Solidão atinge mais os países pobres, mas pode comprometer ainda mais o bem-estar nos países ricos
/0 Comentários/em Blog/por movimentopelafelicidadeSentir-se sozinho está longe de ser uma experiência rara. Mais de uma em cada cinco pessoas no mundo afirmou ter sentido solidão durante boa parte do dia anterior, segundo um dos maiores levantamentos globais já realizados sobre o tema. A pesquisa reuniu informações de mais de 218 mil pessoas em 148 países e revela que a solidão não se distribui de maneira uniforme pelo planeta.
Nos países de menor renda, ela aparece com maior frequência. Nas sociedades mais ricas, por outro lado, é menos comum, mas parece exercer um peso proporcionalmente maior sobre a maneira como as pessoas avaliam a própria vida.
Os resultados ajudam a mostrar que falar em uma única e universal “epidemia de solidão” talvez simplifique excessivamente um fenômeno muito mais complexo. Condições econômicas, saúde, trabalho, escolaridade, estrutura familiar e, principalmente, a existência de pessoas em quem se possa confiar modificam profundamente a experiência de estar só.
Publicado em junho de 2026 no European Journal of Epidemiology, o estudo reforça algo que também ocupa espaço crescente na ciência da felicidade: bem-estar não depende apenas das condições materiais disponíveis, mas da qualidade da vida que conseguimos construir dentro delas.
Um retrato global da solidão
Os pesquisadores analisaram 218.048 respostas do Gallup World Poll coletadas em 2023 e 2024. O levantamento utiliza amostras representativas da população de cada país a partir dos 15 anos de idade. Na maioria das nações, cerca de mil pessoas foram entrevistadas, com grupos maiores em países populosos como China e Índia.
Para identificar a presença da solidão, os participantes responderam a uma pergunta direta sobre como haviam se sentido no dia anterior.
Considerando todos os entrevistados, 21,3% disseram ter experimentado solidão durante boa parte daquele dia. Entretanto, as diferenças econômicas foram expressivas.
Nos países de baixa renda, a proporção chegou a 31,3%. Nos países de renda média, caiu para 23,1%. Entre as nações de alta renda, ficou em 15,7%.
As diferenças regionais seguiram padrão semelhante. A África Subsaariana apresentou a maior prevalência, com 30%. Oriente Médio e Norte da África registraram 24,7%, enquanto as Américas ficaram em 20,1%. Na Ásia, a taxa foi de 18,6% e, na Europa, de 16,2%.
Os números sugerem que a solidão também precisa ser compreendida a partir das circunstâncias em que as pessoas vivem. Dificuldades econômicas, insegurança, condições de saúde e ausência de oportunidades podem ampliar vulnerabilidades emocionais e sociais.
Mas renda, sozinha, está longe de explicar tudo.
Saúde, trabalho e relacionamentos fazem diferença
O estudo identificou diferentes fatores associados a uma menor probabilidade de solidão. Pessoas com melhores condições de saúde, maior escolaridade, emprego e que viviam com mais pessoas apresentaram índices menores.
Estar casado ou manter uma relação de parceria também apareceu associado a uma menor prevalência de solidão.
No sentido oposto, problemas de saúde, desemprego e morar sozinho estiveram relacionados a uma maior possibilidade de relatar essa experiência.
Esses resultados ganham importância quando observados pela perspectiva da ciência da felicidade. Relações humanas consistentes, sensação de pertencimento e redes de confiança estão entre os componentes mais importantes para a construção do bem-estar. Não se trata simplesmente de estar fisicamente cercado de pessoas, mas de sentir que existem vínculos capazes de oferecer acolhimento, reconhecimento e apoio.
Essa distinção é importante porque estar sozinho e sentir-se solitário não são necessariamente a mesma coisa. Momentos de solitude podem ser voluntários, restauradores e importantes para o autoconhecimento. A solidão indesejada, por sua vez, surge quando existe uma distância entre as conexões que desejamos e aquelas que efetivamente temos.
Por isso, uma casa cheia não garante ausência de solidão, assim como viver sozinho não significa necessariamente estar emocionalmente desconectado.
O contexto muda a experiência
Outro resultado relevante é que os fatores relacionados à solidão não apresentaram o mesmo peso em todos os lugares.
A escolaridade, por exemplo, esteve ligada a menores níveis de solidão em países de renda média e alta, mas essa relação não apareceu da mesma maneira nas nações de baixa renda.
O número de pessoas vivendo na mesma residência também teve efeitos diferentes entre as regiões, com associações mais fortes em partes da Europa, Ásia e Américas.
Isso ajuda a compreender por que políticas e iniciativas destinadas a enfrentar a solidão provavelmente não funcionarão da mesma forma em todas as sociedades. Cultura, organização familiar, desigualdade econômica, oportunidades de trabalho e redes comunitárias interferem na maneira como as pessoas constroem e interpretam seus vínculos.
A própria ideia de felicidade também varia entre culturas. Em algumas sociedades, ela está fortemente associada à comunidade, à convivência familiar e à interdependência. Em outras, valores como autonomia, realização individual e independência ocupam posição mais central.
É justamente nesse ponto que surge um dos achados mais interessantes do levantamento.
Onde há menos solidão, ela pode pesar mais
Quando os pesquisadores analisaram a relação entre solidão e avaliação da própria vida, encontraram uma espécie de paradoxo.
As pessoas que relataram solidão avaliaram pior tanto sua vida atual quanto suas perspectivas para o futuro. Na escala de zero a dez utilizada pelo Gallup, a percepção sobre a vida presente foi, em média, 0,48 ponto menor entre os participantes que disseram ter se sentido solitários.
A diferença, porém, foi mais pronunciada nos países de alta renda e em regiões como a Europa, justamente onde a solidão aparece com menor frequência.
Ou seja, viver em uma sociedade com melhores condições materiais não necessariamente reduz o impacto emocional de sentir-se desconectado. Em determinados contextos, a ausência de vínculos significativos pode até se tornar mais evidente.
Nos países e regiões menos desenvolvidos, por outro lado, a solidão apresentou relações particularmente fortes com emoções negativas como estresse, preocupação, raiva e dor.
São manifestações diferentes de um mesmo fenômeno e mostram como felicidade e bem-estar precisam ser compreendidos de maneira multidimensional. Ter renda, segurança e conforto é importante, mas esses fatores não substituem pertencimento, propósito e relações de confiança.
Solidão e vontade de começar em outro lugar
O levantamento também encontrou uma associação entre solidão e intenção de migrar.
Participantes que se sentiam solitários e percebiam menos apoio social apresentaram maior probabilidade de afirmar que gostariam de viver permanentemente em outro país.
Os dados não permitem concluir que a solidão provoque o desejo de migrar. Ainda assim, a associação chama atenção para uma dimensão menos visível do pertencimento.
Quando alguém deixa de perceber vínculos sólidos com as pessoas e com o ambiente onde vive, imaginar uma vida em outro lugar pode representar não apenas uma busca por melhores oportunidades econômicas, mas também a expectativa de reconstruir conexões e encontrar novas possibilidades de realização.
Existe realmente uma epidemia global de solidão?
Outro resultado do estudo convida à cautela diante da expressão “epidemia de solidão”, utilizada com frequência nos últimos anos.
Entre 113 países com dados comparáveis de 2023 e 2024, a mudança média na prevalência de solidão não foi estatisticamente diferente de zero. Em 61% deles, a proporção de pessoas relatando solidão chegou a diminuir.
As diferenças apareceram novamente quando os pesquisadores observaram a renda.
Nos países de baixa renda, houve aumento médio de 3,4 pontos percentuais. Entre as nações de renda média, não ocorreu alteração significativa. Já nos países de alta renda, a prevalência caiu cerca de 1 ponto percentual.
Isso não significa que a solidão tenha deixado de ser um problema importante de saúde e bem-estar. Significa que sua evolução precisa ser analisada com maior precisão, evitando tratar sociedades profundamente diferentes como se estivessem vivendo exatamente o mesmo fenômeno.
O que o estudo ainda não consegue responder
Embora impressione pelo alcance, a pesquisa possui limitações importantes.
Os dados são transversais e os participantes entrevistados em 2023 não são necessariamente os mesmos de 2024. Por esse motivo, o estudo identifica associações, mas não consegue estabelecer relações diretas de causa e efeito.
Isso significa, por exemplo, que não é possível afirmar apenas com esses resultados que a solidão provoca pior saúde. A relação pode funcionar nas duas direções. Problemas de saúde podem aumentar o isolamento e dificultar a convivência social, enquanto a ausência prolongada de relações significativas pode contribuir para uma pior percepção de saúde e bem-estar.
Outra limitação está na forma de medir a solidão. Cada participante respondeu a uma única pergunta relacionada ao dia anterior.
A estratégia facilita comparações internacionais, mas não possui a profundidade de instrumentos multidimensionais, capazes de distinguir diferentes tipos e intensidades de solidão.
Como a pergunta se concentra em uma experiência recente, ela também pode captar situações passageiras. Uma pessoa que se sentiu solitária ontem não necessariamente vive um estado persistente de desconexão social.
Além disso, todas as informações foram autodeclaradas e a análise ficou limitada às variáveis disponíveis no Gallup World Poll.
Ainda assim, a dimensão global da pesquisa oferece uma oportunidade rara de observar como a solidão se relaciona com fatores econômicos, sociais e culturais em diferentes partes do mundo.
Felicidade também é construída nos vínculos
Talvez uma das mensagens mais relevantes desse amplo retrato mundial seja justamente a impossibilidade de separar bem-estar individual do ambiente social em que vivemos.
Podemos desenvolver autonomia, aprender a apreciar nossa própria companhia e cultivar momentos de introspecção. Tudo isso faz parte de uma vida equilibrada. Mas seres humanos também precisam de pertencimento, confiança, afeto e reciprocidade.
A ciência da felicidade tem mostrado que uma vida satisfatória não é construída exclusivamente pela busca de prazer ou pela acumulação de conquistas. Saúde, segurança e condições materiais importam, mas relacionamentos de qualidade ocupam um espaço que nenhum deles consegue preencher sozinho.
Nesse sentido, enfrentar a solidão não significa apenas aumentar o número de interações sociais. Significa criar condições para que pessoas possam estabelecer vínculos verdadeiros, participar de comunidades, encontrar espaços de acolhimento e sentir que sua presença importa para alguém.
Em uma sociedade cada vez mais conectada tecnologicamente, esse talvez seja um dos paradoxos mais importantes do nosso tempo. Temos instrumentos inéditos para conversar com pessoas distantes, mas isso não garante intimidade, confiança ou pertencimento.
A felicidade, afinal, também acontece no encontro.
E talvez uma das perguntas mais importantes que os números deste estudo nos convidem a fazer seja bastante simples: além de quantas pessoas estão ao nosso redor, com quantas delas realmente podemos contar?
Postagem inspirada na notícia “Solidão é mais comum nos países pobres, mas pesa mais nos ricos, diz estudo”.





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