IA pode ajudar jovens a aprender, mas o excesso de atalhos preocupa especialistas
/0 Comentários/em Blog/por movimentopelafelicidadeA inteligência artificial já faz parte da rotina de grande parte dos adolescentes. Nos Estados Unidos, mais da metade deles afirma utilizar chatbots de IA para ajudar nas atividades escolares, segundo levantamento do Pew Research Center de 2026.
Mas fazer tarefas é apenas uma parte dessa relação.
Crianças e adolescentes também usam ferramentas de inteligência artificial para entretenimento, tirar dúvidas, pedir conselhos, praticar conversas e, em alguns casos, até buscar companhia. Diante dessa presença cada vez maior, pesquisadores começam a investigar uma questão que pode se tornar central para uma geração inteira: o que acontece quando jovens atravessam etapas importantes do desenvolvimento cognitivo, emocional e social acompanhados constantemente por sistemas capazes de responder quase instantaneamente?
A resposta ainda está longe de ser definitiva.
Especialistas ressaltam que existem oportunidades importantes, especialmente na educação e na inclusão. Ao mesmo tempo, há preocupações sobre o que pode acontecer quando a tecnologia substitui justamente experiências difíceis, frustrantes e imperfeitas que ajudam crianças e adolescentes a desenvolver raciocínio, perseverança, autonomia e habilidades sociais.
O desafio, portanto, não parece ser decidir simplesmente se a inteligência artificial é boa ou ruim.
A pergunta mais importante é outra: como utilizá-la sem terceirizar para a tecnologia capacidades que os jovens ainda precisam aprender a desenvolver?
Quando aprender exige algum esforço
Uma das preocupações dos pesquisadores está relacionada ao chamado “descarregamento cognitivo”, processo pelo qual utilizamos ferramentas externas para reduzir o esforço mental necessário para realizar determinada tarefa.
Esse comportamento não nasceu com a inteligência artificial.
Calculadoras, mecanismos de busca, agendas digitais e aplicativos de navegação já desempenham funções semelhantes.
O problema aparece quando aquilo que estamos transferindo para uma ferramenta não é apenas uma tarefa secundária, mas justamente o exercício cognitivo que deveria produzir aprendizagem.
Um estudo realizado com quase mil estudantes do ensino médio na Turquia ilustra esse risco.
Quando os alunos puderam utilizar o ChatGPT para resolver problemas de matemática, suas notas melhoraram 48%. À primeira vista, o resultado poderia indicar que a ferramenta potencializou a aprendizagem.
Entretanto, quando o acesso à IA foi retirado, esses estudantes apresentaram desempenho 17% pior do que alunos que nunca haviam utilizado o chatbot.
O resultado sugere uma distinção importante entre conseguir chegar a uma resposta e efetivamente desenvolver conhecimento suficiente para chegar a ela sozinho.
Aprender, muitas vezes, exige esforço.
É necessário errar, testar hipóteses, buscar uma informação na memória, reorganizar o raciocínio e tentar novamente.
Esse processo pode ser desconfortável, mas justamente por isso possui valor.
O valor da dificuldade produtiva
Na ciência da aprendizagem existe um conceito conhecido como “dificuldade desejável”.
A ideia é que determinadas tarefas exigem um esforço considerável no momento da aprendizagem, mas produzem benefícios mais duradouros posteriormente.
É o que acontece quando um estudante tenta lembrar uma informação antes de consultar a resposta, precisa solucionar um problema sem receber imediatamente todos os passos ou se esforça para organizar uma ideia em palavras próprias.
Esses momentos de dificuldade ajudam o cérebro a construir caminhos que posteriormente serão necessários para recuperar e aplicar o conhecimento.
Por isso, especialistas alertam que eficiência e aprendizagem não são necessariamente sinônimos.
Quando o objetivo é simplesmente concluir uma tarefa, utilizar IA para chegar mais rápido ao resultado pode ser extremamente útil.
Quando o objetivo é aprender, porém, tornar tudo fácil demais pode eliminar justamente parte do processo que produz crescimento.
Essa reflexão se aproxima de uma dimensão importante do bem-estar: nem todo desconforto deve ser eliminado.
Uma vida saudável não depende apenas de reduzir obstáculos, mas também de desenvolver recursos internos para atravessá-los.
Atalhos podem enfraquecer habilidades?
Pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology também começaram a investigar o que acontece no cérebro durante atividades realizadas com apoio de grandes modelos de linguagem.
Em um estudo ainda sem revisão por pares, participantes escreveram textos com ou sem auxílio do ChatGPT enquanto sua atividade cerebral era monitorada por eletroencefalografia.
Os participantes que utilizaram a IA apresentaram conectividade neural mais fraca durante a realização da atividade.
Como o trabalho ainda é preliminar, seus resultados precisam ser interpretados com cautela. Mesmo assim, ele integra uma preocupação maior entre especialistas: se jovens recorrem repetidamente a soluções prontas antes de desenvolver determinadas habilidades, podem deixar de exercitar processos cognitivos essenciais.
É por isso que crianças continuam aprendendo aritmética mesmo vivendo em um mundo cheio de calculadoras.
O objetivo não é competir com a máquina na capacidade de calcular.
É construir as estruturas mentais necessárias para compreender conceitos matemáticos mais avançados.
O mesmo raciocínio vale para programação. Ainda que a IA seja capaz de gerar códigos cada vez mais sofisticados, aprender a programar desenvolve raciocínio lógico, organização de problemas em etapas e pensamento computacional.
A tecnologia pode executar uma tarefa.
Mas isso não significa que desenvolver as habilidades envolvidas naquela tarefa tenha deixado de ser importante.
Resolver problemas também ensina a lidar com frustrações
Existe ainda uma dimensão emocional dessa discussão.
Quando uma criança ou adolescente recebe uma solução imediatamente, não perde apenas uma oportunidade de pensar.
Também pode perder uma oportunidade de esperar, persistir, lidar com a frustração e administrar emoções.
Essas habilidades fazem parte do processo de desenvolvimento.
Em uma pesquisa, jovens adultos que afirmaram terceirizar tarefas completas com maior frequência para ferramentas de inteligência artificial também relataram maiores níveis de ansiedade.
Em dados ainda não publicados, pesquisadores observaram ainda uma redução da tolerância ao desconforto ao longo do tempo.
Os resultados não permitem afirmar que a utilização da IA seja a causa dessas alterações. A própria direção da relação ainda precisa ser investigada. Pessoas mais ansiosas, por exemplo, podem recorrer com maior frequência à tecnologia justamente para evitar situações difíceis.
Ainda assim, a questão merece atenção.
Adolescência é um período no qual aprender a regular emoções possui enorme importância.
Se cada momento de dúvida, esforço ou frustração for imediatamente resolvido por uma ferramenta externa, o jovem pode ter menos oportunidades de descobrir que é capaz de atravessar esses sentimentos.
Sob a perspectiva do bem-estar, isso é fundamental.
Felicidade não significa viver sem dificuldades. Também envolve desenvolver recursos para enfrentar desafios, recuperar-se de erros e perceber a própria capacidade de agir diante deles.
A questão não é usar IA, mas como usar
Os próprios pesquisadores fazem uma distinção importante: utilizar inteligência artificial não significa necessariamente terceirizar o pensamento.
A tecnologia pode desempenhar funções bastante diferentes dependendo da forma como é utilizada.
Um estudante pode pedir para a IA realizar integralmente uma atividade.
Mas também pode utilizá-la para organizar a formatação de um trabalho, pesquisar informações iniciais, criar exercícios adicionais, oferecer feedback sobre um texto que ele mesmo escreveu ou explicar passo a passo um problema que não conseguiu compreender.
Essas experiências têm consequências muito diferentes.
Quando a ferramenta funciona como apoio, pode ampliar a aprendizagem.
Quando substitui o trabalho cognitivo que deveria ser realizado pelo estudante, existe o risco de transformar uma ferramenta educacional em um atalho.
Por isso, pesquisadores defendem sistemas de IA com mecanismos especificamente desenhados para ensinar.
Quando a IA ajuda sem fazer tudo pelo aluno
O mesmo estudo realizado com estudantes de matemática na Turquia oferece um exemplo interessante.
Além do ChatGPT convencional, os pesquisadores testaram um tutor de inteligência artificial personalizado, programado para apoiar a aprendizagem em vez de simplesmente entregar respostas.
Os estudantes que utilizaram esse tutor apresentaram uma melhora de 127% nas notas, resultado ainda maior do que o observado entre aqueles que usaram o ChatGPT comum.
A diferença mais importante apareceu depois.
Quando o tutor foi retirado, esses alunos continuaram apresentando desempenho semelhante ao grupo que havia aprendido sem inteligência artificial.
Ou seja, aparentemente conseguiram aproveitar o suporte tecnológico sem apresentar a perda de aprendizagem observada no outro grupo.
Ainda assim, apareceu um alerta.
Os estudantes que utilizaram o tutor demonstraram tendência a superestimar quanto haviam aprendido e como se sairiam nas avaliações.
Mesmo ferramentas desenhadas para apoiar o conhecimento, portanto, podem produzir uma espécie de ilusão de domínio.
Sentir que compreendeu não é necessariamente a mesma coisa que conseguir recuperar e aplicar o conteúdo de maneira independente.
Tecnologia também pode ampliar inclusão
O debate sobre IA e juventude não envolve apenas riscos.
Existem aplicações potencialmente transformadoras.
Sistemas inteligentes de tutoria já conseguem avaliar o desempenho de estudantes e ajustar ritmo, dificuldade e quantidade de apoio de acordo com suas necessidades.
Grandes modelos de linguagem podem ampliar esse potencial ao explicar erros em tempo real, dividir problemas complexos em etapas menores e formular perguntas que ajudem o estudante a chegar sozinho à solução.
A inteligência artificial também pode contribuir para aproximar educação especial e educação regular.
Ferramentas voltadas a estudantes com dificuldades de leitura, por exemplo, já conseguem oferecer interpretações linha por linha de textos complexos e adaptar materiais para diferentes necessidades.
Esse talvez seja um dos caminhos mais promissores da tecnologia.
Quando utilizada para ampliar possibilidades em vez de substituir capacidades, a IA pode ajudar a tornar a educação mais acessível e inclusiva.
Quando o chatbot começa a ocupar o lugar de um amigo
Fora da escola, porém, surge uma questão ainda mais delicada.
Crianças e adolescentes estão começando a utilizar inteligência artificial também para funções sociais.
Eles podem pedir conselhos sobre um conflito, conversar sobre sentimentos, praticar uma interação presencial, ouvir histórias ou simplesmente manter longas conversas com um chatbot.
Em determinadas situações, essas ferramentas podem oferecer benefícios.
Um jovem que vive em uma região isolada pode ter acesso limitado a redes de apoio. Pessoas neurodivergentes também podem utilizar sistemas de IA como espaço para praticar situações sociais antes de enfrentá-las no mundo real.
Mas especialistas fazem uma ressalva fundamental: a tecnologia deveria complementar relações humanas, e não substituí-las.
Isso acontece porque relacionamentos reais possuem uma característica que os chatbots normalmente tentam reduzir ao máximo: atrito.
Relações humanas não são perfeitamente convenientes
Sistemas de inteligência artificial são desenvolvidos para permanecer disponíveis, responder rapidamente e manter a interação.
Eles não ficam cansados.
Não precisam encerrar a conversa porque possuem outros compromissos.
Não têm necessidades próprias.
E frequentemente adotam um estilo cordial, positivo e concordante.
Para um usuário, isso pode ser extremamente confortável.
Para uma criança em desenvolvimento, porém, a ausência constante de atrito pode produzir uma experiência social muito diferente da vida real.
Relacionamentos humanos exigem reciprocidade.
É preciso esperar.
Ouvir.
Perceber mudanças de expressão.
Interpretar linguagem corporal.
Aceitar que outra pessoa possui desejos diferentes.
Lidar com uma discordância.
Pedir desculpas.
Negociar.
Oferecer apoio mesmo quando não estamos recebendo algo em troca.
Uma inteligência artificial não possui necessidades emocionais próprias. Por isso, uma criança não precisa necessariamente exercitar com ela empatia, negociação de conflitos e comportamentos pró-sociais da mesma maneira que faria com outra pessoa.
Esse é um dos pontos que mais preocupam pesquisadores.
O risco de criar expectativas irreais sobre relacionamentos
Se uma criança passa muito tempo conversando com uma ferramenta que está sempre disponível, responde de maneira acolhedora e raramente apresenta necessidades próprias, pode começar a desenvolver expectativas pouco realistas sobre como relacionamentos deveriam funcionar.
Pessoas reais não leem nossa mente.
Não concordam sempre.
Nem sempre conseguem oferecer atenção imediata.
Possuem limites, dias ruins, necessidades e opiniões próprias.
Aprender a conviver com tudo isso faz parte do desenvolvimento social.
Pesquisas preliminares sugerem que jovens que já possuem crenças mais disfuncionais sobre relacionamentos, como esperar que outras pessoas sejam capazes de perceber seus pensamentos sem que sejam expressos, podem demonstrar interesse crescente em relações de companhia com sistemas de inteligência artificial.
A direção dessa relação ainda precisa ser melhor compreendida.
Não se sabe se determinados jovens são atraídos pela IA devido a vulnerabilidades anteriores, se a interação com a tecnologia reforça essas crenças ou se ambos os processos acontecem simultaneamente.
Adolescência é uma janela decisiva
A preocupação ganha importância porque a adolescência é considerada uma fase especialmente sensível para o desenvolvimento socioemocional.
O cérebro adolescente possui grande plasticidade.
É nesse período que muitas capacidades relacionadas a identidade, autonomia, relações sociais e regulação emocional passam por intensa transformação.
Por isso, alguns pesquisadores descrevem a adolescência como uma “idade de oportunidades”.
Experiências vividas nesse momento podem contribuir significativamente para a formação das habilidades sociais e emocionais utilizadas durante a vida adulta.
Se determinadas experiências forem continuamente terceirizadas para ferramentas digitais, existe a possibilidade de que algumas dessas competências sejam menos exercitadas.
Ainda não existem evidências suficientes para afirmar que isso necessariamente acontecerá.
Mas, justamente porque não sabemos, especialistas defendem cautela.
Pais não precisam ser especialistas em IA para ajudar
Muitos pais podem sentir que não compreendem suficientemente a inteligência artificial para conversar com seus filhos sobre o assunto.
Pesquisadores, porém, argumentam que dominar toda a tecnologia não é necessário.
O primeiro passo pode ser simplesmente abrir espaço para conversa.
Perguntar se o jovem utiliza ferramentas de IA.
Entender para quê.
Saber se usa para estudar, tirar dúvidas, conversar sobre problemas ou buscar companhia.
A literatura sobre bem-estar digital já indica que a mediação dos pais pode fazer diferença na relação de crianças e adolescentes com a tecnologia.
Jovens que mantêm conversas ativas com seus responsáveis sobre como utilizam recursos digitais tendem a estar em melhores condições de desenvolver hábitos mais saudáveis.
O objetivo não precisa ser vigiar cada interação.
Pode ser ajudar o jovem a construir critérios.
Escolas também precisam estabelecer limites claros
Instituições de ensino enfrentam desafio semelhante.
Quando uma escola simplesmente proíbe ou ignora a inteligência artificial, estudantes ficam responsáveis por descobrir sozinhos quais usos são aceitáveis.
Especialistas defendem políticas claras sobre quando e como ferramentas de IA podem ser utilizadas nas atividades escolares.
Além disso, alfabetização em inteligência artificial deverá se tornar parte cada vez mais importante da educação.
Jovens precisarão compreender não apenas como utilizar essas ferramentas, mas também suas limitações, riscos e situações em que recorrer a elas não é recomendável.
Isso inclui aprender uma habilidade que pode parecer contraditória em um mundo de tecnologia abundante: saber quando não utilizar a IA.
Uma ferramenta para ampliar capacidades, não substituí-las
A discussão sobre inteligência artificial e juventude talvez seja, no fundo, uma discussão sobre autonomia.
Tecnologias sempre nos ajudaram a fazer mais.
O desafio aparece quando começam a fazer por nós aquilo que ainda precisamos aprender a fazer por conta própria.
Nesse sentido, a ciência da felicidade oferece uma contribuição importante para o debate.
Bem-estar não nasce apenas da ausência de esforço, desconforto ou frustração. Resiliência, autonomia, qualidade das relações, senso de competência e capacidade de lidar com as próprias emoções também são componentes de uma vida saudável.
O Instituto Movimento pela Felicidade defende justamente a compreensão da felicidade a partir de fundamentos científicos e sua aplicação prática na saúde mental e no desenvolvimento humano.
Em Pessoas felizes fazem coisas incríveis, Benedito Nunes também apresenta a felicidade como uma construção cotidiana ligada a escolhas, hábitos, resiliência, relacionamentos e autoconhecimento.
A inteligência artificial pode se tornar uma extraordinária aliada nessa construção.
Pode democratizar conhecimento, apoiar professores, personalizar a aprendizagem e ampliar oportunidades para quem enfrenta dificuldades.
Mas seu melhor papel talvez não seja remover todos os obstáculos do caminho.
Pode ser ajudar jovens a atravessá-los.
Porque desenvolver uma geração preparada para um mundo com inteligência artificial não significa apenas ensinar crianças a obter boas respostas das máquinas.
Significa garantir que elas continuem capazes de pensar, aprender, persistir, conviver e encontrar respostas dentro de si mesmas.
Postagem inspirada na notícia “What AI is doing to young brains”.




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