Hobbies podem fortalecer a saúde, o propósito e a felicidade
/0 Comentários/em Blog/por movimentopelafelicidadeDurante um dos períodos mais difíceis de sua vida, Amanda perdeu a mãe, o marido, o emprego e a sensação de normalidade que existia antes da pandemia. Em meio a tantas rupturas, recebeu o diagnóstico de transtorno depressivo maior.
Além da prescrição de um antidepressivo, uma profissional de saúde mental indicou uma alternativa menos convencional: participar de uma atividade comunitária que pudesse contribuir para o seu bem-estar. Amanda vivia perto do litoral de Devon, na Inglaterra, e já sentia curiosidade pela natação no mar. Ela havia lido sobre seus possíveis benefícios e observava mulheres que entravam na água durante todo o ano.
Foi então encaminhada para um curso de oito semanas que ensinava técnicas de natação, flutuação e respiração em águas abertas. O objetivo era ajudá-la a desenvolver habilidade, segurança e confiança.
Anos depois, Amanda continua recorrendo ao mar quando percebe que está estressada. Para ela, a experiência produz uma sensação de vitalidade e fortalece a confiança de que pode enfrentar os desafios. A atividade também ampliou sua rede de amizades e passou a representar um cuidado simultâneo com o corpo, a mente e as relações.
A história mostra como um hobby pode ocupar um lugar muito mais importante do que o de simples passatempo. Quando uma atividade envolve movimento, criatividade, natureza, convivência ou contribuição social, ela pode se transformar em uma fonte de saúde, sentido e pertencimento.
Quando uma atividade passa a fazer parte do cuidado
A indicação recebida por Amanda é conhecida como prescrição social. A prática consiste em encaminhar uma pessoa para atividades comunitárias não médicas, geralmente relacionadas ao exercício físico, às artes, à natureza, ao aprendizado ou ao voluntariado.
A proposta não substitui tratamentos médicos, psicológicos ou medicamentosos quando eles são necessários. Ela funciona como um complemento, reconhecendo que a saúde humana também é influenciada pelas relações, pelos ambientes, pela rotina e pela possibilidade de participar de experiências significativas.
A prescrição social é mais comum no Reino Unido, embora iniciativas semelhantes comecem a ganhar espaço em outros países. Em alguns programas, são oferecidos apoio financeiro, transporte ou acompanhamento para reduzir as barreiras que impedem as pessoas de participar.
Mesmo sem uma recomendação profissional, qualquer pessoa pode refletir sobre como uma atividade de lazer poderia contribuir para seu bem-estar. A escolha, entretanto, não precisa ser aleatória. Ela pode considerar o estado emocional atual, as necessidades pessoais, os interesses e o tipo de experiência que se deseja construir.
Escolha a partir de como você se sente
Uma das primeiras perguntas que podem orientar a escolha de um hobby é simples: como estou me sentindo agora e como gostaria de me sentir no futuro?
Quem se percebe cansado, desanimado ou com pouca energia pode se beneficiar de atividades que envolvam movimento. Caminhar, nadar, pedalar, dançar ou praticar um esporte são possibilidades que podem contribuir para o humor e para a disposição.
O exercício aeróbico está relacionado à liberação de substâncias associadas à sensação de prazer e bem-estar, como as endorfinas e a serotonina. Quando a atividade acontece ao ar livre, pode existir ainda o benefício adicional do contato com a natureza.
A permanência em ambientes naturais tem sido associada à redução do cortisol, um hormônio relacionado ao estresse. A natureza também pode favorecer a recuperação da atenção, especialmente para pessoas que se sentem mentalmente cansadas, distraídas ou sobrecarregadas.
Uma das explicações para esse efeito é a chamada teoria da restauração da atenção. De acordo com essa perspectiva, elementos naturais despertam uma forma suave de interesse. Eles capturam nossa atenção sem exigir o mesmo esforço mental necessário para cumprir tarefas, resolver problemas ou lidar com estímulos digitais.
Observar o movimento das árvores, o curso de um rio, as ondas ou o céu pode permitir que os recursos mentais utilizados durante o dia sejam gradualmente recuperados.
A criatividade pode abrir espaço para as emoções
Para quem enfrenta tristeza, solidão ou dor, atividades criativas também podem oferecer apoio.
Pintar, escrever, modelar argila, fotografar, cozinhar, costurar ou tocar um instrumento não servem apenas para produzir algo. Essas experiências podem ajudar a expressar emoções que nem sempre são facilmente comunicadas por palavras.
A criação artística também pode favorecer o estado de fluxo, uma condição de envolvimento profundo em que a pessoa concentra sua atenção na atividade e perde temporariamente a percepção do tempo. Nesses momentos, as preocupações podem ocupar menos espaço, enquanto a sensação de presença aumenta.
Programas comunitários baseados em arte têm observado melhorias no bem-estar e na percepção de capacidade pessoal, além de reduções na solidão. Outros estudos de pequena escala sugerem que pintar pode ajudar a diminuir a ansiedade e que atividades artísticas podem reduzir os níveis de cortisol após um período de prática.
Esses resultados não significam que a arte resolva isoladamente quadros de sofrimento emocional. Eles reforçam, porém, que a criatividade pode fazer parte de uma rede de cuidados, especialmente quando também proporciona convivência, expressão e a oportunidade de desenvolver novas habilidades.
O melhor hobby é aquele que faz sentido para você
Uma atividade só tende a permanecer na rotina quando existe alguma identificação genuína com ela.
Muitas vezes, as pessoas escolhem um hobby pensando apenas em uma recompensa externa. Começam a correr exclusivamente para perder peso, aprendem uma habilidade apenas para aumentar a produtividade ou entram em um curso porque acreditam que deveriam ocupar melhor o tempo.
Esses motivos podem funcionar durante algum período. No entanto, a continuidade costuma ser mais provável quando existe motivação intrínseca, ou seja, quando a própria experiência é agradável, interessante ou satisfatória.
Amanda não começou a nadar no mar porque alguém a repreendeu ou ordenou que praticasse exercícios. Ela já sentia curiosidade. A recomendação profissional ajudou a transformar esse interesse em uma experiência concreta e acessível.
Mesmo durante um período em que precisou se afastar da água por causa de uma cirurgia no quadril, ela imaginava a si mesma entre as ondas e ao lado das amigas. Essa lembrança contribuía para melhorar seu estado emocional. O mar havia se transformado em mais do que um local de exercício. Ele representava vínculo, identidade e esperança.
Para descobrir uma atividade com esse potencial, pode ser útil refletir sobre algumas experiências pessoais. O que você gostava de fazer antes de a rotina se tornar tão ocupada? Que assunto desperta sua curiosidade? Em quais atividades você se sente mais presente? O que gostaria de aprender mesmo que ninguém estivesse avaliando seu desempenho?
As respostas podem indicar caminhos mais coerentes com seus valores e interesses.
Lazer também é parte da saúde
Em uma rotina marcada por responsabilidades, o lazer costuma ser tratado como algo secundário. Ele aparece depois do trabalho, das tarefas domésticas, dos compromissos familiares e de todas as obrigações consideradas urgentes.
Com o tempo, muitas pessoas deixam de realizar atividades que antes produziam entusiasmo. O lazer passa a ser visto como um luxo ou até como uma forma de improdutividade.
Essa compreensão precisa ser revista. Atividades de lazer podem ter uma função importante na manutenção da saúde física e mental. Elas oferecem oportunidades de descanso, expressão, aprendizado, movimento e convivência.
O hobby também pode devolver à pessoa uma parte de sua identidade que não está ligada às funções profissionais ou familiares. Alguém pode ser gestor, mãe, pai, cuidador ou profissional de saúde, mas também pode ser jardineiro amador, músico, corredor, leitor ou artesão.
Essa diversidade de papéis amplia a percepção que temos de nós mesmos. Quando uma única área da vida enfrenta dificuldades, outras fontes de significado podem oferecer sustentação emocional.
Atenção plena ajuda a reconhecer o que nos envolve
Outra forma de descobrir um hobby é observar quais atividades capturam naturalmente nossa atenção.
A atenção plena pode ser compreendida como o exercício de perceber o que está acontecendo no momento presente. Em vez de agir sempre no piloto automático, a pessoa passa a notar sensações, pensamentos, detalhes e mudanças.
A psicóloga Ellen Langer, professora da Universidade Harvard, sugere começar observando três coisas novas em algo familiar, como uma pessoa, um lugar ou um objeto. Esse exercício simples ajuda a interromper respostas automáticas e estimula uma postura de curiosidade.
A prática pode ser especialmente útil para pessoas que convivem com estresse ou dor. Em momentos de sofrimento, existe uma tendência de acreditar que a sensação permanecerá igual ou continuará piorando. Ao prestar atenção às variações, a pessoa pode perceber que há períodos de maior ou menor intensidade.
A psicóloga especializada em dor Rachel Zoffness também destaca que a experiência dolorosa pode mudar conforme o direcionamento da atenção. Em alguns atendimentos, ela pergunta aos pacientes se conseguem lembrar de uma ocasião em que estavam tão envolvidos em uma atividade que, por alguns instantes, esqueceram a dor.
A resposta pode oferecer pistas importantes. Uma atividade capaz de absorver a atenção não elimina necessariamente o problema, mas pode ampliar a experiência da pessoa para além dele.
Resgate o que despertava alegria na infância
Quando alguém não consegue identificar o que lhe interessa, olhar para a infância pode ser um bom ponto de partida.
As crianças costumam brincar sem a obrigação de alcançar um resultado produtivo. Desenham, correm, inventam histórias, colecionam objetos, constroem brinquedos e exploram o ambiente por curiosidade.
Na vida adulta, muitas dessas experiências são abandonadas porque parecem pouco úteis. No entanto, elas podem revelar interesses que continuam presentes.
Talvez uma criança que gostava de criar personagens encontre satisfação no teatro ou na escrita. Quem passava horas construindo objetos pode se interessar por marcenaria, modelagem ou artesanato. Quem gostava de explorar quintais e parques talvez se identifique com jardinagem, trilhas ou observação de aves.
O objetivo não é reproduzir exatamente uma atividade da infância, mas recuperar a disposição para experimentar sem a exigência de fazer tudo perfeitamente.
Dizer “sim” pode abrir novos caminhos
Algumas pessoas sabem exatamente qual hobby gostariam de praticar. Outras precisam experimentar diferentes possibilidades até encontrar algo que faça sentido.
Nesse processo, dizer “sim” a uma nova atividade pode ser transformador. O convite pode vir na forma de uma oficina de culinária, um grupo de caminhada, uma aula de aquarela, um coral ou uma atividade comunitária.
É comum rejeitar experiências antes mesmo de conhecê-las. Alguém pode afirmar que não tem talento para pintar, que não gosta de cozinhar ou que não possui coordenação para dançar. No entanto, o objetivo de um hobby não precisa ser alcançar alto desempenho.
A atividade pode simplesmente oferecer prazer, presença e contato com outras pessoas.
Profissionais que conduzem oficinas criativas relatam que participantes inicialmente resistentes às vezes terminam a experiência encantados. A curiosidade abre espaço para descobrir capacidades e preferências que haviam permanecido desconhecidas.
É difícil permanecer curioso e excessivamente crítico ao mesmo tempo. Quando a atenção está voltada para a descoberta, a preocupação com o julgamento tende a diminuir.
Hobbies também criam conexão e pertencimento
Embora algumas atividades possam ser realizadas individualmente, muitos hobbies criam oportunidades de convivência.
Uma pessoa que entra em um grupo de corrida, canto, leitura ou jardinagem passa a encontrar regularmente outras pessoas com interesses semelhantes. As conversas surgem de forma mais natural porque já existe um assunto compartilhado.
Essa convivência pode ser especialmente importante em uma sociedade marcada pela solidão e pelo enfraquecimento dos vínculos comunitários. O hobby oferece um motivo para sair de casa, encontrar pessoas e participar de algo que possui continuidade.
Com o tempo, as relações podem se aprofundar. O grupo deixa de ser apenas o espaço da atividade e passa a funcionar como uma rede de apoio.
Foi o que aconteceu com Amanda. A natação no mar não contribuiu apenas para sua disposição física. Ela também trouxe amizades, confiança e a sensação de pertencer a uma comunidade.
Uma prática cotidiana de felicidade
A obra “Pessoas felizes fazem coisas incríveis”, de Benedito Nunes, apresenta a felicidade como uma construção diária, alimentada por hábitos, escolhas, relações e resiliência. Nessa perspectiva, os hobbies podem ser compreendidos como práticas simples capazes de criar condições favoráveis ao bem-estar.
Eles não prometem uma vida sem dificuldades. Também não substituem acompanhamento profissional quando existe sofrimento psicológico ou uma condição de saúde que exige tratamento.
Seu valor está em ampliar o repertório de experiências que sustentam a vida. Um hobby pode ajudar a movimentar o corpo, acalmar a mente, cultivar a criatividade, fortalecer relações e recuperar a sensação de propósito.
Para o Instituto Movimento pela Felicidade e Bem-Estar, a felicidade deve ser compreendida não como um privilégio ou uma emoção passageira, mas como uma competência que pode ser desenvolvida e aplicada nas diferentes dimensões da existência.
Escolher uma atividade significativa é uma maneira concreta de colocar essa ideia em prática. O primeiro passo pode ser pequeno: entrar em uma aula experimental, voltar a tocar um instrumento, caminhar em um parque ou reservar alguns minutos para desenhar.
O hobby mais benéfico não é necessariamente o mais popular, o mais produtivo ou o mais sofisticado. É aquele que desperta curiosidade, oferece presença e ajuda a pessoa a se reconectar consigo mesma, com os outros e com a vida.
Postagem inspirada na notícia “Hobbies can improve your health – here are four tips for choosing one”.




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