Bem-estar de jovens adultos cai de forma acentuada e acende alerta sobre o futuro

A forma como os jovens adultos avaliam suas próprias vidas piorou de maneira significativa nos últimos anos nos Estados Unidos, segundo novos dados da Gallup. Entre pessoas de 18 a 29 anos, apenas 44% foram classificadas como “prosperando” em 2026, percentual 20 pontos abaixo do pico de 64% registrado em 2010.

A queda não ocorreu de maneira uniforme ao longo do tempo. Em 2019, 57% dos jovens adultos ainda estavam nessa categoria. Durante a pandemia de Covid-19, o índice despencou para 39% em 2020. Houve uma recuperação parcial nos anos seguintes, chegando a 51% em 2023, mas o movimento voltou a perder força.

O dado chama atenção não apenas pela intensidade da queda, mas também pelo que ela revela sobre a experiência de vida das gerações mais jovens.

No levantamento, a Gallup considera que uma pessoa está “prosperando” quando avalia sua vida atual com nota 7 ou superior, em uma escala de zero a dez, e espera que sua vida em cinco anos alcance nota 8 ou mais.

Em outras palavras, a classificação combina duas dimensões importantes para o bem-estar: satisfação com o presente e esperança em relação ao futuro.

A queda não se limita aos mais jovens

Os adultos entre 30 e 44 anos apresentam uma trajetória semelhante.

Em 2026, 45% das pessoas dessa faixa etária foram classificadas como prosperando. Em 2016 e 2017, esse percentual havia chegado a 62%.

Entre aqueles com idade de 45 a 64 anos, a deterioração foi menos intensa, mas os números também preocupam. O índice de 46% registrado em 2026 iguala o nível mais baixo observado para esse grupo desde 2008.

O contraste aparece entre os adultos de 65 anos ou mais.

Nesse grupo, a avaliação positiva da vida melhorou progressivamente ao longo do tempo, passando de 38% em 2008 para 53% em 2026, igualando o melhor resultado já registrado anteriormente, em 2021.

Assim, enquanto diferentes gerações em idade ativa enfrentam uma redução importante em sua percepção de bem-estar, os mais velhos seguem uma direção oposta.

O problema parece acompanhar as gerações

Uma das análises mais relevantes do levantamento surge quando os pesquisadores observam os mesmos grupos de nascimento ao longo do tempo.

Entre pessoas que atualmente têm entre 34 e 46 anos, 46% são classificadas como prosperando.

Em 2010, quando esse mesmo grupo fazia parte da população de 18 a 29 anos, o percentual era de 64%.

Isso indica que a piora não pode ser explicada apenas pela substituição de uma geração por outra.

A avaliação da vida também diminuiu à medida que esse grupo envelheceu.

Ao mesmo tempo, os jovens que chegaram posteriormente à vida adulta já estão começando essa etapa com indicadores de bem-estar inferiores aos registrados pelas gerações anteriores.

O fenômeno sugere que mudanças econômicas, sociais e emocionais podem estar alterando de maneira mais ampla a forma como as pessoas experimentam o início e a consolidação da vida adulta.

Saúde mental, relações e prazer cotidiano perderam força

A maior parte da deterioração entre os jovens ocorreu depois de 2019.

Segundo a Gallup, alguns dos indicadores mais associados à avaliação da vida ajudam a compreender essa mudança.

Entre eles aparecem o crescimento da depressão, a piora na qualidade dos relacionamentos próximos, a redução das experiências diárias de prazer e a diminuição da sensação de estar ativo e produtivo no cotidiano.

Também houve quedas na satisfação com o padrão de vida, na percepção de contar com lideranças capazes de gerar entusiasmo em relação ao futuro e na sensação de alcançar objetivos pessoais.

Entre os adultos de 30 a 44 anos, o diagnóstico ou tratamento de depressão chegou a 37%, um aumento de 15 pontos em relação a 2019.

Na mesma faixa etária, a parcela daqueles que relatavam experiências significativas de prazer no dia a dia caiu 16 pontos, chegando a 63%.

Também houve reduções relevantes no sentimento de produtividade, no orgulho em relação à comunidade e na percepção de existir alguma liderança capaz de despertar confiança no futuro.

Esses indicadores mostram que o bem-estar dificilmente pode ser reduzido a uma única variável.

Ele envolve saúde mental, qualidade das relações, condições materiais, participação social, propósito e percepção de futuro.

Essa perspectiva dialoga diretamente com a ciência da felicidade, que procura compreender o bem-estar como resultado de diferentes dimensões da experiência humana e não apenas como uma emoção passageira.

Relações humanas aparecem novamente no centro da questão

A deterioração na qualidade dos vínculos próximos é especialmente significativa.

O Instituto Movimento pela Felicidade destaca as relações positivas como um dos territórios fundamentais para compreender felicidade, saúde e longevidade. No programa Diálogos com a Felicidade, as relações familiares positivas são tratadas justamente como um dos elementos centrais para a construção do bem-estar.

Quando a qualidade dos relacionamentos diminui, o impacto tende a ultrapassar o campo social.

Ter pessoas com quem contar, compartilhar dificuldades, experimentar pertencimento e construir confiança ajuda a formar uma espécie de rede de proteção emocional.

Por outro lado, solidão, isolamento e deterioração dos vínculos podem ampliar a vulnerabilidade diante de estresse, ansiedade e depressão.

Os dados da Gallup sugerem que essa dimensão relacional está justamente entre aquelas que mais se fragilizaram entre os jovens adultos.

Insegurança econômica também pesa na percepção da vida

A piora do bem-estar não ocorre isoladamente das condições materiais.

Entre os fatores apontados pela análise aparecem dificuldades de acesso à moradia, insegurança profissional, aumento das despesas básicas e receio de instabilidade no mercado de trabalho.

Há também uma nova fonte de preocupação: o impacto potencial da inteligência artificial sobre os empregos.

Segundo a Gallup, o temor de perder oportunidades profissionais para sistemas de IA é maior entre pessoas abaixo dos 45 anos.

Ao mesmo tempo, cresceu o pessimismo em relação ao mercado de trabalho, inclusive entre pessoas com formação universitária.

Esse cenário ajuda a compreender por que satisfação econômica e percepção de futuro caminham tão próximas da avaliação geral da vida.

A felicidade não depende exclusivamente da renda. Mas sentir-se constantemente ameaçado por dívidas, desemprego, falta de moradia acessível ou instabilidade financeira pode reduzir drasticamente a sensação de segurança e liberdade.

Por que os mais velhos estão melhorando?

O movimento observado entre adultos de 65 anos ou mais ajuda a reforçar essa interpretação.

Enquanto os grupos mais jovens registraram piora, os idosos apresentaram avanços em diferentes indicadores ligados à segurança financeira.

A parcela daqueles que dizem ter dinheiro suficiente para fazer tudo o que desejam aumentou, assim como o número de pessoas que passaram a relatar menos preocupações financeiras ao longo da semana.

A insegurança alimentar também caiu significativamente.

Ao mesmo tempo, cresceu a proporção de idosos que dizem sentir-se seguros e protegidos.

A análise sugere que o patrimônio acumulado por parte dessa geração e uma posição financeira relativamente mais confortável podem ter ajudado a proteger esse grupo de algumas das pressões enfrentadas por adultos mais jovens.

Além disso, pessoas acima de 65 anos tendem a estar menos expostas a preocupações como construção de carreira, custos relacionados à criação dos filhos, acesso à primeira moradia e competição no mercado de trabalho.

Também chama atenção o fato de a depressão ter diminuído justamente entre os mais velhos, enquanto aumentou entre adultos mais jovens.

Felicidade depende também de acreditar que o futuro é possível

Talvez um dos aspectos mais profundos do levantamento esteja justamente na forma como o bem-estar é medido.

Não basta avaliar positivamente a vida atual.

Para ser considerada prosperando, a pessoa também precisa acreditar que sua vida será melhor no futuro.

Isso coloca esperança, expectativa e perspectiva no centro da discussão sobre felicidade.

Uma sociedade em que as pessoas deixam de acreditar que podem melhorar de vida enfrenta um desafio que ultrapassa indicadores econômicos tradicionais.

O problema passa a ser também emocional e social.

Em Pessoas felizes fazem coisas incríveis, Benedito Nunes apresenta a felicidade como uma construção que envolve escolhas, relações, saúde, resiliência, propósito e capacidade de atribuir sentido à própria trajetória.

Os dados da Gallup ajudam a mostrar como essas dimensões podem se deteriorar simultaneamente.

Quando diminuem a qualidade das relações, o sentimento de realização, a segurança econômica, a produtividade percebida e a confiança no futuro, a própria avaliação da vida tende a acompanhar esse movimento.

Um alerta que ultrapassa os Estados Unidos

Embora os dados retratem especificamente a realidade norte-americana, as questões levantadas são relevantes para outras sociedades.

O enfraquecimento das relações, a expansão dos problemas de saúde mental, a pressão econômica, a insegurança profissional e a dificuldade de imaginar um futuro melhor não são fenômenos restritos a um único país.

Por isso, o levantamento também convida a ampliar a forma como medimos progresso.

Crescimento econômico e inovação são importantes, mas não contam toda a história sobre a qualidade de vida de uma sociedade.

Perguntar se as pessoas se sentem saudáveis, conectadas, seguras, produtivas e esperançosas pode revelar dimensões que os indicadores tradicionais deixam escapar.

É justamente nesse ponto que a ciência da felicidade oferece uma contribuição importante.

Felicidade não significa ignorar dificuldades ou exigir que todos permaneçam permanentemente otimistas. Significa criar condições individuais e coletivas para que as pessoas possam desenvolver relações significativas, cuidar da saúde mental, encontrar propósito, sentir segurança e enxergar possibilidades reais no futuro.

Quando uma geração inteira começa a avaliar sua vida de maneira menos positiva, portanto, o problema não deve ser interpretado apenas como uma questão individual.

Pode ser um sinal de que algo no ambiente social, econômico e relacional precisa ser revisto.

E talvez uma das perguntas mais importantes para sociedades que desejam prosperar seja justamente esta: estamos construindo um futuro no qual as novas gerações consigam acreditar?

Postagem inspirada na notícia “Life Ratings of Young Adults Down 20 Points Since 2010”.

0 respostas

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *