Colorir pelo celular ou tablet também pode ajudar a reduzir estresse e ansiedade
/0 Comentários/em Blog/por movimentopelafelicidadeCelulares e tablets costumam aparecer no centro das discussões sobre os efeitos negativos do excesso de tempo diante das telas. Mas uma nova pesquisa sugere que a relação entre tecnologia e saúde mental pode ser mais complexa do que simplesmente contar quantas horas uma pessoa permanece conectada.
Um estudo publicado no Journal of Mental Health descobriu que atividades de colorir realizadas em dispositivos digitais podem proporcionar benefícios semelhantes aos obtidos com lápis e papel, contribuindo para reduzir estresse, ansiedade e sintomas de depressão entre jovens.
A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade de Southampton, no Reino Unido, acompanhou quase 300 estudantes universitários durante um programa de colorir com atenção plena. Os participantes realizaram pelo menos seis sessões ao longo de duas semanas.
Aproximadamente metade utilizou lápis de cor e papel. A outra metade realizou a atividade por meio de aplicativos de colorir em celulares ou tablets.
Ao final da experiência, os dois grupos apresentaram melhorias significativas em indicadores de estresse, atenção plena e sintomas autorrelatados de ansiedade e depressão.
E um resultado chamou especialmente a atenção: os maiores benefícios foram observados justamente entre aqueles que apresentavam níveis mais baixos de bem-estar antes de iniciar o programa.
Nem todo tempo de tela é igual
Para Emma Palmer Cooper, professora associada de Psicologia da Universidade de Southampton e responsável pela pesquisa, boa parte dos estudos sobre dispositivos móveis concentra sua atenção nos possíveis prejuízos relacionados ao uso da tecnologia.
Mas olhar apenas para o tempo de tela pode esconder uma questão importante: o que fazemos enquanto estamos diante dela.
Redes sociais, jogos, aplicativos de mensagens, leitura, trabalho, exercícios de respiração e atividades criativas são experiências muito diferentes, ainda que todas ocorram diante de uma tela.
Segundo Palmer Cooper, o impacto dos dispositivos digitais varia de acordo com a atividade realizada. Por isso, ao concentrar a discussão apenas nos riscos, podemos deixar de perceber algumas possibilidades de utilizar a própria tecnologia para estimular práticas relacionadas à atenção plena e ao bem-estar.
Essa perspectiva ajuda a deslocar o debate de uma pergunta simples, como “quanto tempo você passa no celular?”, para outra talvez mais relevante: “como você utiliza esse tempo?”.
Por que colorir pode ajudar a acalmar a mente?
Pesquisas anteriores já haviam relacionado atividades de colorir a melhorias no bem-estar e a uma maior sensação de calma.
Uma das possíveis explicações está na capacidade da atividade de direcionar a atenção para o momento presente.
Ao escolher cores, observar formas e preencher espaços, a pessoa concentra seus recursos mentais em uma tarefa específica. Isso pode reduzir, pelo menos temporariamente, o espaço ocupado por pensamentos repetitivos, preocupações ou emoções negativas.
É uma lógica semelhante à encontrada em algumas práticas de atenção plena: em vez de permanecer mergulhada em antecipações sobre o futuro ou acontecimentos do passado, a mente recebe um ponto concreto de atenção no presente.
Colorir também combina concentração e criatividade, mas sem exigir necessariamente uma grande habilidade artística. O objetivo não precisa ser produzir uma obra perfeita. A própria atividade pode ser a experiência.
Uma ferramenta simples em um momento de mudanças
O estudo se concentrou em universitários, um grupo que pode atravessar mudanças importantes em um curto período da vida.
Para muitos jovens, o ingresso na universidade significa sair de casa, afastar-se temporariamente de familiares e amigos, assumir novas responsabilidades e construir uma nova rede social.
Essas transformações podem ser estimulantes, mas também podem trazer insegurança, solidão e pressão.
Palmer Cooper destaca que as universidades têm um papel importante na criação de estruturas de apoio aos estudantes, mas os resultados sugerem que atividades simples e de baixo custo, como o colorir com atenção plena, também podem funcionar como um recurso complementar de promoção do bem-estar.
Isso não significa substituir acompanhamento psicológico ou tratamento quando eles são necessários. Trata-se de ampliar o repertório de práticas que podem contribuir para o autocuidado cotidiano.
Quando a tecnologia deixa de ser apenas distração
Há outro aspecto interessante nos resultados.
Hoje, para muitos jovens, encontrar um celular ou tablet disponível pode ser muito mais fácil do que ter em mãos lápis de cor, desenhos impressos e outros materiais.
Se a versão digital da atividade produz resultados semelhantes, isso aumenta sua acessibilidade.
A pesquisa sugere, portanto, que a própria tecnologia frequentemente associada à distração também pode ser utilizada de maneira intencional para criar momentos de concentração e desaceleração.
Essa mudança de perspectiva é importante porque nossa relação com a tecnologia provavelmente não será construída apenas pela tentativa de eliminá-la da vida cotidiana.
O desafio talvez esteja em desenvolver uma relação mais consciente com os dispositivos, reconhecendo quando eles contribuem para o excesso de estímulos e quando podem funcionar como ferramentas úteis.
Felicidade também envolve aprender a direcionar a atenção
A pesquisa se conecta a uma questão relevante para a ciência da felicidade: nosso bem-estar não depende somente daquilo que acontece ao nosso redor, mas também da forma como direcionamos nossa atenção e construímos nossos hábitos.
O Instituto Movimento pela Felicidade trabalha justamente com a compreensão da felicidade como uma competência que pode ser desenvolvida e aplicada à vida pessoal, social e profissional. Isso envolve reconhecer práticas que contribuam para uma existência mais saudável, consciente e equilibrada.
Em Pessoas felizes fazem coisas incríveis, Benedito Nunes também apresenta a felicidade como uma construção cotidiana alimentada por hábitos, escolhas e pela maneira como nos relacionamos com nossas próprias experiências.
Nesse contexto, a atividade de colorir pode parecer pequena. E talvez seja justamente esse o ponto.
Nem todas as estratégias de promoção do bem-estar precisam envolver grandes transformações. Às vezes, alguns minutos dedicados a uma atividade capaz de organizar a atenção, reduzir o fluxo de preocupações e criar espaço mental podem ajudar a tornar o dia mais leve.
O estudo não transforma celulares e tablets em aliados automáticos da saúde mental, tampouco elimina os riscos associados ao uso excessivo ou inadequado das telas. O que ele acrescenta é uma perspectiva mais equilibrada: a tecnologia não possui um efeito único sobre o bem-estar.
Muito depende daquilo que fazemos com ela.
Ao substituir alguns minutos de consumo automático de conteúdo por uma atividade criativa e consciente, talvez a mesma tela que frequentemente dispersa nossa atenção possa, em determinados momentos, ajudar justamente a recuperá-la.
Postagem inspirada na notícia “Colouring on devices can improve student wellbeing, study finds”.




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