Dormir tarde pode aumentar a solidão noturna e a ansiedade, aponta estudo

Dormir bem não é apenas uma necessidade física. O sono também organiza emoções, regula o humor, fortalece a saúde mental e influencia a forma como nos relacionamos com o mundo. Uma nova pesquisa apresentada no encontro anual SLEEP 2026 chama atenção para um ponto importante dessa equação: pessoas com horários de sono mais tardios tendem a relatar mais solidão, especialmente durante a noite, e níveis mais altos de ansiedade.

O estudo analisou indivíduos com cronotipo vespertino, ou seja, pessoas que naturalmente preferem dormir e acordar mais tarde. Os resultados indicaram que esses participantes apresentavam pior saúde mental, maior solidão geral e maior solidão noturna. Essa solidão vivida à noite parece ter papel especialmente relevante na relação entre dormir tarde e sentir mais ansiedade.

A descoberta reforça uma ideia cada vez mais presente nos estudos sobre felicidade e bem-estar: nossos hábitos cotidianos não afetam apenas o corpo, mas também a qualidade das nossas emoções e relações. A hora em que dormimos, a forma como encerramos o dia, o quanto nos sentimos acompanhados ou isolados à noite e a regularidade da nossa rotina podem influenciar diretamente nossa saúde mental.

O que é cronotipo e por que ele importa

Cronotipo é a tendência natural de cada pessoa em relação aos horários de sono e vigília. Algumas pessoas se sentem mais dispostas pela manhã, enquanto outras funcionam melhor à noite. Os chamados “tipos vespertinos” costumam preferir dormir e acordar mais tarde.

O problema é que a vida social, escolar e profissional geralmente segue horários convencionais, mais alinhados ao funcionamento matutino. Isso pode gerar uma espécie de desalinhamento social. A pessoa tem um ritmo biológico mais tardio, mas precisa se adaptar a compromissos cedo, pressões de trabalho, demandas familiares ou expectativas sociais que não respeitam esse padrão.

Esse descompasso pode afetar o sono, o humor e a sensação de pertencimento. Quando alguém está acordado em horários em que a maioria das pessoas já está dormindo, a noite pode se tornar um espaço de silêncio, ruminação e isolamento. Para alguns, esse período favorece criatividade e tranquilidade. Para outros, pode intensificar pensamentos ansiosos e sentimentos de solidão.

A solidão que aparece à noite

Um dos pontos mais relevantes do estudo é a atenção dada à solidão noturna. Os pesquisadores observaram que pessoas com horários mais tardios de sono relatavam maior solidão durante a noite, e essa solidão estava associada a níveis mais elevados de ansiedade.

Quando a solidão noturna foi considerada na análise, a relação direta entre cronotipo vespertino e ansiedade deixou de ser significativa. Isso sugere que o sentimento de estar só à noite pode ser um caminho importante para explicar por que pessoas que dormem mais tarde apresentam mais sintomas ansiosos.

Essa descoberta é importante porque desloca a discussão para além do horário de dormir. O ponto não é apenas que dormir tarde faz mal. O que parece importar também é o contexto emocional e social em que a pessoa vive esse período da noite. Estar acordado quando os outros estão indisponíveis pode aumentar a sensação de desconexão. E a desconexão, quando se repete, pode afetar o bem-estar.

A solidão noturna pode ser silenciosa, mas intensa. É quando mensagens não são respondidas, a casa fica quieta, as preocupações crescem e a mente encontra menos distrações. Para quem já está vulnerável emocionalmente, esse cenário pode ampliar a ansiedade.

Sono, saúde mental e felicidade

A Academia Americana de Medicina do Sono destaca que o sono adequado depende de duração suficiente, boa qualidade, horários apropriados, regularidade e ausência de distúrbios. Essa visão amplia a compreensão do descanso. Não basta dormir muitas horas de forma irregular ou tentar compensar noites mal dormidas no fim de semana. O corpo e a mente precisam de ritmo.

Do ponto de vista da felicidade e do bem-estar, essa regularidade tem grande valor. A felicidade não se constrói apenas em grandes decisões, mas também em pequenos hábitos que sustentam a vida diária. Dormir melhor, alimentar-se com mais equilíbrio, movimentar o corpo, cultivar relações e criar momentos de pausa são práticas que fortalecem a saúde mental.

O sono participa diretamente dessa construção porque interfere na forma como sentimos, pensamos e reagimos. Uma noite mal dormida pode reduzir a paciência, aumentar a irritabilidade, dificultar a concentração e tornar os problemas mais pesados. Quando esse padrão se repete, a saúde emocional pode se fragilizar.

Por isso, cuidar do sono também é cuidar da felicidade. Não no sentido de buscar uma alegria permanente, mas de criar condições para que a mente esteja mais protegida, o corpo mais regulado e as relações mais saudáveis.

A vida social também tem horário

O estudo envolveu 442 participantes recrutados por uma plataforma online de pesquisa. Eles responderam questionários sobre cronotipo, solidão noturna e ansiedade. A análise buscou entender se a solidão à noite ajudava a explicar a relação entre dormir mais tarde e apresentar mais sintomas ansiosos.

Os achados sugerem que as experiências sociais, tanto durante o dia quanto à noite, são relevantes para compreender a saúde mental de pessoas com cronotipo vespertino. Isso é especialmente importante em uma sociedade cada vez mais conectada digitalmente, mas nem sempre mais acompanhada emocionalmente.

Muitas pessoas passam a noite nas redes sociais, em plataformas de streaming, trabalhando ou navegando sem rumo. Embora essas atividades possam preencher o tempo, elas nem sempre oferecem conexão real. Em alguns casos, podem até acentuar comparações, sensação de exclusão e dificuldade de desacelerar.

O desafio, portanto, não é apenas antecipar o horário de dormir, mas construir uma rotina noturna mais saudável. Isso pode incluir reduzir estímulos digitais, criar rituais de encerramento do dia, estabelecer horários mais consistentes, buscar apoio quando a solidão se torna frequente e fortalecer vínculos durante o dia para que a noite não se torne um território de abandono emocional.

Um alerta para terapeutas, profissionais de saúde e famílias

Segundo os pesquisadores, a solidão, especialmente a solidão noturna, pode ser um alvo importante de intervenção para pessoas com cronotipo mais tardio. Isso significa que terapeutas, clínicos e pesquisadores podem olhar com mais atenção para o que acontece emocionalmente à noite.

Perguntas simples podem abrir caminhos importantes: como a pessoa se sente antes de dormir? Ela costuma se sentir sozinha nesse período? A ansiedade piora à noite? Há alguém com quem possa conversar? A rotina noturna favorece descanso ou aumenta tensão? O uso de telas ajuda ou intensifica a sensação de isolamento?

Essas perguntas também podem ser úteis em casa, nas escolas, nas empresas e nas relações familiares. Muitas vezes, o sofrimento noturno passa despercebido porque acontece quando ninguém está olhando. A pessoa parece funcional durante o dia, mas enfrenta noites longas e solitárias.

Reconhecer esse padrão é um primeiro passo para cuidar melhor.

Felicidade também é ritmo, vínculo e cuidado

A pesquisa não afirma que todas as pessoas que dormem tarde terão ansiedade, nem que o cronotipo vespertino seja, por si só, um problema. Cada indivíduo possui características biológicas, sociais e emocionais próprias. O que o estudo mostra é uma associação relevante entre horários mais tardios, solidão e ansiedade, apontando a necessidade de olhar para o sono como parte de uma rede maior de bem-estar.

Essa rede inclui corpo, mente, relações e ambiente. A felicidade, quando compreendida como ciência e prática, passa justamente por essa integração. Não se trata de buscar uma vida sem dificuldades, mas de desenvolver hábitos e contextos que favoreçam equilíbrio, pertencimento e saúde mental.

Dormir melhor pode ser uma forma de autocuidado. Criar vínculos mais presentes pode ser uma forma de prevenção. Reduzir a solidão noturna pode ser uma estratégia concreta para aliviar a ansiedade. E aprender a respeitar os próprios ritmos, sem perder de vista a necessidade humana de conexão, pode ser um passo importante para viver com mais bem-estar.

No fim, a noite não precisa ser um território de isolamento. Ela pode ser um espaço de descanso, silêncio saudável e reconexão consigo mesmo. Mas, para isso, é preciso cuidar da rotina, dos vínculos e das emoções que chegam quando o dia termina. A felicidade também se constrói nesse momento discreto, quando escolhemos desacelerar, pedir apoio quando necessário e preparar o corpo e a mente para recomeçar melhor no dia seguinte.

Postagem inspirada na notícia “Later sleep schedules are associated with loneliness and increased anxiety”.

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