas, sua influência sobre as relações humanas ainda recebe pouca atenção da comunidade científica.
O professor Todd Rogers e a pesquisadora Audrey Feldman criaram a iniciativa Fandom and Social Connection, dedicada a estudar como as torcidas podem funcionar como uma espécie de infraestrutura social. Os primeiros resultados sugerem que acompanhar uma equipe não significa apenas observar partidas ou comemorar vitórias. Muitas vezes, significa construir memórias, manter tradições familiares, participar de rituais coletivos e encontrar assuntos em comum com pessoas que, em outros contextos, talvez nunca conversassem.
Uma identidade capaz de atravessar diferenças
Nos Estados Unidos, quase três em cada quatro pessoas afirmam acompanhar alguma equipe profissional. Para muitas delas, essa ligação representa uma parte importante de sua identidade. Em escala global, o futebol, sozinho, reúne mais da metade da população entre seus admiradores.
Apesar dessa dimensão, Rogers e Feldman observaram que os esportes aparecem muito pouco nas principais publicações acadêmicas das ciências sociais. Segundo o levantamento realizado pelos pesquisadores, apenas cerca de um em cada 800 artigos publicados nesses periódicos aborda o tema.
A ausência chama a atenção porque poucas instituições contemporâneas conseguem reunir públicos tão amplos e diversos. Clubes sociais, partidos políticos, associações comunitárias e organizações religiosas perderam parte de sua capacidade de mobilização ao longo das últimas décadas. As torcidas, por outro lado, continuam aproximando pessoas de diferentes origens, classes sociais, etnias, idades e posições políticas.
Para Rogers, essa capacidade transforma o esporte em uma verdadeira estrutura de conexão humana. Em suas palavras, trata-se de uma infraestrutura social em um mundo onde restam poucas instituições tão amplas, profundas e diversas.
Os dados políticos analisados pela equipe ajudam a entender esse argumento. Enquanto muitas representações estaduais no Congresso norte-americano são formadas exclusivamente por integrantes de um único partido, até mesmo as torcidas consideradas mais conservadoras ou mais progressistas mantêm uma composição politicamente variada.
Isso significa que, em um estádio, em um bar ou diante da televisão, pessoas com visões de mundo opostas podem celebrar o mesmo gol, lamentar a mesma derrota e dividir a expectativa pelo resultado seguinte.
A torcida como ponto de encontro
Em um dos experimentos, ainda em processo de revisão acadêmica, os pesquisadores apresentaram aos participantes pessoas fictícias com opiniões políticas e culturais completamente diferentes das suas. Em seguida, pediram que escolhessem qual delas deveria receber uma recompensa.
Quando os participantes descobriam que uma dessas pessoas torcia pelo mesmo time, a identificação esportiva influenciava a escolha mais do que semelhanças de origem regional, nível educacional, raça ou etnia. Apenas o compartilhamento de uma mesma religião apresentou força semelhante.
A descoberta revela como a torcida pode atuar como um elemento de reconhecimento mútuo. Mesmo quando existem divergências profundas, saber que alguém acompanha a mesma equipe cria uma referência comum, um espaço simbólico no qual a conversa pode começar.
Essa ligação costuma ser construída ao longo da vida. Muitas pessoas herdam de seus pais ou avós o amor por um clube. Outras adotam uma equipe por influência de amigos, colegas ou experiências marcantes. Independentemente da origem, continuar torcendo representa uma escolha renovada a cada temporada, inclusive quando os resultados são ruins e o time parece viver permanentemente em reconstrução.
Isso indica que a relação do torcedor com o esporte não depende apenas das vitórias. Ela também se sustenta nas conexões criadas ao redor das partidas. O jogo se transforma em uma ocasião para telefonar para os pais, encontrar amigos, conversar com colegas de trabalho ou compartilhar emoções com desconhecidos.
Um álbum de memórias compartilhadas
O pesquisador Daniel Wann, professor da Murray State University e um dos principais estudiosos da psicologia das torcidas, compara a paixão esportiva a um álbum de fotografias compartilhado.
Duas pessoas que acompanham a mesma equipe carregam lembranças semelhantes. Elas se recordam de onde estavam durante uma final, de como reagiram a uma derrota inesperada ou de quem estava ao seu lado em uma conquista histórica. Também sabem que, quando a próxima temporada começar, voltarão a experimentar expectativas parecidas.
Todd Rogers resume essa experiência dizendo que os corações dos torcedores estarão sincronizados. A afirmação não é apenas simbólica. Alguns estudos psicofisiológicos indicam que espectadores podem apresentar respostas cerebrais semelhantes diante dos momentos de tensão, alegria e frustração de uma partida.
O esporte, portanto, cria uma narrativa coletiva. Ele oferece acontecimentos recorrentes, personagens, símbolos, rituais e histórias que podem ser retomadas em qualquer conversa. Para quem enfrenta a solidão ou tem dificuldade de iniciar novas relações, esse repertório pode funcionar como uma porta de entrada para o convívio social.
Rivalidade não precisa significar hostilidade
Os pesquisadores também analisam a capacidade do esporte de estimular conversas entre torcedores de equipes rivais. Em muitos casos, a rivalidade não elimina o respeito. Pelo contrário, ela oferece um terreno conhecido para brincadeiras, provocações e debates.
Feldman, que estudou na Universidade de Notre Dame, conta que consegue assistir a uma partida ao lado de torcedores de Ohio State, mesmo considerando aquela equipe uma adversária. A discordância permanece, mas existe um interesse compartilhado pelo futebol americano.
Resultados preliminares obtidos com torcedores da liga inglesa de futebol apontam na mesma direção. Alguns participantes disseram preferir socializar com fãs de clubes rivais, como Manchester United ou Liverpool, a conversar com pessoas que não acompanham o esporte.
Essa constatação mostra que nem toda diferença precisa resultar em afastamento. Quando existe uma linguagem comum, a divergência pode ser vivida com mais leveza. A competição permanece dentro do jogo, enquanto a convivência encontra espaço fora dele.
Um possível recurso contra a solidão
A iniciativa também pretende transformar suas descobertas em ações práticas. Em parceria com uma equipe ligada ao Boston Red Sox, os pesquisadores estudam maneiras de incentivar conversas entre pessoas que ocupam lugares próximos nas arquibancadas.
Em outros experimentos, Rogers e Feldman conseguiram estimular parte dos participantes a assistir a uma partida acompanhada. Ao final da experiência, essas pessoas relataram sentir maior conexão social, e o efeito permaneceu por algumas semanas.
Os pesquisadores defendem que escolher uma equipe e acompanhar seus jogos pode funcionar como uma forma simples e acessível de ampliar as oportunidades de convivência. A proposta não significa que o esporte seja uma solução isolada para a solidão, a polarização ou os problemas de saúde mental. No entanto, ele pode fazer parte de um conjunto de experiências que devolvem às pessoas o sentimento de comunidade.
Pertencimento também produz bem-estar
A ciência da felicidade tem demonstrado que a qualidade das relações exerce uma influência decisiva sobre o bem-estar. Sentir-se parte de um grupo, compartilhar experiências e perceber que existem pessoas com quem podemos contar são necessidades humanas fundamentais.
Nesse sentido, a torcida pode ser compreendida como muito mais do que entretenimento. Ela oferece pertencimento, continuidade e identidade. Pode aproximar gerações, fortalecer amizades, preservar lembranças familiares e criar oportunidades de contato em ambientes nos quais as pessoas normalmente permaneceriam isoladas.
Isso não significa ignorar os problemas que também podem surgir no esporte, como violência, intolerância ou comportamentos excessivos. Significa reconhecer que, quando vivida de maneira saudável, respeitosa e equilibrada, a paixão por uma equipe pode ajudar a construir pontes.
Para o Instituto Movimento pela Felicidade e Bem-Estar, compreender a felicidade como uma competência humana significa também reconhecer a importância das relações e da cooperação. A felicidade não se limita a uma sensação individual. Ela se fortalece quando circula entre as pessoas, quando cria espaços de acolhimento e quando transforma diferenças em oportunidades de convivência.
Talvez o maior valor de uma torcida esteja justamente aí. Durante uma partida, desconhecidos cantam juntos, pessoas de opiniões opostas celebram o mesmo momento e famílias renovam histórias que atravessam gerações. O placar continua importante, mas os vínculos criados ao redor dele podem permanecer muito depois do apito final.
Em tempos de isolamento e divisão, redescobrir atividades capazes de nos reunir pode ser uma forma concreta de cuidar da saúde emocional e do tecido social. Afinal, a felicidade também nasce da sensação de que fazemos parte de algo maior do que nós mesmos.
Postagem inspirada na notícia “Kennedy School team says shared fandom has promise as undervalued social ‘medicine’ for division, isolation”.





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