Redes sociais podem ajudar ou prejudicar o bem-estar, dependendo de como são usadas
/0 Comentários/em Blog/por movimentopelafelicidadePassar tempo nas redes sociais não produz necessariamente o mesmo efeito sobre todas as pessoas. Uma nova pesquisa com estudantes de enfermagem sugere que a finalidade do uso pode fazer uma diferença importante: recorrer às plataformas para estudar esteve associado a maior satisfação com a vida, enquanto utilizá-las principalmente para entretenimento apresentou relação mais forte com comportamentos de dependência e pior bem-estar.
O estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade Qassim, na Arábia Saudita, e da Universidade do Canal de Suez, no Egito, e publicado no The Open Nursing Journal.
A investigação partiu de uma questão cada vez mais relevante em uma rotina marcada pela hiperconectividade: afinal, o problema está simplesmente no tempo que passamos nas redes sociais ou na maneira como usamos esse tempo?
Os resultados apontam para a segunda hipótese.
Nem todo tempo de tela é igual
As redes sociais estão integradas à rotina universitária. Podem servir para acessar materiais de aula, discutir casos, colaborar em trabalhos, trocar informações com colegas ou se preparar para avaliações.
Mas também podem se transformar em uma sequência quase automática de vídeos, publicações, mensagens e conteúdos de entretenimento.
Embora essas atividades aconteçam dentro das mesmas plataformas, elas parecem produzir efeitos diferentes.
Os pesquisadores avaliaram 298 estudantes de graduação em enfermagem que realizavam estágio na Universidade Al-Razi, em Sanaa, no Iêmen. A coleta ocorreu entre abril e agosto de 2025. A idade média dos participantes era pouco superior a 21 anos.
Por meio de questionários validados, o estudo avaliou três formas de uso das redes sociais: acadêmico, social e voltado ao entretenimento. Também foram mensurados indicadores relacionados à dependência das plataformas e à satisfação geral com a vida.
A principal conclusão foi clara: o propósito importa.
Estudar pelas redes esteve associado a maior satisfação com a vida
O uso acadêmico das plataformas, relacionado a atividades como preparação para provas, trabalhos e aprendizagem entre colegas, apareceu associado a maior satisfação com a vida e menor risco de dependência.
O resultado oferece uma perspectiva interessante porque evita uma visão simplista segundo a qual toda utilização das redes sociais seria prejudicial.
A tecnologia pode funcionar como uma ferramenta.
Quando existe uma finalidade clara, ela pode facilitar acesso ao conhecimento, cooperação e comunicação. Em um curso como enfermagem, no qual estudantes lidam simultaneamente com exigências acadêmicas e atividades clínicas, encontrar meios eficientes de trocar informações e aprender em conjunto pode ser especialmente relevante.
Essa percepção se aproxima de uma ideia importante para a ciência da felicidade: não são apenas as circunstâncias que influenciam nosso bem-estar, mas também a maneira como construímos hábitos e fazemos escolhas dentro delas.
O Instituto Movimento pela Felicidade trabalha justamente com a proposta de desenvolver e disseminar conhecimentos sobre felicidade, bem-estar e saúde mental que possam ser aplicados de forma prática às atividades humanas.
Nesse sentido, a questão talvez não seja simplesmente abandonar a tecnologia, mas aprender a utilizá-la de forma mais consciente.
Entretenimento apresentou maior relação com dependência
A situação mudou quando os pesquisadores analisaram o uso voltado ao entretenimento.
Essa foi a modalidade que apareceu como o maior indicador de comportamento de dependência das redes sociais. De acordo com a análise estatística apresentada no estudo, sua associação com dependência foi mais de três vezes superior à observada no uso predominantemente social.
A própria dependência das redes esteve associada, de maneira independente, a menor satisfação com a vida.
Além disso, os pesquisadores observaram que parte do impacto produzido pelos diferentes tipos de uso acontecia justamente por meio dessa relação com o comportamento de dependência.
O efeito indireto negativo do entretenimento sobre a satisfação com a vida foi consideravelmente maior do que aquele identificado para o uso social. Já o uso acadêmico apresentou um efeito indireto positivo, embora mais modesto.
Esses resultados ajudam a compreender um fenômeno bastante cotidiano.
Existe uma diferença importante entre abrir uma plataforma sabendo o que buscamos e entrar nela sem uma finalidade definida, deixando que o fluxo contínuo de conteúdos determine quanto tempo permaneceremos conectados.
Em um caso, utilizamos a ferramenta.
No outro, existe o risco de a ferramenta começar a conduzir nosso comportamento.
Quando o hábito deixa de ser uma escolha consciente
A reflexão sobre felicidade e bem-estar passa necessariamente pela maneira como organizamos nossos hábitos.
Em Pessoas felizes fazem coisas incríveis, Benedito Nunes Rosa apresenta a felicidade como uma construção diária, influenciada por escolhas, comportamentos, relações e formas de interpretar a própria vida. O livro também chama atenção para o papel da tecnologia contemporânea, capaz de aproximar pessoas distantes, mas também de prejudicar a qualidade da presença entre aqueles que estão próximos.
Essa perspectiva ajuda a olhar para o estudo não como uma condenação das redes sociais, mas como um convite à percepção.
Por que estamos abrindo determinado aplicativo?
Existe uma atividade que queremos realizar ou estamos apenas reagindo ao impulso de verificar novidades?
O uso possui começo e fim definidos ou simplesmente continua?
Ao terminar, sentimos que aquela experiência acrescentou algo à nossa vida ou apenas consumiu nossa atenção?
São perguntas simples, mas relevantes em um contexto no qual o acesso às plataformas se tornou praticamente permanente.
Mais conexão não significa necessariamente mais bem-estar
O estudo também analisou o uso social das plataformas, ou seja, aquele voltado principalmente à comunicação e interação com outras pessoas.
Esse tipo de uso apresentou um efeito negativo indireto sobre a satisfação com a vida menor do que aquele observado no entretenimento, mas ainda relacionado à dependência das redes.
Isso não significa que conversar on-line seja necessariamente prejudicial.
As plataformas podem ser importantes para manter amizades, encontrar comunidades e preservar vínculos, especialmente quando existe distância física. Mas a qualidade da relação continua sendo um elemento essencial.
Entre os temas abordados pelo programa Diálogos com a Felicidade, as relações positivas aparecem como um componente importante da felicidade, da saúde e da longevidade.
A tecnologia pode apoiar esses vínculos, mas dificilmente substitui todas as dimensões de uma relação humana.
Uma conversa presencial envolve atenção, linguagem corporal, contato visual, silêncio, escuta e inúmeras informações emocionais que não cabem completamente em uma tela.
Por isso, o desafio não é apenas permanecer conectado, mas cultivar relações que efetivamente produzam pertencimento e apoio.
Universidades também podem ensinar bem-estar digital
Os autores defendem que instituições de ensino considerem programas voltados ao bem-estar digital.
Uma das possibilidades seria ajudar estudantes a reconhecer a diferença entre o uso acadêmico e o uso recreativo das plataformas, desenvolvendo maior consciência sobre seus próprios padrões de comportamento.
O estudo também menciona medidas como limitar o acesso não acadêmico durante períodos dedicados aos estudos e oferecer aconselhamento ou apoio entre colegas para estudantes que apresentem sinais de dependência.
No caso dos alunos de enfermagem, esse cuidado pode ser particularmente relevante.
A formação combina demandas acadêmicas, responsabilidades clínicas, contato com sofrimento humano e preparação para uma profissão que exige grande capacidade emocional. Quando uma rotina naturalmente exigente se soma ao uso compulsivo de plataformas digitais, o equilíbrio pode se tornar ainda mais difícil.
A saúde mental, portanto, não deveria aparecer apenas quando surge um problema grave.
Ela pode ser trabalhada preventivamente, inclusive por meio da educação sobre hábitos digitais.
Essa abordagem está alinhada à perspectiva do Instituto Movimento pela Felicidade, que trata a felicidade e o bem-estar como competências que podem ser compreendidas, desenvolvidas e aplicadas no cotidiano.
Usar tecnologia com propósito
Os próprios autores reconhecem limitações importantes no estudo.
A pesquisa foi realizada em uma única instituição, dependeu de respostas fornecidas pelos próprios participantes e utilizou um desenho transversal. Isso significa que os resultados identificam associações, mas não permitem afirmar de maneira definitiva que determinado tipo de uso das redes sociais seja a causa direta das mudanças na satisfação com a vida.
Novos estudos, acompanhando estudantes ao longo do tempo e envolvendo diferentes instituições, serão necessários para aprofundar essas conclusões.
Ainda assim, a pesquisa oferece uma ideia útil para o cotidiano: o impacto da tecnologia pode depender menos da simples pergunta “quanto tempo você passa nas redes?” e mais de outra questão, talvez mais importante: “o que você está fazendo enquanto está lá?”.
Usar uma plataforma para aprender, colaborar ou resolver uma necessidade concreta é diferente de permanecer durante horas em um fluxo infinito de estímulos.
A diferença está no propósito, na consciência e na capacidade de estabelecer limites.
A ciência da felicidade nos convida justamente a observar essas escolhas aparentemente pequenas que, repetidas todos os dias, começam a moldar nossa qualidade de vida.
As redes sociais provavelmente continuarão fazendo parte da rotina de estudantes, profissionais e famílias. O desafio não precisa ser eliminá-las, mas impedir que ocupem espaços que deveriam pertencer ao descanso, à concentração, às relações e à própria experiência de viver.
No ambiente digital, assim como em tantas outras dimensões da vida, bem-estar também pode significar saber quando entrar, por que permanecer e, principalmente, quando sair.
Postagem inspirada na notícia “Scrolling for study helps, scrolling for fun hurts: new research on nursing students’ social media use and wellbeing”.





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