De burnout a boreout: por que o desafio de 2026 pode ser a falta de sentido no trabalho

Um novo relatório global sobre o ambiente corporativo em 2026 trouxe uma fotografia curiosa e, ao mesmo tempo, reveladora: a produtividade segue em alta, os indicadores clássicos de burnout diminuíram, mas o risco de desengajamento está crescendo de forma acelerada. Em outras palavras, muitas empresas parecem ter aprendido a reduzir a sobrecarga, porém ainda não descobriram como transformar a capacidade liberada em trabalho significativo.

Os dados do 2026 State of the Workplace, da ActivTrak, foram construídos a partir de centenas de milhões de horas de comportamento em mais de mil organizações. O retrato é de um cotidiano em que os dias de trabalho encolheram levemente, as horas produtivas subiram, a adoção de ferramentas de IA se tornou massiva e os padrões considerados saudáveis se consolidaram para a maioria. Mesmo assim, quase um em cada quatro profissionais aparece como “subutilizado” ou pouco desafiado por grande parte do tempo.

A nova fadiga silenciosa: quando falta desafio, sobra desconexão

Durante anos, o vocabulário da saúde mental no trabalho girou em torno de excesso: excesso de demandas, de urgências, de reuniões, de pressão. O relatório sugere que esse eixo começa a mudar. O “boreout”, termo usado para descrever o desgaste de estar cronicamente subestimulado, passa a ser visto como um risco estrutural de engajamento. Não se trata de gente que abandonou o trabalho por completo, mas de pessoas presentes, entregando, porém sem a sensação de crescimento, utilidade ou direção.

Esse ponto é importante porque mexe com uma crença comum. Quando o estresse diminui, esperaríamos, automaticamente, mais vínculo com o trabalho. Mas vínculo não nasce apenas do alívio, ele nasce também do sentido. E sentido costuma ser construído quando há clareza de contribuição, desafios proporcionais às capacidades e uma narrativa de propósito que seja verdadeira, não um slogan.

IA, fragmentação e o “trabalho em pedaços”

Outro sinal forte do relatório está na textura do trabalho. A IA não parece estar “apagando” tarefas; ela amplia atividades em diferentes frentes, como e-mails, mensagens e ferramentas corporativas. Ao mesmo tempo, a capacidade de foco vem caindo, com sessões de concentração mais curtas e um ambiente de colaboração e multitarefa mais intenso. O resultado pode ser um dia cheio de movimentos, mas pobre em profundidade.

Essa combinação ajuda a entender o paradoxo. Se o trabalho se torna mais fragmentado, fica mais difícil experimentar imersão, domínio e progresso visível. E quando a empresa ganha eficiência, mas não reorganiza o “para quê” e o “onde isso chega”, a capacidade liberada pode virar tempo ocioso disfarçado, aquele espaço em que a pessoa não está exausta, porém também não está conectada.

O próximo passo da liderança: orquestrar capacidade com propósito

A mensagem que fica é que a pauta de 2026 tende a migrar de “prevenção de burnout” para “orquestração de capacidade”. Reduzir a sobrecarga foi uma etapa essencial, mas insuficiente se o sistema não souber redistribuir trabalho, criar trilhas de desenvolvimento, ampliar autonomia e oferecer desafios que façam sentido para diferentes perfis.

No Instituto Movimento pela Felicidade e Bem-Estar, a felicidade é tratada como competência humana e como prática aplicável em ambientes organizacionais, sempre ancorada em ciência e em escolhas de cultura que favoreçam bem-estar real. O dado do desengajamento em alta reforça algo simples: saúde emocional no trabalho não é apenas reduzir dor, é também promover vitalidade. E vitalidade nasce quando as pessoas percebem pertencimento, utilidade e coerência entre o que fazem e o que valorizam.

No fim, a pergunta que o relatório coloca para as lideranças é direta: se a empresa está mais eficiente, para onde vai esse ganho? Se a resposta não incluir desenvolvimento, significado e contribuição, a produtividade pode até subir, mas a felicidade no cotidiano tende a ficar rasa, e a desconexão vira apenas uma questão de tempo.

Postagem inspirada na notícia “From Burnout to Boreout: The Next Challenge Facing Business Leaders in 2026”.

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