Voluntariado com propósito pode favorecer bem-estar e envelhecimento saudável

Fazer trabalho voluntário na maturidade pode contribuir para um envelhecimento mais saudável, mas uma nova pesquisa sugere que os benefícios não dependem apenas da quantidade de horas dedicadas a essas atividades. A forma como o trabalho voluntário é organizado, o significado atribuído às tarefas, o apoio recebido e o reconhecimento pela contribuição também podem fazer diferença.

O estudo foi realizado em Hong Kong com 457 adultos com 60 anos ou mais, entre 2023 e 2024, e combinou análise quantitativa com sete grupos de discussão que reuniram outros 46 participantes.

Os pesquisadores propuseram um modelo para compreender de que maneira diferentes características do trabalho voluntário podem se relacionar com o bem-estar subjetivo e com aspectos cognitivos durante o envelhecimento.

Os resultados indicam que voluntariado não é uma experiência uniforme. Para produzir benefícios, importa não apenas participar, mas também encontrar sentido naquilo que se faz, sentir-se apoiado e perceber que a contribuição é reconhecida.

O que torna um trabalho voluntário significativo?

A pesquisa avaliou diferentes características das atividades realizadas pelos voluntários, entre elas variedade de habilidades exigidas, importância da tarefa, retorno sobre o trabalho realizado, apoio social e reconhecimento.

Dois fatores apresentaram associação direta com maior bem-estar subjetivo: o reconhecimento e o apoio social.

Em outras palavras, sentir que o trabalho realizado é valorizado e perceber a existência de relações de suporte dentro da atividade voluntária estiveram relacionados a uma experiência de vida mais positiva entre os participantes.

Esse resultado ajuda a compreender que o voluntariado não produz seus efeitos apenas porque ocupa o tempo ou mantém alguém ativo.

Existe uma dimensão emocional e relacional importante.

Quando uma pessoa percebe que sua contribuição é necessária, encontra espaço para utilizar suas capacidades e sente que outras pessoas reconhecem seu esforço, a atividade pode adquirir significado.

Essa percepção se aproxima da compreensão da felicidade defendida pelo Instituto Movimento pela Felicidade, que busca disseminar conhecimentos científicos capazes de contribuir para o bem-estar e a saúde mental em diferentes dimensões da vida.

Sentir-se parte da atividade importa

O estudo identificou ainda um caminho particularmente importante para o bem-estar: o envolvimento com o papel desempenhado.

Características como importância da tarefa, apoio social e reconhecimento influenciaram o bem-estar por meio desse engajamento.

Isso significa que não basta estar formalmente vinculado a uma atividade voluntária. Sentir-se verdadeiramente envolvido com aquilo que se faz parece ter um papel relevante.

Quando o voluntário percebe que possui uma função clara, compreende o impacto de sua contribuição e desenvolve vínculos com outras pessoas, a experiência deixa de ser apenas uma ocupação e pode se transformar em um espaço de participação e pertencimento.

Essa dimensão é particularmente relevante ao longo do envelhecimento.

A aposentadoria, mudanças familiares e transformações na rotina podem modificar papéis que durante décadas ajudaram a organizar a identidade de uma pessoa. Atividades voluntárias podem oferecer novos espaços de contribuição social, interação e construção de sentido.

Em Pessoas felizes fazem coisas incríveis, Benedito Nunes Rosa relaciona felicidade à construção cotidiana de significado, vínculos e propósito. A obra também destaca que uma vida plena não depende apenas de realizações materiais, mas das relações e experiências capazes de conectar as pessoas umas às outras.

Número de horas também pode ter importância

Os pesquisadores encontraram um segundo caminho relacionado ao envelhecimento saudável.

Enquanto o envolvimento com o papel desempenhado apareceu relacionado ao bem-estar subjetivo, a quantidade de horas dedicadas ao voluntariado ajudou a explicar algumas associações com aspectos cognitivos.

Características como variedade de habilidades, retorno sobre as atividades e reconhecimento estiveram ligadas à cognição por meio do tempo dedicado ao trabalho voluntário.

Isso sugere que determinadas experiências podem incentivar uma participação mais frequente e, indiretamente, contribuir para manter o indivíduo intelectualmente ativo.

Atividades que exigem diferentes competências podem estimular planejamento, resolução de problemas, comunicação, aprendizado e adaptação.

O estudo, no entanto, não encontrou uma relação direta entre as características do trabalho voluntário e a cognição. A relação observada ocorreu por meio da quantidade de participação.

Essa distinção é importante porque mostra que bem-estar emocional e saúde cognitiva podem ser favorecidos por caminhos diferentes.

Reconhecimento não é apenas elogio

Entre os resultados do estudo, o reconhecimento apareceu repetidamente como um elemento relevante.

Ele esteve diretamente relacionado ao bem-estar e também participou de associações envolvendo engajamento e quantidade de horas dedicadas ao voluntariado.

Reconhecer alguém significa comunicar que sua participação importa.

Isso pode acontecer de maneira institucional, por meio de agradecimentos, devolutivas ou valorização formal, mas também nas pequenas interações do cotidiano.

Quando alguém percebe que sua presença contribui para uma causa, uma organização ou outra pessoa, aumenta a possibilidade de enxergar sentido na atividade.

No contexto da felicidade, essa percepção se conecta ao sentimento de propósito e pertencimento.

Entre os temas trabalhados pelo programa Diálogos com a Felicidade, relações positivas e sentido ocupam espaço importante na construção do bem-estar. A proposta considera que qualidade dos vínculos, saúde mental e significado são dimensões relevantes para uma vida mais saudável e satisfatória.

Nem todos experimentam o voluntariado da mesma maneira

A pesquisa mostrou ainda que idade, gênero, escolaridade e renda modificavam algumas das relações observadas.

Isso significa que um mesmo modelo de atividade voluntária pode produzir experiências diferentes para pessoas com histórias, condições sociais e trajetórias distintas.

Os próprios relatos obtidos nos grupos de discussão ajudaram a ampliar essa compreensão.

Os participantes destacaram elementos como significado emocional das tarefas, crescimento proporcionado pela possibilidade de ajudar outras pessoas, sensação de participação ativa nas decisões, apoio social e reconhecimento por parte das organizações.

Esses achados reforçam que programas de voluntariado voltados a pessoas mais velhas podem se beneficiar de uma abordagem mais personalizada.

Em vez de apenas oferecer tarefas disponíveis, organizações podem pensar em como essas funções dialogam com habilidades, interesses, experiências anteriores e motivações pessoais.

Um professor aposentado pode encontrar propósito orientando estudantes. Uma pessoa com experiência administrativa pode contribuir organizando projetos. Alguém que gosta de conversar e acolher pode atuar diretamente com comunidades.

Quanto maior a possibilidade de alinhar atividade, competência e significado, mais rica pode se tornar a experiência.

Voluntariado como espaço de conexão

Existe ainda outro aspecto importante: as relações sociais.

Atividades voluntárias criam oportunidades para conhecer pessoas, trabalhar em equipe e participar de uma comunidade.

Para adultos mais velhos, esse contato pode representar uma importante forma de manter vínculos e reduzir situações de isolamento.

A ciência da felicidade tem mostrado repetidamente a relevância das relações humanas para o bem-estar. A própria proposta do Instituto Movimento pela Felicidade compreende felicidade e saúde mental como fenômenos ligados às diferentes dimensões da experiência humana, e não apenas como estados individuais.

Nesse sentido, o trabalho voluntário possui uma característica particular: ele combina relacionamento e contribuição.

A pessoa não está apenas convivendo com outras. Está colaborando com elas para produzir algo que considera relevante.

Essa união entre vínculo e propósito pode ajudar a explicar por que tantas pessoas encontram satisfação em atividades de caráter social.

Envelhecer também pode significar continuar contribuindo

O estudo possui algumas limitações.

Como a pesquisa foi transversal, ela identifica associações entre características do voluntariado, bem-estar e cognição, mas não permite concluir que uma variável necessariamente causou a outra.

Ainda assim, os resultados oferecem informações importantes para organizações e políticas voltadas ao envelhecimento saudável.

Promover voluntariado entre pessoas mais velhas talvez não deva significar simplesmente aumentar o número de participantes ou de horas trabalhadas.

Pode ser igualmente importante pensar na qualidade da experiência.

As tarefas possuem significado? As pessoas têm espaço para utilizar suas capacidades? Recebem retorno sobre sua contribuição? Encontram apoio? Sentem-se reconhecidas?

Essas perguntas transformam completamente a maneira de pensar um programa de voluntariado.

A longevidade não precisa ser compreendida apenas como a preservação da saúde física ou cognitiva. Pode também significar continuar participando, aprendendo, compartilhando experiências e percebendo que ainda existe muito a oferecer.

Sob a perspectiva da felicidade, talvez essa seja uma das dimensões mais valiosas de uma vida longa: saber que nossa presença continua produzindo impacto.

O voluntariado, quando estruturado com cuidado, pode oferecer justamente esse espaço. Um lugar onde experiência encontra propósito, relações ganham significado e o envelhecimento deixa de ser apenas uma passagem do tempo para continuar sendo uma trajetória de participação e contribuição.

Postagem inspirada na notícia “Meaningful voluntary work design and dual pathways for healthy aging (MVP-HA): a cross-sectional and mixed-methods study in Hong Kong”.

Redes sociais podem ajudar ou prejudicar o bem-estar, dependendo de como são usadas

Passar tempo nas redes sociais não produz necessariamente o mesmo efeito sobre todas as pessoas. Uma nova pesquisa com estudantes de enfermagem sugere que a finalidade do uso pode fazer uma diferença importante: recorrer às plataformas para estudar esteve associado a maior satisfação com a vida, enquanto utilizá-las principalmente para entretenimento apresentou relação mais forte com comportamentos de dependência e pior bem-estar.

O estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade Qassim, na Arábia Saudita, e da Universidade do Canal de Suez, no Egito, e publicado no The Open Nursing Journal.

A investigação partiu de uma questão cada vez mais relevante em uma rotina marcada pela hiperconectividade: afinal, o problema está simplesmente no tempo que passamos nas redes sociais ou na maneira como usamos esse tempo?

Os resultados apontam para a segunda hipótese.

Nem todo tempo de tela é igual

As redes sociais estão integradas à rotina universitária. Podem servir para acessar materiais de aula, discutir casos, colaborar em trabalhos, trocar informações com colegas ou se preparar para avaliações.

Mas também podem se transformar em uma sequência quase automática de vídeos, publicações, mensagens e conteúdos de entretenimento.

Embora essas atividades aconteçam dentro das mesmas plataformas, elas parecem produzir efeitos diferentes.

Os pesquisadores avaliaram 298 estudantes de graduação em enfermagem que realizavam estágio na Universidade Al-Razi, em Sanaa, no Iêmen. A coleta ocorreu entre abril e agosto de 2025. A idade média dos participantes era pouco superior a 21 anos.

Por meio de questionários validados, o estudo avaliou três formas de uso das redes sociais: acadêmico, social e voltado ao entretenimento. Também foram mensurados indicadores relacionados à dependência das plataformas e à satisfação geral com a vida.

A principal conclusão foi clara: o propósito importa.

Estudar pelas redes esteve associado a maior satisfação com a vida

O uso acadêmico das plataformas, relacionado a atividades como preparação para provas, trabalhos e aprendizagem entre colegas, apareceu associado a maior satisfação com a vida e menor risco de dependência.

O resultado oferece uma perspectiva interessante porque evita uma visão simplista segundo a qual toda utilização das redes sociais seria prejudicial.

A tecnologia pode funcionar como uma ferramenta.

Quando existe uma finalidade clara, ela pode facilitar acesso ao conhecimento, cooperação e comunicação. Em um curso como enfermagem, no qual estudantes lidam simultaneamente com exigências acadêmicas e atividades clínicas, encontrar meios eficientes de trocar informações e aprender em conjunto pode ser especialmente relevante.

Essa percepção se aproxima de uma ideia importante para a ciência da felicidade: não são apenas as circunstâncias que influenciam nosso bem-estar, mas também a maneira como construímos hábitos e fazemos escolhas dentro delas.

O Instituto Movimento pela Felicidade trabalha justamente com a proposta de desenvolver e disseminar conhecimentos sobre felicidade, bem-estar e saúde mental que possam ser aplicados de forma prática às atividades humanas.

Nesse sentido, a questão talvez não seja simplesmente abandonar a tecnologia, mas aprender a utilizá-la de forma mais consciente.

Entretenimento apresentou maior relação com dependência

A situação mudou quando os pesquisadores analisaram o uso voltado ao entretenimento.

Essa foi a modalidade que apareceu como o maior indicador de comportamento de dependência das redes sociais. De acordo com a análise estatística apresentada no estudo, sua associação com dependência foi mais de três vezes superior à observada no uso predominantemente social.

A própria dependência das redes esteve associada, de maneira independente, a menor satisfação com a vida.

Além disso, os pesquisadores observaram que parte do impacto produzido pelos diferentes tipos de uso acontecia justamente por meio dessa relação com o comportamento de dependência.

O efeito indireto negativo do entretenimento sobre a satisfação com a vida foi consideravelmente maior do que aquele identificado para o uso social. Já o uso acadêmico apresentou um efeito indireto positivo, embora mais modesto.

Esses resultados ajudam a compreender um fenômeno bastante cotidiano.

Existe uma diferença importante entre abrir uma plataforma sabendo o que buscamos e entrar nela sem uma finalidade definida, deixando que o fluxo contínuo de conteúdos determine quanto tempo permaneceremos conectados.

Em um caso, utilizamos a ferramenta.

No outro, existe o risco de a ferramenta começar a conduzir nosso comportamento.

Quando o hábito deixa de ser uma escolha consciente

A reflexão sobre felicidade e bem-estar passa necessariamente pela maneira como organizamos nossos hábitos.

Em Pessoas felizes fazem coisas incríveis, Benedito Nunes Rosa apresenta a felicidade como uma construção diária, influenciada por escolhas, comportamentos, relações e formas de interpretar a própria vida. O livro também chama atenção para o papel da tecnologia contemporânea, capaz de aproximar pessoas distantes, mas também de prejudicar a qualidade da presença entre aqueles que estão próximos.

Essa perspectiva ajuda a olhar para o estudo não como uma condenação das redes sociais, mas como um convite à percepção.

Por que estamos abrindo determinado aplicativo?

Existe uma atividade que queremos realizar ou estamos apenas reagindo ao impulso de verificar novidades?

O uso possui começo e fim definidos ou simplesmente continua?

Ao terminar, sentimos que aquela experiência acrescentou algo à nossa vida ou apenas consumiu nossa atenção?

São perguntas simples, mas relevantes em um contexto no qual o acesso às plataformas se tornou praticamente permanente.

Mais conexão não significa necessariamente mais bem-estar

O estudo também analisou o uso social das plataformas, ou seja, aquele voltado principalmente à comunicação e interação com outras pessoas.

Esse tipo de uso apresentou um efeito negativo indireto sobre a satisfação com a vida menor do que aquele observado no entretenimento, mas ainda relacionado à dependência das redes.

Isso não significa que conversar on-line seja necessariamente prejudicial.

As plataformas podem ser importantes para manter amizades, encontrar comunidades e preservar vínculos, especialmente quando existe distância física. Mas a qualidade da relação continua sendo um elemento essencial.

Entre os temas abordados pelo programa Diálogos com a Felicidade, as relações positivas aparecem como um componente importante da felicidade, da saúde e da longevidade.

A tecnologia pode apoiar esses vínculos, mas dificilmente substitui todas as dimensões de uma relação humana.

Uma conversa presencial envolve atenção, linguagem corporal, contato visual, silêncio, escuta e inúmeras informações emocionais que não cabem completamente em uma tela.

Por isso, o desafio não é apenas permanecer conectado, mas cultivar relações que efetivamente produzam pertencimento e apoio.

Universidades também podem ensinar bem-estar digital

Os autores defendem que instituições de ensino considerem programas voltados ao bem-estar digital.

Uma das possibilidades seria ajudar estudantes a reconhecer a diferença entre o uso acadêmico e o uso recreativo das plataformas, desenvolvendo maior consciência sobre seus próprios padrões de comportamento.

O estudo também menciona medidas como limitar o acesso não acadêmico durante períodos dedicados aos estudos e oferecer aconselhamento ou apoio entre colegas para estudantes que apresentem sinais de dependência.

No caso dos alunos de enfermagem, esse cuidado pode ser particularmente relevante.

A formação combina demandas acadêmicas, responsabilidades clínicas, contato com sofrimento humano e preparação para uma profissão que exige grande capacidade emocional. Quando uma rotina naturalmente exigente se soma ao uso compulsivo de plataformas digitais, o equilíbrio pode se tornar ainda mais difícil.

A saúde mental, portanto, não deveria aparecer apenas quando surge um problema grave.

Ela pode ser trabalhada preventivamente, inclusive por meio da educação sobre hábitos digitais.

Essa abordagem está alinhada à perspectiva do Instituto Movimento pela Felicidade, que trata a felicidade e o bem-estar como competências que podem ser compreendidas, desenvolvidas e aplicadas no cotidiano.

Usar tecnologia com propósito

Os próprios autores reconhecem limitações importantes no estudo.

A pesquisa foi realizada em uma única instituição, dependeu de respostas fornecidas pelos próprios participantes e utilizou um desenho transversal. Isso significa que os resultados identificam associações, mas não permitem afirmar de maneira definitiva que determinado tipo de uso das redes sociais seja a causa direta das mudanças na satisfação com a vida.

Novos estudos, acompanhando estudantes ao longo do tempo e envolvendo diferentes instituições, serão necessários para aprofundar essas conclusões.

Ainda assim, a pesquisa oferece uma ideia útil para o cotidiano: o impacto da tecnologia pode depender menos da simples pergunta “quanto tempo você passa nas redes?” e mais de outra questão, talvez mais importante: “o que você está fazendo enquanto está lá?”.

Usar uma plataforma para aprender, colaborar ou resolver uma necessidade concreta é diferente de permanecer durante horas em um fluxo infinito de estímulos.

A diferença está no propósito, na consciência e na capacidade de estabelecer limites.

A ciência da felicidade nos convida justamente a observar essas escolhas aparentemente pequenas que, repetidas todos os dias, começam a moldar nossa qualidade de vida.

As redes sociais provavelmente continuarão fazendo parte da rotina de estudantes, profissionais e famílias. O desafio não precisa ser eliminá-las, mas impedir que ocupem espaços que deveriam pertencer ao descanso, à concentração, às relações e à própria experiência de viver.

No ambiente digital, assim como em tantas outras dimensões da vida, bem-estar também pode significar saber quando entrar, por que permanecer e, principalmente, quando sair.

Postagem inspirada na notícia “Scrolling for study helps, scrolling for fun hurts: new research on nursing students’ social media use and wellbeing”.

Cinema, museus e concertos podem ajudar a envelhecer melhor, aponta estudo

Ir ao cinema, visitar um museu ou assistir a um concerto pode ser muito mais do que uma forma agradável de ocupar o tempo. Um novo estudo sugere que participar regularmente de atividades culturais pode estar associado a um envelhecimento biológico mais lento.

A pesquisa analisou dados de 1.899 adultos mais velhos no Reino Unido e encontrou uma relação entre maior envolvimento cultural e indicadores de envelhecimento mais saudável.

De acordo com os resultados, publicados no Journal of Epidemiology and Community Health, participantes que frequentavam cinemas, museus e outras atividades culturais com maior regularidade apresentavam, em média, uma idade biológica de 66,9 anos, cerca de três anos mais jovem do que a observada entre aqueles que participavam dessas experiências com menor frequência.

Os participantes que relataram envolvimento em atividades culturais ao menos duas vezes por mês foram justamente os que apresentaram a menor idade biológica média.

A descoberta reforça uma percepção cada vez mais presente nos estudos sobre longevidade: envelhecer bem não depende apenas da ausência de doenças. Também está relacionado à capacidade de permanecer socialmente conectado, intelectualmente estimulado e envolvido em experiências que proporcionem prazer, curiosidade e sentido.

Cultura também pode ser uma forma de cuidar da saúde

Quando pensamos em envelhecimento saudável, é comum que as primeiras recomendações estejam relacionadas à alimentação, à atividade física, ao sono e aos cuidados médicos.

Todos esses elementos continuam sendo fundamentais.

Mas os pesquisadores chamam atenção para outra dimensão que muitas vezes recebe menos destaque: as experiências significativas que mantêm as pessoas conectadas à sociedade e interessadas pelo mundo ao seu redor.

Yusuke Matsuyama, principal autor do estudo e professor associado do Instituto de Ciência de Tóquio, explicou que a pesquisa não investigou diretamente quais mecanismos produzem essa associação. Ainda assim, ele considera possível que relações sociais mais fortes e comportamentos saudáveis relacionados à participação em atividades culturais ajudem a explicar parte dos resultados.

Essa hipótese faz sentido quando observamos a própria natureza dessas experiências.

Ir a uma exposição, assistir a uma peça, visitar um museu ou acompanhar um concerto exige sair de casa, deslocar-se por diferentes ambientes e entrar em contato com outras pessoas.

Muitas vezes, essas atividades são realizadas com amigos, companheiros ou familiares. Mesmo quando alguém decide ir sozinho, ainda existem oportunidades de pequenas interações sociais, desde uma conversa informal até o simples sentimento de compartilhar um mesmo espaço e uma mesma experiência com outras pessoas.

E essa conexão importa.

Relações sociais também fazem parte da longevidade

O isolamento social tem sido associado a consequências importantes para a saúde e para o bem-estar. Por isso, qualquer atividade capaz de incentivar encontros e ampliar oportunidades de convivência pode exercer um papel relevante ao longo da vida.

Essa compreensão está profundamente alinhada aos estudos da ciência da felicidade.

O Instituto Movimento pela Felicidade trabalha justamente com a ideia de que felicidade, bem-estar e saúde mental devem ser compreendidos de maneira ampla, considerando diferentes dimensões da experiência humana e transformando conhecimento científico em práticas aplicáveis ao cotidiano.

Entre os temas abordados pelo programa Diálogos com a Felicidade, as relações positivas aparecem como um dos pilares fundamentais do bem-estar. A qualidade dos vínculos que estabelecemos ao longo da vida pode produzir impactos importantes sobre saúde, felicidade e longevidade.

Isso significa que uma ida ao cinema com amigos, uma visita a uma exposição com os filhos ou uma tarde em uma biblioteca pode reunir diferentes elementos associados a uma vida mais saudável: relacionamento, movimento, curiosidade, prazer e presença.

Não é necessariamente a atividade cultural isoladamente que faz toda a diferença, mas o conjunto de experiências que ela pode proporcionar.

Quando o cérebro continua encontrando novidades

Os benefícios potenciais das atividades culturais não se limitam às relações sociais.

Museus, filmes, exposições, peças teatrais e concertos também estimulam a mente.

Ao entrar em contato com uma obra artística, uma narrativa diferente ou uma nova perspectiva sobre determinado assunto, somos convidados a prestar atenção, interpretar, imaginar, recordar e formular opiniões.

Patrick Crane, especialista em gerontologia e professor da Michigan State University, destacou justamente essa característica. Segundo ele, atividades culturais desafiam o cérebro ao apresentar novas ideias e diferentes maneiras de enxergar o mundo.

De certa forma, o efeito se aproxima daquele buscado quando alguém lê, resolve desafios ou aprende algo novo para manter a mente ativa.

Esse tipo de estímulo cognitivo é particularmente importante durante o envelhecimento.

Continuar aprendendo, descobrindo e experimentando novidades pode ajudar a preservar o envolvimento intelectual e favorecer aquilo que a ciência chama de neuroplasticidade, a capacidade do cérebro de continuar se adaptando e formando novas conexões ao longo da vida.

Isso também ajuda a explicar por que envelhecimento saudável não deveria ser associado apenas à manutenção das capacidades físicas.

Manter a curiosidade pode ser igualmente importante.

Envelhecer bem também é continuar participando da vida

Robert Mankowski, professor de medicina da Universidade do Alabama em Birmingham, observa que o envelhecimento saudável possui diferentes dimensões.

Segundo ele, medicamentos e exercícios físicos costumam receber grande parte da atenção, mas atividades prazerosas e significativas, capazes de manter as pessoas social e mentalmente envolvidas, também podem exercer um papel importante.

Isso não significa substituir alimentação equilibrada, atividade física, sono adequado ou outros hábitos de saúde por uma sessão de cinema.

A questão é integrar essas experiências.

Uma rotina favorável à longevidade pode incluir tanto uma caminhada quanto uma exposição. Tanto uma alimentação saudável quanto uma conversa depois do teatro. Tanto uma boa noite de sono quanto a descoberta de um novo livro.

Em Pessoas felizes fazem coisas incríveis, Benedito Nunes Rosa apresenta a felicidade justamente como uma construção que se estabelece por meio de escolhas, hábitos, relações e experiências capazes de oferecer mais significado à vida.

Essa perspectiva ajuda a compreender que longevidade não deveria significar apenas acrescentar anos à existência.

Importa também pensar na qualidade desses anos.

O valor de fazer aquilo que nos dá prazer

O estudo britânico possui uma limitação importante: trata-se de uma pesquisa observacional.

Isso significa que os resultados mostram uma associação entre participação cultural e menor idade biológica, mas não comprovam que frequentar museus ou cinemas seja diretamente responsável por retardar o envelhecimento.

Ainda assim, as descobertas oferecem uma boa oportunidade para refletir sobre como organizamos nossa vida ao longo do tempo.

Não é necessário, inclusive, limitar essa reflexão às atividades culturais analisadas pela pesquisa.

O princípio pode ser mais amplo.

Participar de um grupo de caminhada, frequentar uma biblioteca, aprender artesanato, realizar trabalho voluntário, visitar novos lugares ou encontrar amigos para uma atividade ao ar livre também são formas de permanecer ativo, socialmente conectado e intelectualmente estimulado.

Crane observa que uma parte importante do envelhecimento saudável está justamente em continuar fazendo aquilo que desejamos, encontrar alegria nas experiências e permanecer aberto ao novo.

Essa combinação pode favorecer satisfação com a vida, estimulação cerebral e uma percepção maior de realização durante a longevidade.

Felicidade e longevidade caminham juntas

Talvez uma das mensagens mais interessantes da pesquisa esteja justamente em mostrar que práticas associadas ao envelhecimento saudável não precisam ser encaradas apenas como obrigações.

Algumas delas podem ser prazerosas.

Frequentar uma exposição que desperte curiosidade. Assistir a um filme que provoque reflexão. Descobrir uma nova música. Compartilhar uma experiência cultural com alguém querido.

Tudo isso pode representar muito mais do que lazer.

Pode ser uma maneira de continuar conectado às pessoas, às ideias e ao próprio mundo.

A felicidade, quando compreendida pela perspectiva científica, não está relacionada apenas a momentos de alegria intensa. Ela também se manifesta na qualidade das relações, no sentimento de pertencimento, na curiosidade, na autonomia e na possibilidade de encontrar sentido naquilo que fazemos.

Por isso, pensar em longevidade talvez exija uma mudança de perspectiva.

Em vez de perguntar apenas como viver por mais tempo, vale perguntar também como permanecer interessado, conectado e emocionalmente presente durante esses anos.

Se a resposta incluir mais cinema, museus, música, encontros, aprendizado e experiências compartilhadas, talvez tenhamos encontrado uma forma especialmente agradável de cuidar da nossa saúde.

Postagem inspirada na notícia “Going Out to Movies or Museums Twice a Month May Help You Age Slower, Study Shows”.

Mudança para o ensino médio pode afetar o bem-estar dos estudantes por mais de dois anos

A passagem do ensino fundamental para o ensino médio costuma ser tratada como uma etapa natural da vida escolar, marcada por novas disciplinas, professores, amizades e responsabilidades. Mas uma pesquisa realizada na Austrália sugere que essa transição pode ter consequências muito mais profundas sobre o bem-estar emocional dos estudantes do que se imaginava.

O estudo acompanhou mais de 20 mil alunos do estado da Austrália Meridional durante a mudança entre as duas etapas de ensino e identificou quedas em todos os aspectos de bem-estar avaliados. Felicidade, otimismo, perseverança, regulação emocional, engajamento cognitivo e satisfação com a vida diminuíram após a transição, enquanto sentimentos como tristeza e preocupação aumentaram.

Mais do que uma reação passageira aos primeiros meses em uma nova escola, os efeitos identificados pelos pesquisadores podem permanecer por mais de dois anos.

Os resultados reforçam uma questão cada vez mais importante para famílias, educadores e gestores públicos: cuidar da adaptação escolar não significa apenas ajudar o estudante a compreender uma nova rotina acadêmica. Significa também criar condições para que ele mantenha seus vínculos, sua segurança emocional e sua percepção de pertencimento durante uma fase de grandes transformações.

Não é apenas uma consequência da adolescência

Durante muito tempo, alterações de humor, redução da satisfação com a vida e dificuldades emocionais no início da adolescência foram frequentemente interpretadas como consequências naturais do desenvolvimento.

A nova pesquisa questiona essa explicação.

Publicada no Journal of Child Psychology and Psychiatry, a investigação analisou mais de 104 mil registros de bem-estar coletados entre 2019 e 2025 por meio de um levantamento realizado com estudantes da Austrália Meridional.

Uma característica do estudo permitiu aos pesquisadores separar, com maior precisão, os efeitos da idade daqueles provocados pela mudança de escola.

Em 2022, duas turmas iniciaram simultaneamente o ensino médio no estado australiano. Um grupo realizou a transição no equivalente ao 7º ano, enquanto outro começou no equivalente ao 8º ano. A comparação indicou que a queda no bem-estar ocorreu independentemente das mudanças de desenvolvimento normalmente associadas à adolescência.

Para Mason Zhou, pesquisador da Universidade de Adelaide e principal autor do estudo, os resultados colocam em dúvida a ideia de que o declínio do bem-estar seja simplesmente uma parte inevitável do crescimento.

Segundo ele, a mudança para uma nova escola exige que os estudantes se adaptem a ambientes desconhecidos, construam novos círculos sociais, atendam a expectativas acadêmicas mais elevadas e, muitas vezes, se afastem de amigos próximos e adultos que funcionavam como referências de segurança.

“Costuma-se presumir que a redução do bem-estar é simplesmente uma parte normal do crescimento, mas nossos resultados sugerem que a transição para o ensino médio desempenha um papel muito maior do que se entendia anteriormente”, afirmou Zhou.

O desafio de reconstruir o sentimento de pertencimento

A escola não é apenas um espaço de aprendizagem acadêmica. Para crianças e adolescentes, ela também é um dos ambientes mais importantes de formação de identidade, construção de relações e desenvolvimento emocional.

Quando um estudante muda de escola, não troca apenas de sala de aula.

Ele precisa compreender novas regras, criar vínculos com professores, identificar em quem pode confiar, encontrar seu lugar dentro dos grupos sociais e lidar com expectativas acadêmicas diferentes. Ao mesmo tempo, algumas das relações que davam estabilidade à rotina anterior podem ficar mais distantes.

Essa combinação ajuda a explicar por que o impacto sobre o bem-estar pode ser tão abrangente.

A pesquisa encontrou redução não somente nos indicadores relacionados à felicidade, mas também na perseverança, no envolvimento com a aprendizagem e na capacidade de regular emoções.

Isso revela como diferentes dimensões da vida de um estudante estão conectadas.

Uma pessoa que se sente insegura socialmente, por exemplo, pode ter mais dificuldade de concentração. Um estudante preocupado com sua capacidade de acompanhar as novas exigências pode começar a duvidar de suas competências. E alguém que ainda não encontrou seu espaço no novo ambiente pode experimentar uma diminuição significativa de pertencimento.

No campo da ciência da felicidade, a qualidade das relações ocupa papel central na compreensão do bem-estar humano. O próprio Instituto Movimento pela Felicidade dedica parte de seus estudos e atividades à importância das relações positivas e à criação de ambientes capazes de favorecer saúde mental, desenvolvimento e qualidade de vida.

Os temas trabalhados pelo programa Diálogos com a Felicidade também destacam que relações de qualidade exercem impacto sobre felicidade, saúde e longevidade, começando justamente nos ambientes mais próximos de convivência.

No contexto escolar, isso significa reconhecer que adaptação não depende somente de horários, disciplinas e desempenho. Depende também de acolhimento.

Algumas pessoas sentem o impacto de forma mais intensa

Os pesquisadores observaram ainda que determinados grupos apresentaram quedas maiores nos indicadores de bem-estar.

Entre eles estavam as meninas e os estudantes que viviam em regiões mais afastadas dos grandes centros urbanos.

O resultado chama atenção para a necessidade de evitar abordagens padronizadas de adaptação escolar. Embora todos possam enfrentar dificuldades durante a transição, algumas pessoas podem precisar de mais acompanhamento, oportunidades de integração ou suporte emocional.

Essa compreensão é importante porque nem sempre o sofrimento aparece de maneira evidente.

Um estudante pode continuar frequentando as aulas, realizando atividades e mantendo resultados acadêmicos razoáveis, enquanto enfrenta internamente preocupação, insegurança ou perda de satisfação com a própria vida.

Por isso, observar apenas desempenho ou comportamento pode não ser suficiente.

A ciência da felicidade amplia essa discussão ao propor uma visão mais abrangente do desenvolvimento humano. Felicidade e bem-estar não significam simplesmente estar alegre o tempo inteiro. Envolvem aspectos como qualidade das relações, saúde mental, capacidade de lidar com emoções, propósito, segurança e condições adequadas para que cada pessoa possa desenvolver seu potencial.

Em Pessoas felizes fazem coisas incríveis, Benedito Nunes Rosa apresenta a felicidade como uma construção cotidiana influenciada por hábitos, escolhas, relações e resiliência, ressaltando também que a conexão humana exerce papel relevante sobre nossa experiência de vida.

Uma semana de orientação não resolve uma transição de anos

Muitas escolas concentram suas iniciativas de adaptação nos primeiros dias ou semanas do novo ciclo.

São realizadas visitas às instalações, apresentações de professores, atividades de integração e explicações sobre regras e rotinas. Essas iniciativas são importantes, mas os resultados da pesquisa indicam que podem ser insuficientes.

A professora Dot Dumuid, também pesquisadora da Universidade de Adelaide, argumenta que o processo de transição precisa ser compreendido como algo muito mais longo.

“O apoio à transição não pode terminar depois da semana de orientação”, afirmou.

Segundo ela, para muitos estudantes, os desafios relacionados ao bem-estar não desaparecem após o primeiro trimestre ou mesmo depois do primeiro ano. Em alguns casos, as dificuldades podem permanecer por dois anos ou mais.

Essa constatação muda a forma como a transição escolar pode ser planejada.

Em vez de um conjunto de ações concentradas no início do período letivo, o acompanhamento poderia se transformar em um processo contínuo, capaz de observar mudanças emocionais e sociais durante os primeiros anos da nova etapa.

Também exige uma integração maior entre escola e família.

Professores podem perceber alterações no envolvimento acadêmico. Familiares podem notar mudanças de humor, isolamento ou preocupação. Os próprios estudantes podem indicar que não estão se sentindo integrados.

Quando essas informações são compartilhadas e interpretadas de maneira cuidadosa, aumentam as possibilidades de oferecer apoio antes que pequenas dificuldades se transformem em problemas persistentes.

Escola também pode ser território de felicidade

A discussão sobre bem-estar dos estudantes não significa transformar a escola em um ambiente sem frustrações, cobranças ou dificuldades.

Aprender envolve desafios. Crescer também.

A questão é oferecer recursos para que crianças e adolescentes possam enfrentar essas experiências sem perder referências importantes de segurança, pertencimento e confiança.

Nesse sentido, a felicidade aplicada à educação não pode ser compreendida como a busca por estudantes permanentemente alegres. Ela está muito mais relacionada à criação de ambientes em que as pessoas possam desenvolver suas competências, construir relações saudáveis, lidar melhor com as próprias emoções e encontrar espaço para participar da comunidade à qual pertencem.

É uma abordagem semelhante àquela defendida pelo Instituto Movimento pela Felicidade ao tratar a felicidade como uma ciência capaz de produzir conhecimentos úteis e aplicáveis ao cotidiano, com benefícios para o bem-estar e para a saúde mental.

A pesquisa australiana acrescenta uma informação importante a essa reflexão: determinados momentos de mudança merecem atenção especial.

A entrada no ensino médio é um deles.

Quando escolas, famílias e gestores compreendem que essa passagem representa também uma transição emocional e social, abre-se a possibilidade de substituir a expectativa de que o estudante simplesmente “se adapte” por uma atitude mais ativa de acompanhamento e acolhimento.

Porque educar não é apenas preparar alguém para a próxima prova, para o próximo ano escolar ou para uma futura profissão.

É também contribuir para que esse jovem encontre condições para crescer preservando sua saúde mental, suas relações e sua capacidade de construir uma vida com mais equilíbrio, significado e bem-estar.

Postagem inspirada na notícia “Student wellbeing drops after move to high school”.

Hiperconectados e solitários: por que continuamos presos às redes sociais mesmo quando elas nos fazem mal?

Nunca estivemos tão conectados. Mensagens chegam em segundos, amigos podem ser acompanhados a milhares de quilômetros de distância e praticamente qualquer informação cabe na tela de um celular. Ainda assim, em diferentes partes do mundo, cresce a preocupação com um fenômeno aparentemente contraditório: a solidão.

O tema ganhou tamanha dimensão que pesquisadores, profissionais de saúde e organizações passaram a falar em uma verdadeira epidemia de solidão. E ela não está necessariamente associada à ausência física de pessoas. Pode estar no transporte público lotado, em uma avenida movimentada ou até mesmo dentro de uma casa cheia. Basta observar quantas pessoas dividem o mesmo espaço enquanto permanecem completamente absorvidas por suas telas.

A questão talvez não seja mais simplesmente quantas pessoas estão ao nosso redor, mas a qualidade da conexão que estabelecemos com elas.

Quando conexão não significa vínculo

Na Austrália, onde se desenvolve a reflexão que inspira esta matéria, pesquisas acadêmicas vêm apontando uma vulnerabilidade particularmente elevada entre jovens. A princípio, isso pode parecer curioso. Seria natural imaginar que idosos, muitas vezes expostos à perda de companheiros, amigos e familiares ou à redução do convívio social, fossem o principal grupo sujeito à solidão.

Mas existe uma característica que ajuda a explicar o cenário entre os mais jovens: eles cresceram em um ambiente de hiperconectividade.

Para crianças, adolescentes e jovens adultos, aplicativos, jogos on-line, plataformas de vídeos e redes sociais não são apenas ferramentas acrescentadas à rotina. Em muitos casos, fazem parte da própria maneira pela qual aprenderam a conversar, formar grupos, buscar reconhecimento e construir uma identidade social.

O problema é que estar permanentemente disponível não significa necessariamente estar emocionalmente próximo de alguém.

É possível acumular centenas ou milhares de contatos digitais e, ainda assim, sentir falta de uma conversa longa, de um abraço, de uma caminhada acompanhada ou simplesmente da presença de alguém disposto a ouvir.

Essa distinção é especialmente importante quando observada sob a perspectiva da ciência da felicidade. Entre os temas trabalhados pelo Instituto Movimento pela Felicidade está justamente a compreensão de que felicidade, bem-estar e saúde mental dependem de diferentes dimensões da vida humana, e que o conhecimento científico pode ajudar a transformar essas descobertas em hábitos e escolhas concretas.

O efeito emocional da rolagem infinita

Há outro elemento importante nessa relação: a comparação.

As redes sociais oferecem uma sucessão aparentemente interminável de viagens extraordinárias, carreiras bem-sucedidas, famílias sorridentes, corpos idealizados, restaurantes interessantes e momentos memoráveis.

O problema é que frequentemente comparamos os bastidores da nossa própria vida com uma seleção cuidadosamente editada da vida dos outros.

Sabemos racionalmente que aquela imagem representa apenas um fragmento da realidade. Mesmo assim, emocionalmente, a comparação pode produzir efeitos bastante concretos.

Uma vida satisfatória pode parecer insuficiente quando colocada diante de dezenas de existências aparentemente extraordinárias. Uma carreira consistente pode parecer pequena diante da promoção de alguém. Um fim de semana tranquilo pode parecer entediante depois de alguns minutos observando viagens, festas e experiências espetaculares.

Pouco a pouco, a sensação de inadequação encontra espaço.

O livro Pessoas felizes fazem coisas incríveis, de Benedito Nunes Rosa, chama atenção justamente para essa armadilha ao abordar a influência das redes sociais sobre nossa percepção de felicidade. O autor observa como elas ampliam expectativas ao apresentarem versões filtradas da vida alheia, fazendo com que a felicidade pareça um troféu a ser conquistado.

Talvez seja por isso que uma atividade aparentemente tão simples quanto rolar uma tela seja capaz de deixar algumas pessoas emocionalmente exaustas, irritadas ou vazias.

Por que é tão difícil simplesmente sair?

Se uma determinada experiência nos faz sentir pior, seria razoável imaginar que bastaria interrompê-la.

Mas as redes sociais não funcionam apenas como meios de entretenimento. Elas concentram amizades, comunidades profissionais, informação, eventos, grupos de afinidade e até oportunidades de trabalho. Abandoná-las pode significar também abrir mão de espaços importantes de convivência.

Há ainda o conhecido medo de ficar de fora. A sensação de que alguma conversa, notícia, oportunidade ou acontecimento relevante poderá ocorrer justamente enquanto estivermos desconectados.

Esse mecanismo ajuda a explicar por que tantas pessoas reconhecem os efeitos negativos das plataformas e, ao mesmo tempo, continuam retornando a elas.

O debate torna-se ainda mais urgente quando envolve crianças e adolescentes. Ambientes digitais podem oferecer aprendizado, diversão e socialização, mas também podem transportar usuários jovens para comunidades, conteúdos e dinâmicas que ainda não possuem maturidade emocional suficiente para interpretar.

Nos casos mais graves, sistemas de recomendação e comunidades on-line podem ampliar comportamentos relacionados a transtornos alimentares, autolesão, violência e radicalização. A necessidade humana de pertencimento, quando encontra ambientes prejudiciais, pode acabar sendo direcionada para relações e grupos que aumentam o sofrimento em vez de reduzi-lo.

Felicidade também é relacionamento

Um dos pontos de maior convergência entre estudos sobre felicidade é a importância das relações humanas.

Esse princípio aparece entre os temas centrais do programa Diálogos com a Felicidade, especialmente na discussão sobre relações familiares positivas. A proposta parte do entendimento de que a qualidade dos vínculos exerce papel relevante na felicidade, na saúde e até na longevidade.

No livro de Benedito Nunes, essa ideia também aparece de maneira direta. Ao refletir sobre tecnologia e convivência, ele lembra que os dispositivos podem aproximar quem está longe, mas também afastar quem está perto, chegando a uma conclusão simples e poderosa: “nada substitui o encontro”.

Talvez esse seja um dos paradoxos fundamentais do nosso tempo.

Criamos tecnologias extraordinárias para reduzir distâncias, mas precisamos aprender a utilizá-las sem permitir que reduzam também a profundidade dos encontros.

Não se trata, portanto, de declarar guerra às telas.

A tecnologia permite encontrar pessoas com os mesmos interesses, manter relações à distância, criar comunidades, trabalhar, aprender e compartilhar experiências. A questão está na maneira como ela ocupa espaço dentro da vida.

Quando o ambiente digital substitui sistematicamente a conversa presencial, o contato visual, a atenção plena e os momentos de convivência, começamos a trocar conexão por acesso.

E são coisas diferentes.

A importância de recuperar espaços sem notificações

Existe algo profundamente humano na experiência de estar entre outras pessoas sem precisar necessariamente conversar com elas.

Uma biblioteca silenciosa. Um museu. Uma sala de teatro. Uma praça. Um parque. Uma livraria. Uma mesa compartilhada durante uma refeição.

Nesses ambientes, existe uma percepção de pertencimento difícil de reproduzir em uma timeline. São experiências em que dividimos o mesmo espaço, observamos o mundo ao redor e reconhecemos silenciosamente a presença de outras pessoas.

Há também valor em estar sozinho sem estar solitário.

Ler um livro, caminhar, ouvir música, brincar com um animal de estimação ou simplesmente permanecer alguns minutos sem receber estímulos digitais pode oferecer um tipo diferente de conexão: aquela que estabelecemos conosco mesmos.

O próprio livro Pessoas felizes fazem coisas incríveis diferencia a valorização da própria companhia do isolamento permanente. A solidão prolongada pode adoecer, enquanto vínculos, encontros e contatos mantidos ao longo da vida funcionam como importantes componentes do bem-estar.

Isso ajuda a entender por que desconectar-se por algum tempo pode representar, paradoxalmente, uma forma de reconexão.

Talvez precisemos de menos alcance e mais presença

A ciência da felicidade não propõe uma existência sem tecnologia, dificuldades ou emoções desagradáveis. O próprio Instituto Movimento pela Felicidade trabalha a felicidade como um campo de conhecimento que pode ser compreendido e aplicado às diferentes dimensões da vida humana, sempre associado ao bem-estar e à saúde mental.

Nesse contexto, uma reflexão importante emerge do debate sobre as redes sociais: quantidade de contatos não é sinônimo de qualidade dos vínculos.

Talvez não precisemos abandonar completamente o universo digital, mas reaprender a definir seus limites.

Trocar alguns minutos de rolagem infinita por uma conversa. Deixar o celular de lado durante uma refeição. Entrar em um museu sem preocupação em registrar cada ambiente. Ler sem alternar páginas e notificações. Caminhar observando as pessoas e a paisagem.

São pequenas decisões, mas a felicidade também se constrói assim.

No fim, o grande desafio de uma sociedade hiperconectada pode não ser aprender a alcançar mais pessoas. Pode ser reaprender a estar verdadeiramente presente diante de quem já está ao nosso lado.

Postagem inspirada na notícia “Lonely planet: why are we addicted to the social media scroll when it is so clearly harming us?”.

Dieta mediterrânea pode ajudar a proteger o bem-estar emocional depois dos 50 anos

Reconhecida por seus benefícios para o coração, para o metabolismo e para a longevidade, a dieta mediterrânea também pode estar associada a uma melhor saúde emocional entre pessoas com mais de 50 anos.

Um estudo realizado na Inglaterra identificou que participantes com maior adesão a esse padrão alimentar apresentavam níveis mais elevados de bem-estar psicológico positivo. Eles também demonstraram uma redução menos acentuada na saúde mental durante os primeiros meses da pandemia de Covid-19.

A descoberta amplia a compreensão de que a alimentação não influencia apenas indicadores físicos, como pressão arterial, glicemia ou colesterol. Aquilo que colocamos no prato também pode participar de processos relacionados ao humor, à disposição e à capacidade de enfrentar situações de estresse.

Um padrão alimentar associado à longevidade

A dieta mediterrânea é baseada principalmente em alimentos vegetais, como frutas, verduras, legumes, leguminosas, cereais integrais, castanhas e sementes. Também inclui peixes, azeite de oliva e quantidades moderadas de determinados laticínios.

Ao mesmo tempo, limita produtos ultraprocessados, bebidas açucaradas e carnes processadas, como bacon, salsichas e outros embutidos.

Esse padrão alimentar já foi relacionado, em diferentes pesquisas, a um menor risco de doenças cardiovasculares, diabetes, alguns tipos de câncer, inflamações crônicas e outras condições que podem comprometer a qualidade e a expectativa de vida.

A nova investigação sugere que os benefícios também podem alcançar o bem-estar psicológico, especialmente durante o envelhecimento.

Como a pesquisa foi realizada

Os pesquisadores utilizaram dados do English Longitudinal Study of Ageing, um estudo de acompanhamento que reúne informações de saúde de homens e mulheres residentes na Inglaterra.

Para essa análise, foram considerados 3.296 participantes com idades entre 50 e 90 anos. A média de idade era de 68 anos, e 54% das pessoas avaliadas eram mulheres.

As informações sobre alimentação foram coletadas em dois dias não consecutivos, entre 2018 e 2019. Os participantes relataram tudo o que haviam consumido nas 24 horas anteriores, permitindo que os pesquisadores calculassem o nível de proximidade de cada dieta com o modelo mediterrâneo.

Foram observados o consumo de frutas, vegetais, leguminosas, cereais, peixes, azeite, carnes, laticínios e bebidas alcoólicas. A partir dessas informações, os participantes foram divididos em grupos com menor, média ou maior adesão ao padrão alimentar.

O bem-estar psicológico foi avaliado em dois momentos. Um deles ocorreu durante os primeiros meses da pandemia de Covid-19, quando grande parte da população enfrentava isolamento, medo, mudanças de rotina e incertezas.

Também foram consideradas características como idade, prática de atividade física, tabagismo, presença de doenças crônicas, percepção sobre a própria saúde e sintomas depressivos.

Maior adesão, melhores resultados emocionais

A análise mostrou que as pessoas que seguiam mais de perto uma alimentação de estilo mediterrâneo apresentavam níveis mais elevados de bem-estar psicológico positivo.

Essa associação permaneceu mesmo depois de os pesquisadores considerarem diferenças sociais, demográficas, comportamentais e de saúde entre os participantes.

Em outras palavras, a relação não pareceu depender exclusivamente de fatores como exercício físico, tabagismo, doenças já existentes ou condição geral de saúde.

As pessoas com maior adesão a esse padrão alimentar também apresentaram uma queda menos intensa no bem-estar durante os primeiros meses da pandemia. Esse dado sugere que hábitos alimentares saudáveis podem integrar uma rede de proteção emocional em períodos de adversidade.

No entanto, o estudo não demonstra que a dieta mediterrânea, sozinha, previna ou trate a depressão. Por se tratar de uma pesquisa observacional, os resultados indicam uma associação, e não uma relação direta de causa e efeito.

Por que a alimentação pode influenciar a saúde mental

Os alimentos mais comuns na dieta mediterrânea oferecem fibras, antioxidantes, gorduras saudáveis, vitaminas, minerais e proteínas de boa qualidade.

Esses componentes participam de diferentes processos do organismo, incluindo o funcionamento cerebral, a regulação da inflamação e a produção de substâncias relacionadas ao humor.

Frutas, verduras, leguminosas e cereais integrais também fornecem fibras que ajudam a alimentar as bactérias benéficas do intestino. Já alimentos fermentados, como determinados tipos de queijo e iogurte, podem contribuir para a diversidade do microbioma intestinal.

O intestino participa de uma comunicação constante com o cérebro. Por essa razão, a saúde intestinal vem sendo estudada como um dos fatores que podem influenciar tanto o equilíbrio físico quanto o emocional.

Uma alimentação rica em produtos ultraprocessados, por outro lado, costuma conter maiores quantidades de açúcar, sódio, gorduras de baixa qualidade e aditivos, além de oferecer menos fibras e nutrientes importantes.

Não se trata de classificar alimentos isolados como responsáveis pela felicidade ou pela tristeza. O que parece fazer diferença é o padrão construído ao longo do tempo.

Alimentação saudável não significa rigidez

Uma das vantagens do modelo mediterrâneo é sua flexibilidade. Ele não depende de um cardápio único e pode ser adaptado às preferências individuais, à cultura alimentar e aos alimentos disponíveis em cada região.

Não é necessário reproduzir exatamente as refeições consumidas nos países banhados pelo Mar Mediterrâneo. O princípio central é priorizar alimentos naturais ou minimamente processados, variedade vegetal e fontes mais saudáveis de gordura e proteína.

No Brasil, esse padrão pode incluir feijão, lentilha, grão-de-bico, arroz integral, verduras, frutas, castanhas, peixes, azeite, ovos e preparações caseiras.

A adaptação é importante porque uma alimentação saudável precisa ser possível de manter. Mudanças extremas, restritivas ou desconectadas da realidade cotidiana tendem a produzir frustração e abandono.

Pequenas trocas podem iniciar a mudança

A incorporação desse estilo alimentar pode começar com substituições simples.

Uma bebida açucarada pode dar lugar à água em parte dos dias. Uma refeição baseada em carne vermelha pode ser substituída por peixe, frango ou uma preparação com leguminosas. Biscoitos e salgadinhos podem ser trocados, em algumas ocasiões, por frutas acompanhadas de castanhas.

Também é possível acrescentar mais vegetais às refeições já consumidas, sem reconstruir toda a rotina alimentar de uma só vez.

Essas mudanças graduais costumam ser mais sustentáveis do que regras rígidas. Elas permitem que o paladar e a organização da família se adaptem ao novo padrão.

O objetivo não deve ser alcançar uma alimentação perfeita, mas construir uma relação mais consciente com as escolhas diárias.

Um estilo de vida que vai além do prato

A tradição mediterrânea não se resume aos alimentos. Ela também envolve uma forma de viver que valoriza movimento, descanso, convivência e refeições realizadas com presença.

Pessoas que seguem esse estilo costumam associar uma alimentação equilibrada à prática de atividade física, à qualidade do sono e à administração do estresse.

Esses fatores se influenciam mutuamente. Dormir bem pode ajudar na regulação do apetite e na capacidade de enfrentar situações difíceis. A atividade física pode melhorar o humor e favorecer o descanso. Uma alimentação adequada pode oferecer energia para o movimento e apoiar diferentes funções do organismo.

Da mesma maneira, o convívio durante as refeições pode fortalecer vínculos e transformar o ato de comer em uma experiência de cuidado e pertencimento.

A mesa pode ser um espaço de encontro, conversa e transmissão de memórias. Quando isso acontece, a alimentação deixa de cumprir apenas uma função biológica e passa a integrar a dimensão afetiva da vida.

Envelhecer com saúde também envolve o bem-estar emocional

Depois dos 50 anos, as pessoas podem enfrentar mudanças familiares, profissionais e corporais. A aposentadoria, a saída dos filhos de casa, a perda de pessoas próximas, o surgimento de doenças crônicas e as transformações na própria identidade podem afetar a saúde mental.

Nesse contexto, hábitos de vida saudáveis funcionam como recursos importantes de proteção.

Uma alimentação equilibrada não elimina as dificuldades, mas pode contribuir para que o organismo esteja mais preparado para enfrentá-las. Quando combinada com atividade física, sono adequado, relações de confiança e acompanhamento profissional, ela passa a fazer parte de uma estratégia mais ampla de cuidado.

A pesquisa inglesa é particularmente relevante porque acompanhou os participantes durante o início da pandemia, um período de forte tensão coletiva. O menor declínio emocional observado entre pessoas com maior adesão ao padrão mediterrâneo sugere que os hábitos consolidados antes de uma crise podem ajudar a sustentar o bem-estar durante ela.

Limitações também precisam ser consideradas

Os próprios pesquisadores reconhecem que os resultados devem ser interpretados com cautela.

A população analisada era formada majoritariamente por pessoas brancas e mais velhas residentes na Inglaterra. Por isso, ainda não é possível afirmar que os mesmos resultados se repetiriam com a mesma intensidade em populações de outras origens e contextos sociais.

Durante a pandemia, parte da coleta de dados precisou ser realizada pela internet. Apenas aproximadamente metade dos participantes respondeu nessa etapa, o que pode ter reduzido a força das conclusões.

Além disso, a avaliação do bem-estar ocorreu entre junho e julho de 2020. Os autores observam que o sofrimento psicológico pode ter sido mais intenso em abril e maio daquele ano, durante a fase inicial das restrições.

Essas limitações não anulam os resultados, mas mostram a necessidade de novas pesquisas, com grupos mais diversos e acompanhamentos mais longos.

Alimentação, consciência e felicidade

A obra “Pessoas felizes fazem coisas incríveis”, de Benedito Nunes, apresenta a felicidade como uma construção diária relacionada aos hábitos, às escolhas, à saúde e à capacidade de cuidar de si e das próprias relações.

Sob essa perspectiva, alimentar-se bem não deve ser entendido apenas como uma forma de evitar doenças ou controlar o peso. É também uma expressão de autocuidado e responsabilidade com o futuro.

A felicidade não está contida em um alimento específico. Ela pode, porém, ser favorecida por um estilo de vida que ofereça mais energia, autonomia e condições para participar das experiências que dão sentido à existência.

Para o Instituto Movimento pela Felicidade e Bem-Estar, compreender a felicidade como uma competência humana significa transformar conhecimento em atitudes possíveis. A ciência oferece informações, mas são as escolhas cotidianas que aproximam esses benefícios da vida real.

Preparar uma refeição mais natural, compartilhar a mesa com alguém, experimentar um novo vegetal ou reduzir gradualmente o consumo de ultraprocessados são gestos aparentemente pequenos. Repetidos ao longo do tempo, eles podem contribuir para um envelhecimento mais saudável, consciente e emocionalmente equilibrado.

O estudo reforça uma mensagem essencial: corpo e mente não funcionam de maneira separada. Cuidar da alimentação é também cuidar das condições que sustentam nosso bem-estar, nossa disposição e nossa capacidade de viver com mais qualidade.

Postagem inspirada na notícia “The Mediterranean Diet May Have a Surprising Benefit for People Over 50, New Study Says”.

Cultura pode transformar as cidades em territórios de saúde e bem-estar

O reconhecimento de que a cultura pode contribuir para a saúde está crescendo em diferentes partes do mundo. Programas de prescrição social ganham espaço, iniciativas que aproximam arte e cuidado se multiplicam e gestores públicos começam a compreender museus, bibliotecas, centros culturais, apresentações artísticas e atividades comunitárias como parte da infraestrutura necessária ao bem-estar da população.

Apesar desse avanço, ainda existe uma questão fundamental: como transformar experiências isoladas em políticas permanentes, capazes de alcançar diferentes territórios e sobreviver às mudanças de governo, orçamento e prioridades administrativas?

Essa pergunta está no centro do Healing Arts World Cities Project, uma iniciativa desenvolvida pelo World Cities Culture Forum em parceria com o Jameel Arts & Health Lab. O projeto pretende compreender como cidades de diferentes regiões definem, medem e integram a cultura aos seus sistemas de saúde e bem-estar.

A primeira fase da pesquisa, intitulada “Culture and Wellbeing in Cities: A Narrative Review”, analisa abordagens já existentes e procura identificar as principais oportunidades para que o tema deixe de depender apenas de projetos experimentais e passe a integrar de maneira consistente o planejamento urbano.

Quando a cultura passa a fazer parte do cuidado

Durante muito tempo, as políticas culturais e as políticas de saúde foram tratadas como áreas separadas. A cultura era associada principalmente ao entretenimento, à preservação do patrimônio ou ao desenvolvimento artístico. A saúde, por sua vez, permanecia concentrada em hospitais, clínicas, medicamentos e atendimentos especializados.

Essa divisão começa a ser questionada à medida que cresce a compreensão de que a saúde humana também é influenciada por fatores sociais, emocionais e comunitários.

Participar de um coral, frequentar uma biblioteca, integrar uma oficina de pintura, assistir a uma apresentação ou envolver-se em uma atividade cultural coletiva pode favorecer a expressão emocional, reduzir o isolamento e criar oportunidades de convivência. Essas experiências não substituem tratamentos médicos, mas podem complementar o cuidado e fortalecer recursos pessoais e sociais importantes para o bem-estar.

A prescrição social é um dos exemplos mais conhecidos dessa aproximação. Por meio dela, profissionais encaminham pessoas para atividades comunitárias não médicas, que podem envolver arte, movimento, natureza, aprendizagem, cultura ou voluntariado.

A expansão desse modelo mostra que cuidar da saúde não significa apenas tratar doenças. Também envolve criar condições para que as pessoas estabeleçam vínculos, desenvolvam interesses, encontrem propósito e participem da vida coletiva.

O desafio de transformar projetos em políticas

Muitas cidades já possuem iniciativas que relacionam cultura e saúde. O problema é que parte delas permanece restrita a projetos locais, com duração limitada e alcance reduzido.

Uma oficina artística pode apresentar bons resultados em determinada comunidade, mas desaparecer quando o financiamento termina. Um museu pode desenvolver um programa voltado à saúde mental sem que essa experiência seja integrada à rede pública de cuidados. Uma parceria entre artistas e profissionais de saúde pode produzir aprendizados relevantes, mas não encontrar meios de influenciar decisões municipais mais amplas.

O Healing Arts World Cities Project procura investigar justamente o que impede essas ações de se tornarem parte permanente dos sistemas urbanos.

Para que exista uma mudança estrutural, não basta reconhecer que a cultura faz bem. É necessário incorporá-la aos instrumentos que orientam as decisões das cidades, como planos estratégicos, indicadores, orçamentos, modelos de avaliação e estruturas de governança.

Quando uma dimensão não aparece nesses mecanismos, ela corre o risco de permanecer invisível para quem define prioridades.

O que as cidades medem também revela o que valorizam

Um dos principais pontos observados pelo projeto é a ausência ou a presença limitada da cultura nos sistemas de indicadores utilizados pelas cidades.

Painéis de gestão urbana costumam acompanhar dados relacionados à economia, à segurança, ao transporte, à habitação e à saúde. Entretanto, a participação cultural e seus possíveis impactos sobre o bem-estar nem sempre são registrados.

Quando aparecem, os indicadores podem se limitar ao número de eventos realizados, visitantes recebidos ou equipamentos disponíveis. Embora esses dados sejam importantes, eles não mostram toda a dimensão da relação entre cultura e qualidade de vida.

É preciso também compreender quem participa, quais grupos permanecem excluídos, de que forma as atividades fortalecem vínculos e quais efeitos são percebidos na saúde emocional, no pertencimento e na vitalidade comunitária.

A maneira como a cultura é definida interfere diretamente naquilo que será medido. Se ela for compreendida apenas como o acesso a grandes instituições, muitas manifestações locais poderão ser ignoradas. Festas comunitárias, tradições populares, rodas de conversa, práticas artesanais e expressões culturais realizadas nos bairros também podem produzir conexão e bem-estar.

A pesquisa procura entender o que está sendo contabilizado, quais informações são relacionadas entre si e quais dimensões continuam ausentes dos sistemas de decisão.

Cultura, pertencimento e saúde mental

As cidades não são constituídas apenas por prédios, ruas e serviços. Elas também são formadas pelas relações que acontecem nesses espaços.

Uma praça onde pessoas se encontram, uma biblioteca que acolhe diferentes gerações ou um centro cultural que oferece atividades comunitárias pode funcionar como um lugar de pertencimento. Esses ambientes ajudam a reduzir a distância entre os moradores e criam oportunidades para experiências compartilhadas.

Em contextos marcados pela solidão, pela ansiedade e pelo enfraquecimento das relações, a cultura pode oferecer uma linguagem comum. Por meio dela, pessoas expressam sentimentos, compartilham histórias e reconhecem experiências semelhantes às suas.

A arte também pode criar espaços seguros para temas que nem sempre encontram lugar nas conversas cotidianas. Teatro, música, literatura, dança e artes visuais permitem abordar sofrimento, identidade, memória e esperança de maneiras sensíveis e acessíveis.

Esse potencial é especialmente relevante para a saúde mental. Ao participar de uma atividade cultural, a pessoa pode deixar de ocupar apenas o papel de paciente ou de alguém definido por suas dificuldades. Ela passa a ser também criadora, aprendiz, participante e integrante de uma comunidade.

Uma iniciativa construída entre cidades

O Healing Arts World Cities Project é liderado pelo World Cities Culture Forum e pelo Jameel Arts & Health Lab.

A parceria começou durante o World Cities Culture Summit de 2024, realizado em Dubai, após a primeira edição do Healing Arts Scotland. A colaboração continuou em encontros posteriores, incluindo o World Cities Culture Summit de 2025, em Amsterdã.

O trabalho reúne experiências de diferentes cidades para mapear como a relação entre cultura e bem-estar tem sido compreendida e aplicada. A equipe analisa métodos de medição, políticas públicas e formas de conectar dados culturais aos objetivos de saúde.

A intenção não é criar um modelo único para todos os lugares. Cada cidade possui características sociais, culturais, econômicas e institucionais próprias. O objetivo é identificar princípios, exemplos e aprendizados capazes de orientar políticas adaptadas a diferentes realidades.

As principais conclusões deverão ser apresentadas durante o 15º World Cities Culture Summit, programado para ocorrer em Tóquio, entre os dias 28 e 30 de outubro de 2026. Os resultados também servirão como ponto de partida para novas etapas de colaboração.

Um convite para cidades de diferentes portes

Os responsáveis pelo projeto estão buscando experiências de cidades grandes, médias e pequenas.

Podem contribuir municípios que tenham estratégias culturais relacionadas ao bem-estar, documentos de políticas públicas, modelos de avaliação, programas de prescrição social ou parcerias entre instituições culturais e serviços de saúde.

A diversidade de experiências é importante porque a inovação não acontece apenas nas grandes capitais. Cidades menores também podem desenvolver soluções relevantes, muitas vezes baseadas em proximidade, participação comunitária e conhecimento aprofundado do território.

Ao reunir esses casos, o projeto poderá compreender não apenas o que funciona, mas também em quais condições determinada iniciativa consegue alcançar resultados e permanecer ativa.

Felicidade também deve fazer parte do planejamento urbano

A discussão proposta pela pesquisa se aproxima de uma compreensão mais ampla da felicidade.

O bem-estar não depende exclusivamente das escolhas individuais. Ele também é influenciado pelos ambientes em que vivemos, pelas oportunidades de participação e pela qualidade das relações disponíveis em nossas comunidades.

Uma cidade que dificulta encontros, concentra equipamentos culturais ou não oferece espaços de convivência pode ampliar o isolamento. Por outro lado, uma cidade que valoriza a cultura, estimula a ocupação dos espaços públicos e facilita o acesso a atividades coletivas cria condições mais favoráveis ao pertencimento.

Para o Instituto Movimento pela Felicidade e Bem-Estar, a felicidade deve ser entendida como uma ciência aplicável às diferentes dimensões da vida. Isso inclui refletir sobre como organizações, comunidades e governos podem contribuir para ambientes mais saudáveis, cooperativos e significativos.

Nesse sentido, inserir a cultura nas políticas de saúde significa reconhecer que o cuidado também acontece fora das instituições médicas. Ele pode estar em um grupo de leitura, em uma apresentação musical, em uma oficina de artesanato ou em uma celebração que fortalece a identidade de um bairro.

A obra “Pessoas felizes fazem coisas incríveis”, de Benedito Nunes, apresenta a felicidade como uma construção alimentada por hábitos, escolhas, resiliência e relações. Quando essa compreensão é levada para a gestão das cidades, surge uma pergunta importante: que oportunidades os territórios oferecem para que seus moradores desenvolvam essas dimensões?

Da experiência individual à transformação coletiva

Uma atividade cultural pode mudar a tarde de uma pessoa. Uma política cultural integrada à saúde pode transformar a dinâmica de uma comunidade.

Essa diferença de escala está no centro do novo projeto. Os benefícios individuais da cultura já encontram reconhecimento crescente. O próximo passo é criar sistemas capazes de ampliar, sustentar e democratizar esses benefícios.

Isso exige cooperação entre secretarias, instituições culturais, profissionais de saúde, pesquisadores, artistas e moradores. Também exige indicadores que consigam traduzir experiências humanas sem reduzir sua complexidade.

O desafio não é apenas provar que cultura e arte fazem bem. É construir cidades nas quais esse potencial seja reconhecido, financiado e incorporado às decisões públicas.

Quando a cultura é tratada como parte do cuidado, ela deixa de ser vista como algo acessório. Passa a ocupar seu lugar como elemento de saúde, coesão social e qualidade de vida.

Em uma cidade comprometida com o bem-estar, o acesso à cultura não deve ser privilégio nem recompensa. Deve ser compreendido como uma oportunidade essencial de expressão, encontro e participação.

Ao integrar cultura, saúde e felicidade, as cidades podem se tornar mais do que espaços onde as pessoas moram e trabalham. Podem se transformar em territórios nos quais elas encontram sentido, constroem vínculos e desenvolvem condições para viver melhor.

Postagem inspirada na notícia “New Research Project: Can Cities Shift the Dial on Culture and Health?”.

Hobbies podem fortalecer a saúde, o propósito e a felicidade

Durante um dos períodos mais difíceis de sua vida, Amanda perdeu a mãe, o marido, o emprego e a sensação de normalidade que existia antes da pandemia. Em meio a tantas rupturas, recebeu o diagnóstico de transtorno depressivo maior.

Além da prescrição de um antidepressivo, uma profissional de saúde mental indicou uma alternativa menos convencional: participar de uma atividade comunitária que pudesse contribuir para o seu bem-estar. Amanda vivia perto do litoral de Devon, na Inglaterra, e já sentia curiosidade pela natação no mar. Ela havia lido sobre seus possíveis benefícios e observava mulheres que entravam na água durante todo o ano.

Foi então encaminhada para um curso de oito semanas que ensinava técnicas de natação, flutuação e respiração em águas abertas. O objetivo era ajudá-la a desenvolver habilidade, segurança e confiança.

Anos depois, Amanda continua recorrendo ao mar quando percebe que está estressada. Para ela, a experiência produz uma sensação de vitalidade e fortalece a confiança de que pode enfrentar os desafios. A atividade também ampliou sua rede de amizades e passou a representar um cuidado simultâneo com o corpo, a mente e as relações.

A história mostra como um hobby pode ocupar um lugar muito mais importante do que o de simples passatempo. Quando uma atividade envolve movimento, criatividade, natureza, convivência ou contribuição social, ela pode se transformar em uma fonte de saúde, sentido e pertencimento.

Quando uma atividade passa a fazer parte do cuidado

A indicação recebida por Amanda é conhecida como prescrição social. A prática consiste em encaminhar uma pessoa para atividades comunitárias não médicas, geralmente relacionadas ao exercício físico, às artes, à natureza, ao aprendizado ou ao voluntariado.

A proposta não substitui tratamentos médicos, psicológicos ou medicamentosos quando eles são necessários. Ela funciona como um complemento, reconhecendo que a saúde humana também é influenciada pelas relações, pelos ambientes, pela rotina e pela possibilidade de participar de experiências significativas.

A prescrição social é mais comum no Reino Unido, embora iniciativas semelhantes comecem a ganhar espaço em outros países. Em alguns programas, são oferecidos apoio financeiro, transporte ou acompanhamento para reduzir as barreiras que impedem as pessoas de participar.

Mesmo sem uma recomendação profissional, qualquer pessoa pode refletir sobre como uma atividade de lazer poderia contribuir para seu bem-estar. A escolha, entretanto, não precisa ser aleatória. Ela pode considerar o estado emocional atual, as necessidades pessoais, os interesses e o tipo de experiência que se deseja construir.

Escolha a partir de como você se sente

Uma das primeiras perguntas que podem orientar a escolha de um hobby é simples: como estou me sentindo agora e como gostaria de me sentir no futuro?

Quem se percebe cansado, desanimado ou com pouca energia pode se beneficiar de atividades que envolvam movimento. Caminhar, nadar, pedalar, dançar ou praticar um esporte são possibilidades que podem contribuir para o humor e para a disposição.

O exercício aeróbico está relacionado à liberação de substâncias associadas à sensação de prazer e bem-estar, como as endorfinas e a serotonina. Quando a atividade acontece ao ar livre, pode existir ainda o benefício adicional do contato com a natureza.

A permanência em ambientes naturais tem sido associada à redução do cortisol, um hormônio relacionado ao estresse. A natureza também pode favorecer a recuperação da atenção, especialmente para pessoas que se sentem mentalmente cansadas, distraídas ou sobrecarregadas.

Uma das explicações para esse efeito é a chamada teoria da restauração da atenção. De acordo com essa perspectiva, elementos naturais despertam uma forma suave de interesse. Eles capturam nossa atenção sem exigir o mesmo esforço mental necessário para cumprir tarefas, resolver problemas ou lidar com estímulos digitais.

Observar o movimento das árvores, o curso de um rio, as ondas ou o céu pode permitir que os recursos mentais utilizados durante o dia sejam gradualmente recuperados.

A criatividade pode abrir espaço para as emoções

Para quem enfrenta tristeza, solidão ou dor, atividades criativas também podem oferecer apoio.

Pintar, escrever, modelar argila, fotografar, cozinhar, costurar ou tocar um instrumento não servem apenas para produzir algo. Essas experiências podem ajudar a expressar emoções que nem sempre são facilmente comunicadas por palavras.

A criação artística também pode favorecer o estado de fluxo, uma condição de envolvimento profundo em que a pessoa concentra sua atenção na atividade e perde temporariamente a percepção do tempo. Nesses momentos, as preocupações podem ocupar menos espaço, enquanto a sensação de presença aumenta.

Programas comunitários baseados em arte têm observado melhorias no bem-estar e na percepção de capacidade pessoal, além de reduções na solidão. Outros estudos de pequena escala sugerem que pintar pode ajudar a diminuir a ansiedade e que atividades artísticas podem reduzir os níveis de cortisol após um período de prática.

Esses resultados não significam que a arte resolva isoladamente quadros de sofrimento emocional. Eles reforçam, porém, que a criatividade pode fazer parte de uma rede de cuidados, especialmente quando também proporciona convivência, expressão e a oportunidade de desenvolver novas habilidades.

O melhor hobby é aquele que faz sentido para você

Uma atividade só tende a permanecer na rotina quando existe alguma identificação genuína com ela.

Muitas vezes, as pessoas escolhem um hobby pensando apenas em uma recompensa externa. Começam a correr exclusivamente para perder peso, aprendem uma habilidade apenas para aumentar a produtividade ou entram em um curso porque acreditam que deveriam ocupar melhor o tempo.

Esses motivos podem funcionar durante algum período. No entanto, a continuidade costuma ser mais provável quando existe motivação intrínseca, ou seja, quando a própria experiência é agradável, interessante ou satisfatória.

Amanda não começou a nadar no mar porque alguém a repreendeu ou ordenou que praticasse exercícios. Ela já sentia curiosidade. A recomendação profissional ajudou a transformar esse interesse em uma experiência concreta e acessível.

Mesmo durante um período em que precisou se afastar da água por causa de uma cirurgia no quadril, ela imaginava a si mesma entre as ondas e ao lado das amigas. Essa lembrança contribuía para melhorar seu estado emocional. O mar havia se transformado em mais do que um local de exercício. Ele representava vínculo, identidade e esperança.

Para descobrir uma atividade com esse potencial, pode ser útil refletir sobre algumas experiências pessoais. O que você gostava de fazer antes de a rotina se tornar tão ocupada? Que assunto desperta sua curiosidade? Em quais atividades você se sente mais presente? O que gostaria de aprender mesmo que ninguém estivesse avaliando seu desempenho?

As respostas podem indicar caminhos mais coerentes com seus valores e interesses.

Lazer também é parte da saúde

Em uma rotina marcada por responsabilidades, o lazer costuma ser tratado como algo secundário. Ele aparece depois do trabalho, das tarefas domésticas, dos compromissos familiares e de todas as obrigações consideradas urgentes.

Com o tempo, muitas pessoas deixam de realizar atividades que antes produziam entusiasmo. O lazer passa a ser visto como um luxo ou até como uma forma de improdutividade.

Essa compreensão precisa ser revista. Atividades de lazer podem ter uma função importante na manutenção da saúde física e mental. Elas oferecem oportunidades de descanso, expressão, aprendizado, movimento e convivência.

O hobby também pode devolver à pessoa uma parte de sua identidade que não está ligada às funções profissionais ou familiares. Alguém pode ser gestor, mãe, pai, cuidador ou profissional de saúde, mas também pode ser jardineiro amador, músico, corredor, leitor ou artesão.

Essa diversidade de papéis amplia a percepção que temos de nós mesmos. Quando uma única área da vida enfrenta dificuldades, outras fontes de significado podem oferecer sustentação emocional.

Atenção plena ajuda a reconhecer o que nos envolve

Outra forma de descobrir um hobby é observar quais atividades capturam naturalmente nossa atenção.

A atenção plena pode ser compreendida como o exercício de perceber o que está acontecendo no momento presente. Em vez de agir sempre no piloto automático, a pessoa passa a notar sensações, pensamentos, detalhes e mudanças.

A psicóloga Ellen Langer, professora da Universidade Harvard, sugere começar observando três coisas novas em algo familiar, como uma pessoa, um lugar ou um objeto. Esse exercício simples ajuda a interromper respostas automáticas e estimula uma postura de curiosidade.

A prática pode ser especialmente útil para pessoas que convivem com estresse ou dor. Em momentos de sofrimento, existe uma tendência de acreditar que a sensação permanecerá igual ou continuará piorando. Ao prestar atenção às variações, a pessoa pode perceber que há períodos de maior ou menor intensidade.

A psicóloga especializada em dor Rachel Zoffness também destaca que a experiência dolorosa pode mudar conforme o direcionamento da atenção. Em alguns atendimentos, ela pergunta aos pacientes se conseguem lembrar de uma ocasião em que estavam tão envolvidos em uma atividade que, por alguns instantes, esqueceram a dor.

A resposta pode oferecer pistas importantes. Uma atividade capaz de absorver a atenção não elimina necessariamente o problema, mas pode ampliar a experiência da pessoa para além dele.

Resgate o que despertava alegria na infância

Quando alguém não consegue identificar o que lhe interessa, olhar para a infância pode ser um bom ponto de partida.

As crianças costumam brincar sem a obrigação de alcançar um resultado produtivo. Desenham, correm, inventam histórias, colecionam objetos, constroem brinquedos e exploram o ambiente por curiosidade.

Na vida adulta, muitas dessas experiências são abandonadas porque parecem pouco úteis. No entanto, elas podem revelar interesses que continuam presentes.

Talvez uma criança que gostava de criar personagens encontre satisfação no teatro ou na escrita. Quem passava horas construindo objetos pode se interessar por marcenaria, modelagem ou artesanato. Quem gostava de explorar quintais e parques talvez se identifique com jardinagem, trilhas ou observação de aves.

O objetivo não é reproduzir exatamente uma atividade da infância, mas recuperar a disposição para experimentar sem a exigência de fazer tudo perfeitamente.

Dizer “sim” pode abrir novos caminhos

Algumas pessoas sabem exatamente qual hobby gostariam de praticar. Outras precisam experimentar diferentes possibilidades até encontrar algo que faça sentido.

Nesse processo, dizer “sim” a uma nova atividade pode ser transformador. O convite pode vir na forma de uma oficina de culinária, um grupo de caminhada, uma aula de aquarela, um coral ou uma atividade comunitária.

É comum rejeitar experiências antes mesmo de conhecê-las. Alguém pode afirmar que não tem talento para pintar, que não gosta de cozinhar ou que não possui coordenação para dançar. No entanto, o objetivo de um hobby não precisa ser alcançar alto desempenho.

A atividade pode simplesmente oferecer prazer, presença e contato com outras pessoas.

Profissionais que conduzem oficinas criativas relatam que participantes inicialmente resistentes às vezes terminam a experiência encantados. A curiosidade abre espaço para descobrir capacidades e preferências que haviam permanecido desconhecidas.

É difícil permanecer curioso e excessivamente crítico ao mesmo tempo. Quando a atenção está voltada para a descoberta, a preocupação com o julgamento tende a diminuir.

Hobbies também criam conexão e pertencimento

Embora algumas atividades possam ser realizadas individualmente, muitos hobbies criam oportunidades de convivência.

Uma pessoa que entra em um grupo de corrida, canto, leitura ou jardinagem passa a encontrar regularmente outras pessoas com interesses semelhantes. As conversas surgem de forma mais natural porque já existe um assunto compartilhado.

Essa convivência pode ser especialmente importante em uma sociedade marcada pela solidão e pelo enfraquecimento dos vínculos comunitários. O hobby oferece um motivo para sair de casa, encontrar pessoas e participar de algo que possui continuidade.

Com o tempo, as relações podem se aprofundar. O grupo deixa de ser apenas o espaço da atividade e passa a funcionar como uma rede de apoio.

Foi o que aconteceu com Amanda. A natação no mar não contribuiu apenas para sua disposição física. Ela também trouxe amizades, confiança e a sensação de pertencer a uma comunidade.

Uma prática cotidiana de felicidade

A obra “Pessoas felizes fazem coisas incríveis”, de Benedito Nunes, apresenta a felicidade como uma construção diária, alimentada por hábitos, escolhas, relações e resiliência. Nessa perspectiva, os hobbies podem ser compreendidos como práticas simples capazes de criar condições favoráveis ao bem-estar.

Eles não prometem uma vida sem dificuldades. Também não substituem acompanhamento profissional quando existe sofrimento psicológico ou uma condição de saúde que exige tratamento.

Seu valor está em ampliar o repertório de experiências que sustentam a vida. Um hobby pode ajudar a movimentar o corpo, acalmar a mente, cultivar a criatividade, fortalecer relações e recuperar a sensação de propósito.

Para o Instituto Movimento pela Felicidade e Bem-Estar, a felicidade deve ser compreendida não como um privilégio ou uma emoção passageira, mas como uma competência que pode ser desenvolvida e aplicada nas diferentes dimensões da existência.

Escolher uma atividade significativa é uma maneira concreta de colocar essa ideia em prática. O primeiro passo pode ser pequeno: entrar em uma aula experimental, voltar a tocar um instrumento, caminhar em um parque ou reservar alguns minutos para desenhar.

O hobby mais benéfico não é necessariamente o mais popular, o mais produtivo ou o mais sofisticado. É aquele que desperta curiosidade, oferece presença e ajuda a pessoa a se reconectar consigo mesma, com os outros e com a vida.

Postagem inspirada na notícia “Hobbies can improve your health – here are four tips for choosing one”.

A felicidade não se persegue: ela nasce do propósito, do sentido e das conexões

A felicidade ocupa um lugar central entre os desejos humanos. Muitas pessoas organizam escolhas, relacionamentos e projetos profissionais imaginando que, ao alcançar determinadas metas, finalmente encontrarão uma sensação duradoura de plenitude.

A psicologia, entretanto, tem demonstrado que a felicidade raramente aparece quando é transformada em uma obrigação ou perseguida como um objetivo isolado. Em muitos casos, ela surge como consequência de uma vida construída com sentido, coerência e relações significativas.

Isso não significa que desejar ser feliz seja um problema. A dificuldade começa quando a pessoa passa a monitorar constantemente suas emoções, perguntando a todo momento se está suficientemente satisfeita, alegre ou realizada. Essa vigilância pode aumentar a percepção de que algo ainda está faltando.

Quanto mais a felicidade é tratada como um resultado que precisa ser alcançado imediatamente, maior pode ser a frustração diante dos dias comuns, das emoções desagradáveis e dos desafios inevitáveis da vida.

Quando a busca pela felicidade gera insatisfação

Concentrar toda a atenção na necessidade de sentir emoções positivas pode produzir o efeito contrário ao desejado. Ao comparar a realidade com uma imagem ideal de felicidade, a pessoa tende a perceber com mais intensidade aquilo que ainda não conquistou.

Esse comportamento também pode criar uma expectativa pouco realista de que uma vida feliz deve ser formada apenas por entusiasmo, prazer e tranquilidade. No entanto, a experiência humana inclui tristeza, medo, incerteza, frustração e cansaço.

Uma vida emocionalmente saudável não é aquela em que as emoções difíceis desaparecem. É aquela em que conseguimos compreender essas emoções, atravessar os períodos adversos e continuar fazendo escolhas alinhadas aos nossos valores.

A felicidade não precisa ser entendida como um estado permanente. Ela pode se manifestar em momentos, relações, aprendizados e experiências que, quando observados em conjunto, ajudam a construir uma percepção mais ampla de bem-estar.

O propósito oferece direção à vida

Entre os elementos mais associados a uma vida satisfatória está o propósito. Ter uma razão para levantar da cama, assumir responsabilidades e participar do mundo oferece direção, especialmente nos momentos em que o entusiasmo diminui.

O propósito não precisa estar ligado a uma missão grandiosa. Ele pode ser encontrado no cuidado com a família, no desejo de aprender, na dedicação a um projeto, no desenvolvimento de uma habilidade ou na contribuição para uma causa considerada importante.

Para algumas pessoas, o propósito está no trabalho. Para outras, aparece nas relações familiares, na espiritualidade, no serviço à comunidade, na criação artística ou na disposição para ajudar alguém.

O elemento essencial é perceber que nossas ações possuem alguma relevância e estão conectadas a valores que reconhecemos como verdadeiros.

Quando existe propósito, as dificuldades não desaparecem, mas podem adquirir outro significado. O esforço deixa de ser apenas um peso e passa a fazer parte de uma trajetória que possui direção.

Sentido não é o mesmo que prazer

A psicologia também diferencia uma vida voltada apenas para o prazer de uma vida orientada pelo significado.

As experiências prazerosas são importantes. Descansar, divertir-se, celebrar conquistas e viver momentos agradáveis contribuem para o equilíbrio emocional. No entanto, o prazer, sozinho, nem sempre é suficiente para sustentar uma sensação profunda de realização.

Muitas das experiências mais significativas exigem dedicação, disciplina e até algum desconforto. Cuidar de uma criança, estudar durante anos, apoiar uma pessoa em dificuldade ou trabalhar por uma transformação coletiva pode ser cansativo. Ainda assim, essas atividades podem produzir uma forte sensação de plenitude.

Isso acontece porque o significado está ligado à percepção de que fazemos parte de algo maior do que nossos interesses imediatos. Contribuir com o bem-estar de outras pessoas, preservar valores e participar de projetos relevantes amplia a maneira como compreendemos nossa própria existência.

Por esse motivo, uma fase difícil pode não ser feliz no sentido de produzir alegria constante, mas ainda assim pode se tornar uma etapa importante, transformadora e profundamente significativa.

As relações sustentam o bem-estar

Outro fator essencial para a felicidade é a qualidade das relações.

As pesquisas sobre bem-estar indicam que manter vínculos próximos e confiáveis está entre os aspectos que mais influenciam uma vida satisfatória. A quantidade de contatos é menos importante do que a presença de pessoas com quem podemos compartilhar dúvidas, conquistas, vulnerabilidades e dificuldades.

Ter alguém que escute com atenção, ofereça apoio e reconheça nossa existência fortalece a sensação de pertencimento. Da mesma forma, estar disponível para cuidar de outras pessoas também amplia nossa experiência de conexão.

Esses vínculos podem ser formados por familiares, amigos, colegas, vizinhos ou pessoas que participam de uma mesma comunidade. O mais importante é que exista reciprocidade, confiança e espaço para a autenticidade.

Em uma sociedade marcada pela pressa e pela comunicação superficial, cultivar relações profundas exige presença. É necessário reservar tempo para conversar, ouvir, acolher e compartilhar a vida cotidiana.

A felicidade, nesse sentido, não é apenas uma experiência individual. Ela também é relacional. Parte do nosso bem-estar depende da maneira como convivemos, cooperamos e construímos espaços seguros para nós e para os outros.

Uma vida feliz também inclui dias difíceis

A ideia de que a felicidade depende de estar sempre bem pode aumentar a culpa e a ansiedade. Quando uma pessoa acredita que deveria permanecer alegre o tempo inteiro, qualquer tristeza pode ser interpretada como um fracasso.

Mas emoções difíceis não anulam uma vida feliz. Elas fazem parte dela.

O luto revela a importância de um vínculo. A frustração pode mostrar que algo precisa mudar. O medo pode sinalizar a necessidade de proteção. A tristeza pode convidar ao recolhimento e à reflexão.

Aprender a reconhecer essas emoções sem permitir que elas definam toda a nossa identidade é uma competência importante para o bem-estar. Felicidade não é negar o sofrimento, mas desenvolver recursos para atravessá-lo com consciência, apoio e esperança.

Felicidade como consequência de uma vida coerente

A perspectiva apresentada pelos psicólogos reforça que a felicidade tende a aparecer quando construímos uma vida alinhada ao que valorizamos.

Isso envolve tomar decisões coerentes, cuidar da saúde, preservar relações, participar de projetos significativos e encontrar equilíbrio entre necessidades pessoais e responsabilidades coletivas.

Para o Instituto Movimento pela Felicidade e Bem-Estar, compreender a felicidade como uma competência humana significa reconhecer que ela pode ser desenvolvida. Não se trata de esperar que circunstâncias ideais apareçam, mas de cultivar práticas que ampliem a consciência, fortaleçam os vínculos e ajudem a dar sentido às experiências.

Como propõe a obra “Pessoas felizes fazem coisas incríveis”, a felicidade pode ser compreendida como uma construção diária, alimentada por hábitos, escolhas, resiliência e autoconhecimento. Ela não segue uma linha reta e tampouco depende exclusivamente de grandes conquistas.

Em muitos momentos, a felicidade aparece de maneira discreta: em uma conversa sincera, no cuidado oferecido a alguém, na sensação de contribuir, no aprendizado de algo novo ou na percepção de que nossa presença possui valor.

Talvez, portanto, a melhor maneira de encontrar a felicidade seja deixar de persegui-la como um prêmio. Quando direcionamos nossa atenção para o propósito, o significado e a qualidade das relações, criamos as condições para que ela se manifeste naturalmente.

A felicidade não precisa estar permanentemente diante dos nossos olhos para existir. Muitas vezes, ela caminha ao nosso lado enquanto cuidamos, aprendemos, cooperamos e construímos uma vida que faça sentido.

Postagem inspirada na notícia “Los psicólogos coinciden: la felicidad en las personas no aparece cuando se persigue, si no cuando se busca el propósito y la conexión”.

Torcer juntos pode ser um remédio social contra a solidão e a divisão

Em uma sociedade marcada pela polarização, pelo isolamento e pelo enfraquecimento dos vínculos comunitários, uma atividade popular e aparentemente simples pode ter um potencial social ainda pouco reconhecido: torcer por um time.

Pesquisadores da Harvard Kennedy School, nos Estados Unidos, estão investigando como a paixão compartilhada pelos esportes pode aproximar pessoas, reduzir barreiras políticas e culturais e fortalecer o sentimento de pertencimento. A proposta parte de uma constatação importante: embora o esporte movimente multidões e faça parte da identidade de milhões de pessoas, sua influência sobre as relações humanas ainda recebe pouca atenção da comunidade científica.

O professor Todd Rogers e a pesquisadora Audrey Feldman criaram a iniciativa Fandom and Social Connection, dedicada a estudar como as torcidas podem funcionar como uma espécie de infraestrutura social. Os primeiros resultados sugerem que acompanhar uma equipe não significa apenas observar partidas ou comemorar vitórias. Muitas vezes, significa construir memórias, manter tradições familiares, participar de rituais coletivos e encontrar assuntos em comum com pessoas que, em outros contextos, talvez nunca conversassem.

Uma identidade capaz de atravessar diferenças

Nos Estados Unidos, quase três em cada quatro pessoas afirmam acompanhar alguma equipe profissional. Para muitas delas, essa ligação representa uma parte importante de sua identidade. Em escala global, o futebol, sozinho, reúne mais da metade da população entre seus admiradores.

Apesar dessa dimensão, Rogers e Feldman observaram que os esportes aparecem muito pouco nas principais publicações acadêmicas das ciências sociais. Segundo o levantamento realizado pelos pesquisadores, apenas cerca de um em cada 800 artigos publicados nesses periódicos aborda o tema.

A ausência chama a atenção porque poucas instituições contemporâneas conseguem reunir públicos tão amplos e diversos. Clubes sociais, partidos políticos, associações comunitárias e organizações religiosas perderam parte de sua capacidade de mobilização ao longo das últimas décadas. As torcidas, por outro lado, continuam aproximando pessoas de diferentes origens, classes sociais, etnias, idades e posições políticas.

Para Rogers, essa capacidade transforma o esporte em uma verdadeira estrutura de conexão humana. Em suas palavras, trata-se de uma infraestrutura social em um mundo onde restam poucas instituições tão amplas, profundas e diversas.

Os dados políticos analisados pela equipe ajudam a entender esse argumento. Enquanto muitas representações estaduais no Congresso norte-americano são formadas exclusivamente por integrantes de um único partido, até mesmo as torcidas consideradas mais conservadoras ou mais progressistas mantêm uma composição politicamente variada.

Isso significa que, em um estádio, em um bar ou diante da televisão, pessoas com visões de mundo opostas podem celebrar o mesmo gol, lamentar a mesma derrota e dividir a expectativa pelo resultado seguinte.

A torcida como ponto de encontro

Em um dos experimentos, ainda em processo de revisão acadêmica, os pesquisadores apresentaram aos participantes pessoas fictícias com opiniões políticas e culturais completamente diferentes das suas. Em seguida, pediram que escolhessem qual delas deveria receber uma recompensa.

Quando os participantes descobriam que uma dessas pessoas torcia pelo mesmo time, a identificação esportiva influenciava a escolha mais do que semelhanças de origem regional, nível educacional, raça ou etnia. Apenas o compartilhamento de uma mesma religião apresentou força semelhante.

A descoberta revela como a torcida pode atuar como um elemento de reconhecimento mútuo. Mesmo quando existem divergências profundas, saber que alguém acompanha a mesma equipe cria uma referência comum, um espaço simbólico no qual a conversa pode começar.

Essa ligação costuma ser construída ao longo da vida. Muitas pessoas herdam de seus pais ou avós o amor por um clube. Outras adotam uma equipe por influência de amigos, colegas ou experiências marcantes. Independentemente da origem, continuar torcendo representa uma escolha renovada a cada temporada, inclusive quando os resultados são ruins e o time parece viver permanentemente em reconstrução.

Isso indica que a relação do torcedor com o esporte não depende apenas das vitórias. Ela também se sustenta nas conexões criadas ao redor das partidas. O jogo se transforma em uma ocasião para telefonar para os pais, encontrar amigos, conversar com colegas de trabalho ou compartilhar emoções com desconhecidos.

Um álbum de memórias compartilhadas

O pesquisador Daniel Wann, professor da Murray State University e um dos principais estudiosos da psicologia das torcidas, compara a paixão esportiva a um álbum de fotografias compartilhado.

Duas pessoas que acompanham a mesma equipe carregam lembranças semelhantes. Elas se recordam de onde estavam durante uma final, de como reagiram a uma derrota inesperada ou de quem estava ao seu lado em uma conquista histórica. Também sabem que, quando a próxima temporada começar, voltarão a experimentar expectativas parecidas.

Todd Rogers resume essa experiência dizendo que os corações dos torcedores estarão sincronizados. A afirmação não é apenas simbólica. Alguns estudos psicofisiológicos indicam que espectadores podem apresentar respostas cerebrais semelhantes diante dos momentos de tensão, alegria e frustração de uma partida.

O esporte, portanto, cria uma narrativa coletiva. Ele oferece acontecimentos recorrentes, personagens, símbolos, rituais e histórias que podem ser retomadas em qualquer conversa. Para quem enfrenta a solidão ou tem dificuldade de iniciar novas relações, esse repertório pode funcionar como uma porta de entrada para o convívio social.

Rivalidade não precisa significar hostilidade

Os pesquisadores também analisam a capacidade do esporte de estimular conversas entre torcedores de equipes rivais. Em muitos casos, a rivalidade não elimina o respeito. Pelo contrário, ela oferece um terreno conhecido para brincadeiras, provocações e debates.

Feldman, que estudou na Universidade de Notre Dame, conta que consegue assistir a uma partida ao lado de torcedores de Ohio State, mesmo considerando aquela equipe uma adversária. A discordância permanece, mas existe um interesse compartilhado pelo futebol americano.

Resultados preliminares obtidos com torcedores da liga inglesa de futebol apontam na mesma direção. Alguns participantes disseram preferir socializar com fãs de clubes rivais, como Manchester United ou Liverpool, a conversar com pessoas que não acompanham o esporte.

Essa constatação mostra que nem toda diferença precisa resultar em afastamento. Quando existe uma linguagem comum, a divergência pode ser vivida com mais leveza. A competição permanece dentro do jogo, enquanto a convivência encontra espaço fora dele.

Um possível recurso contra a solidão

A iniciativa também pretende transformar suas descobertas em ações práticas. Em parceria com uma equipe ligada ao Boston Red Sox, os pesquisadores estudam maneiras de incentivar conversas entre pessoas que ocupam lugares próximos nas arquibancadas.

Em outros experimentos, Rogers e Feldman conseguiram estimular parte dos participantes a assistir a uma partida acompanhada. Ao final da experiência, essas pessoas relataram sentir maior conexão social, e o efeito permaneceu por algumas semanas.

Os pesquisadores defendem que escolher uma equipe e acompanhar seus jogos pode funcionar como uma forma simples e acessível de ampliar as oportunidades de convivência. A proposta não significa que o esporte seja uma solução isolada para a solidão, a polarização ou os problemas de saúde mental. No entanto, ele pode fazer parte de um conjunto de experiências que devolvem às pessoas o sentimento de comunidade.

Pertencimento também produz bem-estar

A ciência da felicidade tem demonstrado que a qualidade das relações exerce uma influência decisiva sobre o bem-estar. Sentir-se parte de um grupo, compartilhar experiências e perceber que existem pessoas com quem podemos contar são necessidades humanas fundamentais.

Nesse sentido, a torcida pode ser compreendida como muito mais do que entretenimento. Ela oferece pertencimento, continuidade e identidade. Pode aproximar gerações, fortalecer amizades, preservar lembranças familiares e criar oportunidades de contato em ambientes nos quais as pessoas normalmente permaneceriam isoladas.

Isso não significa ignorar os problemas que também podem surgir no esporte, como violência, intolerância ou comportamentos excessivos. Significa reconhecer que, quando vivida de maneira saudável, respeitosa e equilibrada, a paixão por uma equipe pode ajudar a construir pontes.

Para o Instituto Movimento pela Felicidade e Bem-Estar, compreender a felicidade como uma competência humana significa também reconhecer a importância das relações e da cooperação. A felicidade não se limita a uma sensação individual. Ela se fortalece quando circula entre as pessoas, quando cria espaços de acolhimento e quando transforma diferenças em oportunidades de convivência.

Talvez o maior valor de uma torcida esteja justamente aí. Durante uma partida, desconhecidos cantam juntos, pessoas de opiniões opostas celebram o mesmo momento e famílias renovam histórias que atravessam gerações. O placar continua importante, mas os vínculos criados ao redor dele podem permanecer muito depois do apito final.

Em tempos de isolamento e divisão, redescobrir atividades capazes de nos reunir pode ser uma forma concreta de cuidar da saúde emocional e do tecido social. Afinal, a felicidade também nasce da sensação de que fazemos parte de algo maior do que nós mesmos.

Postagem inspirada na notícia “Kennedy School team says shared fandom has promise as undervalued social ‘medicine’ for division, isolation”.