Criatividade como pausa para o bem-estar: programa de arte melhora emoções e reduz estresse entre estudantes
/0 Comentários/em Blog/por movimentopelafelicidadeEm meio a provas, trabalhos, prazos e às muitas exigências da vida acadêmica, parar por algumas horas para trabalhar com argila, pintar uma tela ou experimentar uma nova técnica artística pode parecer apenas uma atividade de lazer. Uma experiência realizada no Reino Unido, porém, mostra que essas pausas criativas podem representar muito mais.
O Murray Edwards College, da Universidade de Cambridge, desenvolveu ao longo do último ano acadêmico o programa Creative Breaks, uma iniciativa voltada ao bem-estar dos estudantes por meio da arte. O projeto atraiu quase um quarto da comunidade estudantil e apresentou resultados positivos na redução de emoções negativas e no aumento das positivas.
A proposta era relativamente simples: criar momentos nos quais os estudantes pudessem interromper temporariamente as demandas acadêmicas para experimentar a criatividade, a expressão pessoal e o relaxamento.
Ao longo do ano, foram realizados 12 workshops quinzenais conduzidos pela organização local Arts & Minds e por artistas profissionais. Cerâmica, mosaicos, pintura acrílica, terracota, tinta, carvão e arte têxtil estiveram entre as atividades oferecidas.
A procura foi tão grande que praticamente todas as oficinas tiveram suas vagas preenchidas, muitas vezes apenas um dia depois da abertura das inscrições.
Quando criar também significa descansar
O sucesso do programa oferece uma reflexão importante sobre nossa compreensão do descanso.
Descansar nem sempre significa simplesmente ficar parado ou dormir. Algumas atividades podem proporcionar uma mudança de foco capaz de interromper temporariamente ciclos de preocupação, pressão e estresse.
Foi justamente essa experiência que muitos participantes relataram.
Para alguns estudantes, as oficinas ofereceram a oportunidade de utilizar uma forma de pensamento completamente diferente daquela exigida pelas atividades acadêmicas. Outros disseram que os encontros ajudaram a recuperar a perspectiva diante das obrigações da universidade e a voltar posteriormente aos estudos com maior capacidade de concentração.
Um dos participantes resumiu a experiência dizendo que a atividade permitia utilizar “uma parte diferente do cérebro” daquela normalmente mobilizada pela vida acadêmica ou mesmo pelas interações sociais.
Outro estudante afirmou que as oficinas reduziram significativamente seu estresse e permitiram que se afastasse momentaneamente do trabalho acadêmico. Curiosamente, essa pausa não prejudicou sua produtividade. Segundo o relato, depois das atividades tornou-se mais fácil voltar ao trabalho e se concentrar.
É uma constatação interessante em uma cultura que frequentemente associa desempenho à ocupação permanente. Às vezes, interromper uma tarefa pode ser justamente aquilo de que precisamos para retomá-la de uma maneira mais saudável.
Os efeitos apareceram também nas emoções
O programa não foi avaliado apenas por meio das impressões dos participantes.
Antes e depois das oficinas, os estudantes responderam à escala PANAS, instrumento utilizado para avaliar afetos positivos e negativos. Os resultados mostraram que todas as oficinas estiveram associadas a um aumento significativo das emoções positivas e a uma redução significativa das emoções negativas.
Os efeitos apareceram entre diferentes perfis de participantes, incluindo estudantes de graduação e pós-graduação, britânicos e internacionais e alunos tanto das áreas de ciências e tecnologia quanto de artes, humanidades e ciências sociais.
Ao todo, 142 estudantes participaram do Creative Breaks, o equivalente a 23% da comunidade do College. Foram registradas 274 participações nas oficinas ao longo do ano. Em média, cada estudante compareceu a dois encontros, embora alguns tenham participado de até dez.
Os números ajudam a mostrar que a criatividade não despertou apenas curiosidade momentânea. Muitos estudantes decidiram voltar.
Criatividade também aproxima pessoas
Outro efeito importante aconteceu para além da produção artística.
De acordo com Susan Imrie, responsável pela área de bem-estar do College e uma das líderes do projeto, alguns estudantes relataram que as oficinas contribuíram para fazer amizades e aumentar a sensação de fazer parte daquela comunidade.
Esse aspecto ganhou relevância principalmente entre os estudantes de pós-graduação, que normalmente vivem fora do campus. Um terço dos participantes do programa pertencia justamente a esse grupo.
As oficinas, portanto, não criaram apenas espaço para desenhar, pintar ou modelar. Criaram oportunidades de encontro.
Essa dimensão merece atenção porque bem-estar e pertencimento estão profundamente relacionados. Um ambiente pode oferecer excelentes condições acadêmicas ou profissionais e, ainda assim, deixar de promover qualidade de vida quando as pessoas não encontram oportunidades de criar vínculos e sentir que fazem parte de uma comunidade.
A felicidade, nesse sentido, não é construída exclusivamente dentro de cada indivíduo. Ela também se fortalece nos espaços que favorecem convivência, expressão e conexão.
A liberdade de não ser perfeito
Talvez um dos depoimentos mais reveladores do programa tenha vindo de um estudante que participou de uma atividade com carvão.
Além de aprender a utilizar o material, ele disse ter aprendido a ser menos exigente consigo mesmo e a permitir-se não ser perfeito.
A frase revela uma dimensão importante da experiência criativa.
Grande parte da vida acadêmica e profissional é estruturada em torno da avaliação. Há notas, resultados, metas, desempenho e comparação. A criação artística pode abrir um território diferente, no qual experimentar, errar, recomeçar e descobrir caminhos inesperados fazem parte do próprio processo.
Isso não significa que a arte seja desprovida de técnica ou excelência. Significa que o ato de criar pode oferecer um espaço no qual o erro deixa de ser necessariamente um fracasso e passa a ser parte da descoberta.
É justamente nessa relação entre criatividade e felicidade que encontramos uma conexão importante com a Ciência da Felicidade. Em Pessoas felizes fazem coisas incríveis, Benedito Nunes dedica um capítulo à felicidade e à criatividade, inserindo a capacidade criativa entre diferentes dimensões de uma vida mais significativa. O livro também relaciona felicidade ao cultivo das emoções, à resiliência e à construção de vínculos de pertencimento.
Criar pode ser também uma forma de autocuidado
Os próprios estudantes começaram a perceber essa possibilidade.
Um deles afirmou que a atividade havia sido agradável e relaxante e que pretendia continuar praticando-a como uma maneira de descansar e desacelerar.
Esse talvez seja um dos resultados mais interessantes de iniciativas como o Creative Breaks: apresentar às pessoas novos recursos para cuidar do próprio bem-estar.
Nem todas encontrarão relaxamento pintando, fazendo cerâmica ou trabalhando com tecidos. Mas a experiência mostra a importância de descobrir atividades capazes de criar pausas significativas dentro da rotina.
Essa perspectiva está alinhada à proposta do Instituto Movimento pela Felicidade de transformar os conhecimentos produzidos pela Ciência da Felicidade e áreas relacionadas em práticas úteis e aplicáveis ao cotidiano.
Cuidar do bem-estar não precisa estar restrito aos momentos em que algo já não vai bem. Também significa desenvolver hábitos, espaços e experiências capazes de fortalecer nossos recursos emocionais antes que o estresse se torne excessivo.
Felicidade também precisa de espaço para criar
Diante da grande adesão e dos resultados observados, o Creative Breaks terá continuidade no próximo ano acadêmico. O financiamento foi renovado e a proposta agora é ampliar o projeto, mantendo as oficinas e experimentando novos formatos, como sessões abertas e projetos artísticos colaborativos.
A experiência de Cambridge deixa uma mensagem que ultrapassa os muros da universidade.
Escolas, universidades, empresas e outras organizações costumam dedicar grande atenção ao desempenho das pessoas. Mas talvez seja necessário perguntar com a mesma frequência quais espaços estamos oferecendo para que elas respirem, experimentem, convivam e expressem outras dimensões de si mesmas.
A criatividade pode contribuir para esse processo justamente porque nos convida a sair, ainda que temporariamente, das respostas prontas. Ao pintar, modelar, escrever, desenhar ou construir alguma coisa, mobilizamos curiosidade, atenção e expressão.
E, algumas vezes, aquilo que começa como uma simples pausa pode terminar produzindo algo muito maior: uma emoção positiva, uma nova amizade, uma maneira diferente de enfrentar o estresse ou a descoberta de que não precisamos acertar tudo o tempo inteiro.
A felicidade também pode ser cultivada nesses pequenos espaços de liberdade. Espaços em que deixamos de produzir apenas resultados e nos permitimos, simplesmente, criar.
Postagem inspirada na notícia “Creative Breaks arts-based programme boosts student wellbeing”.




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