Geração Z redescobre o valor do escritório e o que isso revela sobre bem-estar no trabalho
A conversa sobre trabalho remoto costuma vir carregada de certezas: flexibilidade é sinônimo de qualidade de vida, e as gerações mais jovens seriam naturalmente “time home office”. Mas uma pesquisa recente mostrou um movimento menos óbvio: entre pessoas com funções que permitem trabalhar à distância, a Geração Z é a menos propensa a preferir um modelo totalmente remoto. Em um levantamento da Gallup feito em 2025, 23% dos profissionais Gen Z disseram preferir trabalhar 100% de casa, enquanto nas gerações mais velhas esse número ficou em 35%.
O dado ganhou força ao ser contextualizado por relatos e análises que indicam dois motores principais para a mudança: a busca por conexão e a percepção de que estar fisicamente presente ainda pesa no desenvolvimento de carreira.
Quando flexibilidade vira isolamento
Um dos pontos mais chamativos é a solidão. Na mesma linha de análise, a Gallup aponta que 27% dos trabalhadores Gen Z disseram ter se sentido solitários “muitas vezes” no dia anterior, um patamar bem acima de gerações mais velhas.
Para além do número, o tema é familiar para quem observa saúde mental e cultura organizacional de perto. A ideia de bem-estar não se sustenta apenas com autonomia de agenda, ela precisa de vínculos, pertencimento e segurança psicológica. Em outras palavras, não basta “ter liberdade” se a rotina vira uma sequência de telas, silêncios e pouca troca humana. É nesse ponto que o escritório, para parte da Geração Z, reaparece menos como obrigação e mais como espaço de encontro, aprendizado social e construção de rede.
Crescer, ser visto, aprender mais rápido
O segundo motor é mais pragmático: carreira. Pesquisadores da Glassdoor têm chamado atenção para um efeito colateral do trabalho remoto e híbrido: quando empresas passam a favorecer, de forma explícita ou implícita, quem está mais presente, profissionais à distância podem sentir que estão “ficando para trás” em promoções e oportunidades.
Esse sentimento se traduz em histórias como a de uma profissional de 26 anos que trocou um emprego remoto por uma função com presença diária no escritório e descreveu ganhos em velocidade de aprendizado, colaboração e confiança de que poderá crescer mais rápido. Ao mesmo tempo, ela reconheceu o custo: deslocamento, menos tempo flexível e ajustes na rotina.
O ponto aqui não é romantizar o presencial, e sim perceber que, para quem está no início da trajetória, a “infraestrutura invisível” do trabalho (mentoria espontânea, conversas curtas, leitura de contexto, acesso informal a decisões) pode fazer diferença, especialmente quando ainda não existe uma rede sólida construída.
O híbrido segue como preferência, mas a cultura está mudando
Mesmo com essa reaproximação do escritório, o modelo totalmente presencial continua sendo o menos desejado, e o híbrido aparece como a escolha mais popular.
Ainda assim, sinais culturais mostram que o retorno ganhou estética e narrativa própria. Um exemplo citado no debate é a alta nas buscas por “decoração chique de baia/cubículo”, indicando que, para muita gente, o escritório voltou ao radar como um lugar onde se passa a viver parte do dia, não apenas “cumprir hora”.
O que o bem-estar no trabalho pode aprender com isso
Para o Instituto Movimento pela Felicidade e Bem-Estar, a discussão mais produtiva não é “remoto versus presencial”, mas quais condições favorecem uma experiência de trabalho mais humana, saudável e sustentável. O Instituto nasceu com o propósito de desenvolver e difundir a ciência da felicidade aplicada, especialmente em ambientes organizacionais, e isso inclui olhar para cultura, relações e saúde mental como pilares do desempenho, e não como bônus.
Quando jovens profissionais dizem que querem mais escritório por causa de solidão ou por sentirem falta de crescimento, eles estão, no fundo, pedindo duas coisas que toda organização deveria tratar como estratégicas: conexões de qualidade e caminhos claros de desenvolvimento. Esses temas dialogam diretamente com discussões como liderança com propósito, estilo de vida e saúde mental, e felicidade aplicada ao cotidiano das organizações.
No fim, talvez a pergunta não seja “onde trabalhar”, e sim “como trabalhar de um jeito que fortaleça vínculos, dê sentido e preserve energia emocional”. O modelo ideal tende a ser aquele que combina flexibilidade com comunidade, autonomia com apoio, e eficiência com pertencimento. Quando essa equação fecha, o trabalho deixa de ser apenas uma entrega e passa a ser também um ambiente onde a vida acontece com mais saúde.
Postagem inspirada na notícia “Why Gen Z wants more office work”.





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