Preparar antes para cuidar melhor: a OMS treina países para fortalecer saúde mental em emergências

Com o aumento de crises humanitárias — conflitos, desastres e emergências de saúde — a pressão sobre a saúde mental e o bem-estar psicossocial tem crescido de forma significativa. Para enfrentar esse cenário, a Organização Mundial da Saúde vem ampliando uma estratégia bem pragmática: construir capacidade antes que o pior aconteça.

É essa a proposta do Build Better Before, iniciativa que combina workshops globais de formação com simulações de campo em grande escala, reunindo diferentes setores (governos, ONGs, agências da ONU e profissionais da linha de frente). A ideia é fortalecer a prontidão e a resposta em MHPSS — suporte de saúde mental e psicossocial — para que o cuidado não seja improvisado “no susto”, mas planejado como parte da preparação para emergências.

Um “treino real” que virou resultado rápido na Etiópia

A edição mais recente aconteceu na Etiópia, em maio de 2025, após encontros anteriores na Estônia, Tunísia e Türkiye. Com apoio da União Europeia, a OMS trabalhou em parceria com o governo etíope e o Africa CDC, reunindo participantes das seis regiões da OMS — cerca de 300 profissionais entre formuladores de políticas e respondentes humanitários.

O aspecto que chama atenção é a velocidade do impacto: cinco meses após o treinamento, a estrutura de preparação em MHPSS no país já teria se tornado mais robusta, com parceiros implementando ações como mapeamento de recursos e capacitação antes das emergências — algo descrito como incomum no passado.

No exemplo citado, a EngenderHealth levou conteúdos de MHPSS para escolas e comunidades, promoveu sessões do Self-Help Plus e, em parceria com a Addis Ababa Health Bureau, realizou atividades de autocuidado e manejo do estresse com centenas de profissionais de saúde. Já a Médecins du Monde Ethiopia integrou o Group Problem Management Plus à sua estratégia de preparação, buscando sair de respostas pontuais para um modelo mais organizado e “pronto para operar”.

O que muda quando MHPSS vira parte do plano — e não um “extra”

Relatos de outros países e organizações apontam benefícios semelhantes. A partir das experiências do Build Better Before, a equipe da Africa CDC vinculada a Serra Leoa descreveu a criação de mecanismos de coordenação e avaliação de prontidão nacional. A Malteser International relatou a formação de um grupo dedicado a MHPSS, discussões mensais de casos e integração do tema em respostas de prevenção e controle de infecções.

Também participaram especialistas do roster interagências de MHPSS hospedado pela Netherlands Enterprise Agency, além de profissionais de países como Egito e Indonésia (incluindo experiências de atuação local em Java), reforçando um ponto em comum: simulação de cenário real ajuda a tomar decisões melhores sob pressão.

A World Psychiatry Association também esteve presente, defendendo que MHPSS não deveria ser um “bloco isolado” da resposta humanitária, mas algo embutido em toda a operação — da coordenação à supervisão, do fortalecimento comunitário ao cuidado clínico.

Continuidade e escala: do treino para a política pública

Após os encontros, a OMS mantém suporte técnico para ajudar organizações a incorporar MHPSS nos seus planos de prontidão. Entre exemplos citados estão: CBM Global, Médecins du Monde France, TPO Nepal, Plan International Ireland (com ações em Camarões e Egito) e o UNFPA (com revisão de cenário em Papua-Nova Guiné).

Um indicador apresentado — associado ao Mental Health Atlas 2024 — sugere avanço global na preparação em MHPSS: a proporção de Estados-membros com sistemas de prontidão teria subido de 28% (2020) para 48% (2025). E, diante da demanda, a próxima edição do Build Better Before foi planejada para dezembro de 2025.

Conclusão: resiliência coletiva também é bem-estar

Para o Instituto Movimento pela Felicidade, esse movimento tem um recado essencial: bem-estar não é só uma prática individual — é uma infraestrutura social. Em emergências, a saúde mental não pode entrar “depois que sobrar tempo”. Quando governos, serviços e comunidades se preparam com antecedência, o cuidado chega mais rápido, a recuperação é menos solitária e as pessoas ganham algo que sustenta a esperança: pertencimento, apoio e sentido mesmo em tempos difíceis.

postagem inspirada na notícia “Helping countries build resilient mental health systems before and during emergencies“.

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