Os 3 “tempos” da longevidade: viver mais é bom, florescer é essencial

Quando o assunto é longevidade, o tom da conversa muitas vezes escorrega para métricas e otimização: sono em gráficos, passos em metas, protocolos em rotinas, uma busca constante por “melhorar números”. Esses recursos podem, sim, ajudar a entender o próprio corpo e a consolidar hábitos mais saudáveis. Mas há uma pergunta que os dados não respondem sozinhos: como garantir uma vida que seja, de fato, significativa, conectada e plenamente vivida?

É nessa brecha que a gerontóloga e coach de liderança Barbara Waxman propõe um novo jeito de olhar para o envelhecimento. A inspiração dela vem de um hábito tão incomum quanto revelador: ler obituários toda semana. Neles, raramente o destaque é “quantos anos a pessoa viveu”. O que aparece é o que realmente importou: amores, escolhas corajosas, vínculos cultivados, riscos assumidos, a marca deixada no mundo. Em uma fala no TEDx, Waxman descreve obituários como uma espécie de “melhores momentos” da vida, um lembrete contundente de que viver não é apenas durar.

Lifespan e healthspan: a base necessária

Waxman organiza a longevidade em três “spans”, ou três dimensões. A primeira é a lifespan, o tempo total de vida. É a parte mais conhecida e, segundo ela, muito mais influenciada por escolhas e condições de saúde pública do que pela genética. Há pouco mais de um século, a humanidade aumentou décadas na expectativa de vida não por causa de relógios inteligentes, mas por acesso a água potável, vacinas e antibióticos.

A segunda dimensão é a healthspan, o tempo em que vivemos com boa funcionalidade física e cognitiva, com menos doenças e mais autonomia. Aqui entram os comportamentos de saúde, a prevenção e também a cultura do auto monitoramento, que cresceu muito nos últimos anos. O ponto de atenção, diz Waxman, é quando os dados viram destino: como se alcançar certos indicadores fosse o objetivo final. A saúde, nessa visão, precisa ser o chão firme, mas não necessariamente o mapa inteiro.

Thirdspan: a dimensão que define o quanto a vida floresce

A provocação mais interessante vem com a terceira dimensão, a thirdspan, que ela chama de “fator florescimento”. Se a lifespan mede quanto tempo vivemos e a healthspan mede quão bem o corpo funciona, a thirdspan descreve quão bem florescemos emocional e mentalmente ao longo desses anos. Entram aqui mentalidade, propósito, relações e alegria.

Essa proposta conversa diretamente com uma ideia cara ao Instituto Movimento pela Felicidade: felicidade e bem-estar não são itens decorativos, mas componentes estruturantes de uma vida saudável, com sentido e qualidade. Nosso propósito institucional é justamente desenvolver, sistematizar e irradiar a Ciência da Felicidade para que seus benefícios sejam vivenciados em todas as atividades humanas, em todas as fases da vida.

O argumento de Waxman ganha força ao lembrar que solidão e relações de baixa qualidade estão associadas a maior risco de mortalidade, em um patamar comparável a fatores clássicos de risco. Ou seja, vínculo não é “agradável de ter”, é parte do que sustenta o corpo. Ela também destaca como a mentalidade pode interferir em desfechos físicos. Em um estudo, por exemplo, pessoas que acreditavam consistentemente que eram “pouco ativas” apresentaram risco de mortalidade significativamente maior ao longo do tempo, sugerindo que crenças e percepção sobre o próprio comportamento podem influenciar a saúde mais do que imaginamos.

Um plano de longevidade que inclui alegria, relações e sentido

Para tirar a thirdspan do campo das ideias, Waxman sugere caminhos simples que funcionam como “treinos de florescimento”. Um deles é tratar a alegria como um dado que merece atenção. Ao longo de 30 dias, a proposta é notar e registrar pequenos momentos de alegria do cotidiano, não para romantizar a vida, mas para reeducar o olhar em uma cultura que valoriza apenas desempenho e produtividade. Outro passo é cuidar ativamente de relações, com duas frentes complementares: resgatar uma conexão importante que ficou no tempo e, ao mesmo tempo, estabelecer limites saudáveis para vínculos ou situações que drenam energia de forma recorrente. Por fim, ela propõe escrever três motivos pessoais para querer florescer, aquilo que dá direção ao seu “porquê”: uma experiência que você quer viver, um projeto afetivo, um aprendizado, um sonho que ancora o futuro.

No IMF, isso se aproxima do que defendemos quando falamos de estilo de vida e saúde mental e também de relações como fundamento do bem-estar. Não basta viver muito se a vida não tem espaço para pertencimento, cooperação e vínculos que façam sentido, valores que também atravessam as nossas crenças institucionais.

No fim, a pergunta não é “quanto”, é “como”

A longevidade que mais importa não cabe apenas em números. Ela aparece na forma como atravessamos o tempo, no tipo de presença que cultivamos, na coragem de alinhar escolhas com propósito, na qualidade das relações e na capacidade de sentir alegria com o que é simples e real.

Se os obituários são mesmo um espelho do que fica, talvez a melhor estratégia seja começar agora a viver de um jeito que mereça ser lembrado. Não como performance, mas como plenitude. Afinal, a questão não é apenas quantos anos teremos, e sim como escolhemos viver os anos que nos são dados.

Postagem inspirada na notícia “The 3 ‘Spans’ of Longevity: A New Framework for Living Longer, Better, and More Fully”.

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