Nem toda experiência na natureza é igual, e isso também influencia o nosso bem-estar

Falar em “passar mais tempo na natureza” tornou-se uma recomendação cada vez mais comum quando o assunto é saúde, felicidade e qualidade de vida. Mas uma nova pesquisa da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, mostra que essa ideia pode ser mais complexa do que parece.

Um parque no meio da cidade, uma trilha distante dos centros urbanos ou uma área de floresta preservada não oferecem necessariamente a mesma experiência. O tipo de ambiente natural pode influenciar não apenas aquilo que fazemos, mas também como nos sentimos, com quem compartilhamos o momento e até a maneira como guardamos aquela experiência na memória.

A conclusão reforça uma percepção importante para os estudos sobre felicidade e bem-estar: nossa relação com o ambiente não depende somente da presença da natureza, mas também da diversidade de experiências que ela nos proporciona.

Quase 400 mil experiências reais analisadas

Em vez de perguntar a participantes, dentro de um laboratório ou por meio de questionários, como eles acreditavam se sentir em contato com a natureza, os pesquisadores optaram por observar relatos espontâneos publicados nas redes sociais.

Foram analisadas quase 400 mil postagens sobre experiências ao ar livre realizadas em diferentes regiões dos Estados Unidos.

De maneira geral, os relatos envolvendo natureza apresentavam um tom predominantemente positivo, independentemente de as pessoas estarem caminhando, acampando, fotografando, caçando ou simplesmente aproveitando momentos com familiares e amigos.

O que mudou foi o significado associado aos diferentes lugares.

Parques urbanos apareceram com maior frequência relacionados ao lazer e aos encontros familiares. Já áreas rurais e ambientes mais selvagens foram associados a aventura, acampamentos e ao desejo de sair da rotina e explorar novos espaços.

Segundo Kate Schertz, pesquisadora em psicologia da Universidade de Michigan e principal autora do estudo, os resultados mostram que a natureza não deve ser compreendida como uma experiência única e uniforme.

Os benefícios psicológicos, de acordo com ela, podem depender não apenas do fato de uma pessoa estar ao ar livre, mas também do tipo de ambiente natural que está vivenciando.

Diferentes ambientes, diferentes formas de conexão

Os pesquisadores utilizaram técnicas avançadas de análise textual para identificar padrões e temas recorrentes nas centenas de milhares de publicações estudadas.

O grande volume de dados permitiu perceber tendências que dificilmente seriam encontradas por meio da leitura individual de cada relato.

O resultado acrescenta uma nova camada às pesquisas que já relacionam contato com a natureza, felicidade e bem-estar. A descoberta sugere que diferentes paisagens podem favorecer experiências psicológicas também diferentes.

Uma praça arborizada próxima de casa, por exemplo, pode criar oportunidades para convivência, brincadeiras e encontros entre gerações. Uma caminhada por uma floresta pode favorecer contemplação, silêncio e sensação de afastamento da rotina. Uma trilha pode despertar desafio, curiosidade e aventura.

Nenhuma dessas experiências precisa ser considerada superior à outra.

Como observa Schertz, a natureza é psicologicamente diversa. Um parque urbano pode oferecer algo muito diferente de um dia em uma região selvagem, mas ambas as experiências podem ter valor.

Natureza também pode fortalecer nossos vínculos

Esse aspecto chama atenção quando observado pela perspectiva da Ciência da Felicidade.

O bem-estar não depende de um único componente. Ele é construído a partir da interação entre diferentes dimensões da vida, como saúde, relações sociais, emoções, propósito, hábitos e ambiente.

O próprio conceito de Felicidade Interna Bruta, uma das referências utilizadas nos estudos da Ciência da Felicidade, considera o meio ambiente e a vitalidade comunitária entre os campos importantes para compreender a qualidade de vida das pessoas.

Isso ajuda a perceber que um espaço natural não precisa necessariamente nos afastar dos outros para proporcionar bem-estar. Muitas vezes, ocorre justamente o contrário.

Um parque pode ser o local de uma caminhada em família, de uma conversa com um amigo, da brincadeira de uma criança ou simplesmente de alguns minutos de descanso durante um dia atribulado.

Da mesma forma, uma experiência em um ambiente natural mais distante pode criar momentos de introspecção, descoberta ou conexão com algo maior do que as preocupações cotidianas.

Em ambos os casos, o ambiente ajuda a criar condições para experiências que podem permanecer em nossa memória muito depois de termos deixado aquele lugar.

A importância de preservar diferentes tipos de natureza

A pesquisa também traz reflexões importantes para o planejamento das cidades e para a conservação ambiental.

Com a expansão urbana, as mudanças climáticas e as transformações no uso do território, a preocupação não deveria estar apenas em garantir alguma área verde próxima das pessoas. Também seria importante preservar diferentes tipos de ambientes naturais.

Isso acontece porque cada espaço pode favorecer formas específicas de relacionamento com o mundo.

Para uma criança, um pequeno parque de bairro pode representar suas primeiras experiências de contato cotidiano com árvores, animais e áreas abertas. Para outra pessoa, alguns dias em uma floresta podem proporcionar uma sensação de aventura e afastamento da rotina difícil de reproduzir no ambiente urbano.

Preservar a natureza, portanto, também significa preservar as possibilidades de experiência que ela oferece.

Felicidade também se constrói nos lugares que habitamos

A pesquisa da Universidade de Michigan ajuda a ampliar uma ideia importante: os ambientes em que vivemos fazem parte da nossa experiência de bem-estar.

Criar condições para uma vida mais feliz não significa buscar permanentemente grandes experiências ou lugares extraordinários. Muitas vezes, a oportunidade de desacelerar, caminhar entre árvores, observar uma paisagem, conversar em um parque ou simplesmente prestar atenção ao ambiente ao redor já modifica a forma como atravessamos o dia.

Ao mesmo tempo, o estudo lembra que não existe uma única maneira correta de se conectar com a natureza.

Algumas pessoas encontrarão bem-estar em uma praça movimentada, cercadas de familiares e amigos. Outras buscarão o silêncio de uma trilha. Algumas preferirão observar uma paisagem, enquanto outras encontrarão satisfação no movimento, na aventura ou na descoberta.

Talvez a principal contribuição da pesquisa esteja justamente aí: entender que felicidade e bem-estar também dependem da diversidade das experiências que somos capazes de viver.

Cuidar da natureza, nesse sentido, significa cuidar não apenas das paisagens, mas também das possibilidades de encontro, contemplação, conexão e felicidade que esses espaços oferecem às pessoas.

Postagem inspirada na notícia “Nature isn’t one-size-fits-all, study finds”.

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