Preparar antes para cuidar melhor: a OMS treina países para fortalecer saúde mental em emergências

Com o aumento de crises humanitárias — conflitos, desastres e emergências de saúde — a pressão sobre a saúde mental e o bem-estar psicossocial tem crescido de forma significativa. Para enfrentar esse cenário, a Organização Mundial da Saúde vem ampliando uma estratégia bem pragmática: construir capacidade antes que o pior aconteça.

É essa a proposta do Build Better Before, iniciativa que combina workshops globais de formação com simulações de campo em grande escala, reunindo diferentes setores (governos, ONGs, agências da ONU e profissionais da linha de frente). A ideia é fortalecer a prontidão e a resposta em MHPSS — suporte de saúde mental e psicossocial — para que o cuidado não seja improvisado “no susto”, mas planejado como parte da preparação para emergências.

Um “treino real” que virou resultado rápido na Etiópia

A edição mais recente aconteceu na Etiópia, em maio de 2025, após encontros anteriores na Estônia, Tunísia e Türkiye. Com apoio da União Europeia, a OMS trabalhou em parceria com o governo etíope e o Africa CDC, reunindo participantes das seis regiões da OMS — cerca de 300 profissionais entre formuladores de políticas e respondentes humanitários.

O aspecto que chama atenção é a velocidade do impacto: cinco meses após o treinamento, a estrutura de preparação em MHPSS no país já teria se tornado mais robusta, com parceiros implementando ações como mapeamento de recursos e capacitação antes das emergências — algo descrito como incomum no passado.

No exemplo citado, a EngenderHealth levou conteúdos de MHPSS para escolas e comunidades, promoveu sessões do Self-Help Plus e, em parceria com a Addis Ababa Health Bureau, realizou atividades de autocuidado e manejo do estresse com centenas de profissionais de saúde. Já a Médecins du Monde Ethiopia integrou o Group Problem Management Plus à sua estratégia de preparação, buscando sair de respostas pontuais para um modelo mais organizado e “pronto para operar”.

O que muda quando MHPSS vira parte do plano — e não um “extra”

Relatos de outros países e organizações apontam benefícios semelhantes. A partir das experiências do Build Better Before, a equipe da Africa CDC vinculada a Serra Leoa descreveu a criação de mecanismos de coordenação e avaliação de prontidão nacional. A Malteser International relatou a formação de um grupo dedicado a MHPSS, discussões mensais de casos e integração do tema em respostas de prevenção e controle de infecções.

Também participaram especialistas do roster interagências de MHPSS hospedado pela Netherlands Enterprise Agency, além de profissionais de países como Egito e Indonésia (incluindo experiências de atuação local em Java), reforçando um ponto em comum: simulação de cenário real ajuda a tomar decisões melhores sob pressão.

A World Psychiatry Association também esteve presente, defendendo que MHPSS não deveria ser um “bloco isolado” da resposta humanitária, mas algo embutido em toda a operação — da coordenação à supervisão, do fortalecimento comunitário ao cuidado clínico.

Continuidade e escala: do treino para a política pública

Após os encontros, a OMS mantém suporte técnico para ajudar organizações a incorporar MHPSS nos seus planos de prontidão. Entre exemplos citados estão: CBM Global, Médecins du Monde France, TPO Nepal, Plan International Ireland (com ações em Camarões e Egito) e o UNFPA (com revisão de cenário em Papua-Nova Guiné).

Um indicador apresentado — associado ao Mental Health Atlas 2024 — sugere avanço global na preparação em MHPSS: a proporção de Estados-membros com sistemas de prontidão teria subido de 28% (2020) para 48% (2025). E, diante da demanda, a próxima edição do Build Better Before foi planejada para dezembro de 2025.

Conclusão: resiliência coletiva também é bem-estar

Para o Instituto Movimento pela Felicidade, esse movimento tem um recado essencial: bem-estar não é só uma prática individual — é uma infraestrutura social. Em emergências, a saúde mental não pode entrar “depois que sobrar tempo”. Quando governos, serviços e comunidades se preparam com antecedência, o cuidado chega mais rápido, a recuperação é menos solitária e as pessoas ganham algo que sustenta a esperança: pertencimento, apoio e sentido mesmo em tempos difíceis.

postagem inspirada na notícia “Helping countries build resilient mental health systems before and during emergencies“.

Mais de 1 bilhão vivem com transtornos mentais, alerta nova atualização da OMS

Mais de 1 bilhão de pessoas em todo o mundo convivem com transtornos de saúde mental, segundo novos dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O diagnóstico vem acompanhado de um recado direto: os serviços precisam crescer com urgência, porque o custo humano e econômico de condições como ansiedade e depressão segue enorme — e, em muitos lugares, o cuidado ainda é insuficiente.

Os números integram dois relatórios recentes, World mental health today e Mental Health Atlas 2024, que mostram avanços pontuais (como mais países atualizando políticas) e, ao mesmo tempo, gargalos persistentes em financiamento, leis e acesso ao tratamento.

O peso da ansiedade e da depressão (e quem é mais impactado)

Os dados reforçam que transtornos mentais aparecem em todas as faixas etárias e níveis de renda, e estão entre os principais motivos de incapacidade prolongada. A prevalência pode variar por sexo, mas mulheres são desproporcionalmente afetadas, e ansiedade e depressão lideram entre os diagnósticos mais comuns.

Além do impacto na saúde, há o impacto na economia: o custo indireto — especialmente a perda de produtividade — é descrito como muito maior do que os gastos diretos em saúde. A OMS estima que depressão e ansiedade custem cerca de US$ 1 trilhão por ano à economia global.

Onde o sistema falha: investimento baixo e acesso desigual

O panorama do Mental Health Atlas 2024 destaca uma estagnação preocupante no investimento: o gasto governamental mediano com saúde mental permanece em 2% dos orçamentos de saúde, sem mudança desde 2017. A desigualdade é gritante: países de alta renda chegam a investir até US$ 65 por pessoa, enquanto países de baixa renda investem cerca de US$ 0,04.

Também falta gente para atender: a mediana global é de 13 trabalhadores de saúde mental por 100 mil habitantes, com escassez mais grave em países de baixa e média renda. E a transição para cuidados comunitários anda devagar — menos de 10% dos países teriam migrado totalmente para modelos comunitários, enquanto muitos ainda dependem fortemente de hospitais psiquiátricos.

O que avançou (e o que precisa acelerar)

Há sinais positivos: integração da saúde mental à atenção primária está avançando em parte dos países, e muitos relatam iniciativas de promoção (como programas em escolas e na primeira infância) e apoio psicossocial em emergências. Mas os relatórios indicam que a cobertura de serviços ainda é muito desigual, sobretudo em contextos de baixa renda.

Para o diretor-geral Tedros Adhanom Ghebreyesus, transformar serviços de saúde mental é um dos desafios mais urgentes de saúde pública — e investir nisso é investir em pessoas, comunidades e economias.

Por que isso é tema de felicidade e bem-estar

Na visão do Instituto Movimento pela Felicidade, saúde mental não é um “assunto à parte”: ela é base para vínculos, propósito, aprendizagem, produtividade saudável e qualidade de vida. Quando o cuidado não chega — ou chega tarde — o prejuízo se espalha pela família, pela escola, pelo trabalho e pela comunidade.

E isso tem tudo a ver com a agenda global: os relatórios foram publicados às vésperas do encontro de alto nível da Nações Unidas sobre doenças crônicas e promoção de saúde mental e bem-estar, realizado em Nova York em 25 de setembro de 2025.

No fim, o recado é simples e forte: não basta reconhecer a crise — é preciso escalar o cuidado com equidade, com financiamento, força de trabalho, proteção de direitos e serviços próximos da vida real das pessoas.

postagem inspirada na notícia “Over a billion people living with mental health conditions – services require urgent scale-up“.

A “face escondida” da meditação: quando a prática também pode trazer desconforto

A meditação ganhou status de ferramenta quase universal: serve para aliviar estresse, melhorar foco, apoiar produtividade e virar um “respiro” no meio do dia. Mas, à medida que ela entra com mais força em contextos clínicos e terapêuticos, cresce uma pergunta que a ciência precisa encarar com mais seriedade: além dos benefícios, quais são os possíveis efeitos indesejados?

É justamente esse o alerta levantado pelo psicólogo Nicholas Van Dam, da University of Melbourne: em muitas intervenções, a etapa inicial de mapear riscos — comum em qualquer tratamento — simplesmente não foi feita com o mesmo rigor em programas baseados em mindfulness.

O que pode dar “errado” (e por que isso importa)

Embora muita gente relate efeitos positivos, estudos vêm descrevendo que alguns praticantes passam por experiências desagradáveis, como aumento de ansiedade, episódios de pânico, lembranças intrusivas associadas a traumas e, em casos mais extremos, sensação de distanciamento de si ou do ambiente (despersonalização/dissociação).

Um ponto-chave é que a frequência desses relatos varia muito conforme a forma de perguntar. Em vez de depender só de relatos espontâneos (quando a pessoa precisa “lembrar” e nomear o que viveu), a equipe de Van Dam usou uma abordagem mais estruturada.

O estudo: amostra nacional e checklist detalhado

A pesquisa, publicada na Clinical Psychological Science, recrutou quase 900 adultos nos Estados Unidos, buscando representar o perfil de meditadores do país com base em dados do Centers for Disease Control and Prevention. Em vez de uma pergunta aberta, foi aplicado um checklist de 30 itens, no qual os participantes indicavam intensidade do efeito, se foi positivo ou negativo, e se atrapalhou o funcionamento no dia a dia.

O que os dados encontraram

Os números chamam atenção:

  • Quase 60% relataram ao menos um efeito da lista.

  • Cerca de 30% disseram ter vivido algo difícil ou angustiante.

  • 9% relataram prejuízo funcional (quando o efeito começa a atrapalhar a vida cotidiana).

O estudo também sugere alguns fatores associados a maior chance de experiências adversas: ter apresentado sofrimento psicológico recentemente (nos 30 dias anteriores) e participar de retiros intensivos, que costumam envolver muitas horas de prática e longos períodos de silêncio.

Van Dam reforça: isso não é para gerar pânico, e sim para melhorar o “consentimento informado” — isto é, as pessoas saberem previamente o que pode acontecer, como ocorre em outros tratamentos.

O olhar do Instituto Movimento pela Felicidade

Para o Instituto Movimento pela Felicidade, que tem como propósito desenvolver, sistematizar e irradiar a Ciência da Felicidade e sua aplicação nas atividades humanas, esse tipo de resultado é um lembrete de método: bem-estar não se sustenta em “modas”, mas em ciência, ética e utilidade prática.

Conclusão: consciência antes do “piloto automático”

O ponto central nãorto pode acontecer** e, em alguns casos, até faz parte de um processo de autoconhecimento. Mas quando o mal-estar começa a atrapalhar o funcionamento diário, isso merece atenção e orientação qualificada. Essa é uma forma responsável de promover bem-estar: com transparência, cuidado e escolhas informadas — do jeito que a ciência da felicidade pede.

postagem inspirada na notícia “Scientists uncover meditation’s hidden side effects“.

Davos 2026 e a pergunta que ficou no ar: como investir melhor em pessoas?

No encontro anual do World Economic Forum em Davos, em 2026, a geopolítica seguiu dominando as manchetes — mas, por baixo do barulho, uma conversa ganhou corpo: a sensação de “ruptura social”. Em diferentes painéis, líderes voltaram ao mesmo ponto: desigualdade, ansiedade coletiva, solidão e a transição acelerada da IA estão empurrando as pessoas para o centro do debate econômico.

O diagnóstico apareceu com força no relatório de riscos lançado antes do evento: a desigualdade foi apontada como o risco mais “interligado” de 2026 — ou seja, aquele que alimenta e amplifica vários outros. E, se a desigualdade é a faísca, a IA pode ser o vento: ganhos de produtividade concentrados em poucos setores, empresas ou países tendem a ampliar a polarização.

Foi nessa linha que Christine Lagarde alertou, na fala de encerramento, sobre o perigo de ignorar a distribuição de riqueza e o aprofundamento das disparidades. A frase é dura porque mexe numa ferida antiga: tratar “pessoas” apenas como custo no balanço — e não como o principal ativo que sustenta confiança, coesão e resiliência.

“Mostrem o dinheiro”… mas não só o dinheiro

O evento reconheceu o óbvio: investimento financeiro é necessário, especialmente em saúde, moradia, educação e requalificação profissional. Mas o recado mais interessante foi outro: antes de colocar mais recursos, é preciso revisar a lógica.

Em uma era de pós-pandemia, desinformação e tecnologia correndo mais rápido que as instituições, a discussão passou a incluir perguntas existenciais (e pouco comuns em fóruns econômicos): o que significa ser humano numa sociedade híbrida, em que decisões e interações são mediadas por máquinas?

Nesse ponto, Yuval Noah Harari foi direto ao dizer que ninguém tem experiência real em “construir uma sociedade híbrida humano-IA” — e defendeu humildade e mecanismos de autocorreção. A mensagem, traduzida para o mundo do trabalho, é simples: não basta “adotar IA”; é preciso desenhar transições que protejam dignidade, pertencimento e sentido.

Saúde: custo inevitável ou investimento inteligente?

A saúde apareceu como um dos campos mais claros onde a conta precisa ser refeita. Se, em média, ela consome perto de 10% do orçamento de países, o envelhecimento e a multimorbidade tornam o tema ainda mais sensível. Ao mesmo tempo, Davos trouxe um argumento pragmático: prevenção costuma dar retorno alto.

A discussão sobre doenças crônicas não transmissíveis foi emblemática: elas concentram a maior parte das mortes globais, mas os sistemas ainda reagem tarde, com tratamentos caros e pouco integrados. A proposta defendida por participantes foi sair do “remendo” e buscar ação coordenada. Mosa Moshabela, por exemplo, falou da necessidade de um modelo financeiro viável que premie prevenção, valores e incentivos corretos.

Um caso citado chamou atenção: Rwanda estaria usando IA para apoiar um plano de multiplicar a força de trabalho em saúde em poucos anos, como destacou Paula Ingabire. E, num mundo em que a ajuda internacional cai, Bill Gates argumentou que a tecnologia pode aumentar de forma desproporcional o efeito do financiamento — desde que aplicada com foco em impacto e equidade.

A ansiedade como sintoma social

Se a desigualdade foi descrita como risco estrutural, a ansiedade apareceu como clima emocional do nosso tempo. Florence Gaub fez uma leitura provocativa: nossa exposição a um fluxo quase ininterrupto de informação tende a inflar a sensação de catástrofe permanente — e, para lidar com isso, seria necessário mudar narrativas e reduzir incentivos que premiam medo e indignação.

Good Inside, na voz de Becky Kennedy, trouxe uma ideia mais “pé no chão”: o antídoto da ansiedade é a capacidade — a sensação de que consigo agir, aprender e resolver. Quando alguém se percebe competente, cresce a chance de orientar escolhas para bem-estar (e não apenas para sobrevivência).

E houve também o componente cultural: uma instalação da artista Marina Abramović sugeriu que existe uma demanda quase física por “quietude radical” — uma espécie de detox de estímulos, para recuperar atenção, presença e regulação emocional.

Confiança em queda e infância hiperconectada

Outro eixo forte foi o “déficit de confiança” — e o papel das redes sociais nisso, especialmente para crianças e adolescentes. A conversa passou por tempo excessivo online, empobrecimento de experiências “reais” e escalada de abuso digital. Rachel Botsman argumentou que uma vida muito mediada por telas reduz exposição a emoções necessárias ao amadurecimento social (como fricção, risco e negociação).

A escalada de danos foi reforçada por Safe Online, na fala de Marija Manojlovic, ao apontar como ainda se subestima o impacto do que acontece no ambiente digital. E, com a chegada de uma “geração IA”, surgiram preocupações novas: chatbots criando vínculos afetivos com crianças, intimidade artificial e a necessidade de segurança (e bem-estar) “por design”.

Educação ao longo da vida: do diploma para as capacidades

No debate sobre qualificação, apareceu um dado simbólico: em países da OECD, o investimento em educação é concentrado na infância e juventude; depois dos 25 anos, despenca. Só que, agora, a requalificação deixou de ser exceção — virou regra.

Ajay Banga, do World Bank, sintetizou a urgência ao comparar o volume de jovens chegando à vida adulta com a projeção de empregos criados: sem empregos de qualidade, não há “bônus demográfico”, há frustração acumulada.

A discussão sobre “destruição criativa” — conceito lembrado por Peter Howitt — voltou como alerta: transformações tecnológicas sempre criam vencedores e perdedores; se os ganhos ficarem concentrados, os perdedores tendem a bloquear o progresso. Por isso, Philippe Aghion defendeu que transições precisam ser guiadas por fairness: regras do jogo que protejam coesão social.


O olhar do Instituto Movimento pela Felicidade: pessoas no centro não é “soft”, é estratégia

Para o Instituto Movimento pela Felicidade e Bem-Estar, esse debate tem um ponto central: felicidade e bem-estar não são “adereços” do desenvolvimento — são infraestrutura humana. Quando uma organização (ou um país) enfraquece saúde mental, vínculos e confiança, ela fragiliza o próprio futuro econômico.

É por isso que temas como Felicidade e Ciência, Liderança com Propósito, ESG 2.0 na prática, Estilo de Vida e Saúde Mental, Relações Familiares Positivas e Espiritualidade e Sentido deixam de ser pautas paralelas e viram bússola para decisões de gestão e políticas públicas.

Na prática, “investir em pessoas” significa:

  • tratar saúde (inclusive mental) como prevenção e desempenho sustentável, não só como despesa;

  • formar capacidades (pensamento crítico, adaptação, resiliência), não apenas colecionar certificados;

  • desenhar tecnologia e ambientes digitais com segurança e bem-estar como requisitos, não como bônus;

  • reconstruir narrativas sociais: menos medo e cinismo, mais cooperação, pertencimento e sentido.

No fim, a pergunta que Kristalina Georgieva lançou — “o que as pessoas querem?” — deveria virar hábito de liderança. Porque, quando o trabalho, a tecnologia e a educação se reorganizam, não basta medir eficiência: é preciso medir humanidade.

Postagem inspirada na notícia “We asked leaders at Davos 2026, how can we better invest in people? Here’s what they said”.

Mindfulness em 5 minutos pode aumentar a ousadia nas decisões, sugere estudo

Uma nova pesquisa aceita para publicação na revista Scientific Reports (recebida em 29 de novembro de 2025 e aceita em 23 de janeiro de 2026) levanta um ponto curioso — e relevante — para quem pratica (ou recomenda) mindfulness: uma única sessão breve de meditação guiada pode aumentar a propensão a assumir riscos, ao menos em tarefas controladas de laboratório.

O estudo, assinado por Lucy B. G. Tan, Marius Golubickis e C. Neil Macrae, investigou justamente o que ainda era pouco testado de forma causal: o efeito de um “dose única” de mindfulness (5 minutos) sobre decisões envolvendo ganhos e perdas. Para isso, os autores rodaram dois experimentos com participantes de contextos culturais distintos: no Reino Unido, online, usando a tarefa do “balão” (BART); e em Singapura, presencialmente, com a tarefa da “bomba” (BRET). Em ambos os casos, o padrão se repetiu: quem fez a breve prática de mindfulness se arriscou mais do que os grupos de comparação (um controle ativo com instruções para “se envolver” nos próprios pensamentos e emoções, e um controle “neutro” com um quebra-cabeça tipo tangram).

O que significa “se arriscar mais” aqui?

Nas tarefas, a pessoa escolhe entre continuar tentando ganhar mais (com o risco de perder tudo) ou parar e garantir o que já acumulou.

  • BART (balão): cada “inflada” rende um pequeno ganho, mas o balão pode estourar e zerar o ganho daquela rodada.

  • BRET (bomba): a pessoa seleciona caixas que valem dinheiro, sabendo que uma delas contém a bomba que zera a rodada.

Ou seja: não é “risco” no sentido de atitudes perigosas do cotidiano, e sim risco como decisão sob incerteza/possível perda.

Por que mindfulness aumentaria o risco?

Aqui entra a parte mais interessante do artigo: os autores aplicaram modelagem computacional para entender qual engrenagem mental mudou. A explicação mais consistente foi uma redução da aversão à perda durante o processo decisório. Em termos simples: após a meditação breve, as perdas parecem “doer menos” na avaliação do cérebro, e isso torna mais provável continuar jogando/avançando na tarefa.

O próprio texto discute que isso pode soar paradoxal, já que muita literatura associa mindfulness à redução de impulsividade e de comportamentos arriscados. Mas os autores lembram que “risco” não é uma coisa só: depende do contexto, do tipo de tarefa e do que está em jogo. Em cenários repetidos de decisão (muitas rodadas), reduzir a carga emocional do medo de perder pode até ajudar a avaliar com mais frieza — o que, em certos casos, melhora desempenho.

A leitura do Instituto Movimento pela Felicidade

No Instituto Movimento pela Felicidade, a gente costuma reforçar que felicidade e bem-estar não são só “sentir-se bem” — são competências humanas que podem ser desenvolvidas com base em ciência e aplicadas no dia a dia, inclusive nas organizações.

Esse estudo conversa com um ponto essencial: técnicas de bem-estar não são mágicas nem “sempre para o mesmo lado”. Uma prática curta de mindfulness pode, dependendo do contexto, diminuir a reatividade à perda — e isso pode ser ótimo para criatividade, inovação e coragem de experimentar (algo muito ligado ao florescimento humano). Mas também pode aumentar a ousadia em decisões que pedem cautela, como escolhas financeiras, mudanças estratégicas, compras, negociações ou até atitudes no trânsito.

Em ambientes de trabalho, isso tem um recado prático: mindfulness é ferramenta — e ferramenta precisa de propósito, critério e ética. Nossa visão, alinhada à ideia de liderança com propósito e ambientes saudáveis, é que práticas de bem-estar devem caminhar junto com governança, segurança psicológica e responsabilidade.

Como transformar isso em bem-estar (e não em imprudência)

Um jeito “IMF” de aplicar o insight do estudo é usar mindfulness como pausa de clareza, mas não como “sinal verde” automático para agir:

  • Após uma prática breve, antes de decidir algo importante, faça um “check” consciente: o que eu ganho, o que eu perco, e qual é o impacto para mim e para os outros?

  • Separe coragem de pressa: mindfulness pode reduzir o medo de perder; por isso, vale adicionar um passo de análise (dados, cenário, segunda opinião).

  • Em equipe, combine “rituais” de decisão: meditar para baixar ruído emocional e depois usar critérios objetivos (risco, segurança, custo, impacto humano).

  • Em temas de segurança e prevenção, trate a calma como aliada da atenção — não como licença para “forçar a barra”. (Esse é um ponto que aparece muito quando falamos de cultura organizacional e bem-estar aplicado.)

Fechando a ideia

No fundo, a notícia nos ajuda a amadurecer a conversa sobre felicidade e bem-estar: estar presente e menos reativo não significa automaticamente ser mais conservador. Às vezes, significa ficar mais disposto a avançar — porque a mente está menos “capturada” pelo medo da perda. Quando essa ousadia vem acompanhada de consciência, propósito e responsabilidade, ela pode virar crescimento, inovação e saúde emocional; quando vem sozinha, pode virar apenas impulso bem vestido.

Postagem inspirada no artigo “Brief mindfulness meditation increases risk-taking behavior“.

Recorde de afastamentos por doença em 2025 acende alerta sobre saúde e bem-estar no trabalho

Um número grande demais para virar rotina

No Brasil, mais de 4,12 milhões de trabalhadores precisaram se afastar temporariamente das suas atividades em 2025 por motivos de saúde, segundo dados do Ministério da Previdência Social. O salto de 15% em relação a 2024 transforma o tema em algo maior do que estatística: é um retrato do quanto o trabalho, o corpo e a mente estão sendo pressionados ao mesmo tempo.

Quando um afastamento acontece, ele não interrompe apenas a produtividade. Ele mexe com renda, identidade, autoestima e com a sensação de segurança. E, na prática, também revela onde a prevenção falhou, seja na ergonomia, no ritmo de trabalho, no suporte emocional ou na qualidade das relações dentro das equipes.

Dor nas costas lidera e transtornos mentais avançam

Pelo terceiro ano seguido, dor nas costas foi o principal motivo de concessão do benefício por incapacidade temporária, com 237.113 concessões registradas. Logo atrás vieram lesões e desgastes dos discos intervertebrais, como hérnia de disco, com 208.727 casos, além de fraturas na perna e tornozelos, somando 179.743 afastamentos.

Chama atenção também o crescimento de afastamentos por questões de saúde mental. A ansiedade motivou 166.489 benefícios, e episódios depressivos resultaram em 126.608 concessões, ambos com alta em relação ao ano anterior. É um dado que reforça algo que muita gente percebe no dia a dia: o cansaço não é só físico, e nem sempre aparece de forma óbvia antes de derrubar a pessoa.

Diferenças entre homens e mulheres mostram que o problema não é único

Os números por gênero ajudam a entender que as causas não se distribuem de forma igual. Do total de benefícios concedidos, 2,10 milhões foram destinados a mulheres e 2,02 milhões a homens. Entre as mulheres, destacam-se dores na coluna e ansiedade, seguidas por lesões nos discos. Entre os homens, predominam fraturas nas pernas e tornozelos, dores nas costas e lesões nos discos.

Essas diferenças costumam refletir uma mistura de fatores: tipo de ocupação, carga física, exposição a riscos, além de camadas invisíveis como dupla jornada e estresse prolongado. Por isso, qualquer resposta séria precisa ir além de “cada um que cuide de si” e encarar o bem-estar como parte do desenho do trabalho.

O que é o benefício por incapacidade temporária e por que ele importa

O benefício por incapacidade temporária, conhecido por muito tempo como auxílio-doença, é pago pelo INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) a trabalhadores que ficam impedidos de exercer suas funções por um período devido a doença ou acidente, que pode ou não ter relação com o trabalho. Em geral, a lógica é proteger a renda quando o afastamento passa de 15 dias, desde que a incapacidade seja comprovada em avaliação médica.

Especialistas ouvidos na reportagem lembram que o valor não pode ser inferior ao salário mínimo e que, para solicitar, normalmente é necessário ter um tempo mínimo de contribuição, além de passar por perícia. O processo costuma envolver agendamento e apresentação de documentos, laudos e exames, com organização das informações no aplicativo Meu INSS. Como regras e exigências podem variar conforme o caso, vale sempre checar os canais oficiais e, se necessário, buscar orientação profissional.

Bem-estar não é “benefício”, é estratégia de saúde e de cultura

Esse recorde é um convite duro para repensar prioridades. O Instituto Movimento pela Felicidade e Bem-Estar nasceu justamente para apoiar a construção de ambientes de trabalho mais saudáveis, usando a felicidade como ferramenta de transformação da cultura organizacional, com mais propósito e valor, e não apenas com mais cobrança. Quando o cotidiano vira um teste de resistência, o corpo cobra na coluna e a mente cobra na ansiedade. Quando a cultura muda, o risco diminui antes de virar afastamento.

Isso passa por prevenção real, com gestão que respeite limites, liderança que não normalize a exaustão, conversas honestas sobre carga de trabalho e políticas que tratem saúde mental como parte do funcionamento da empresa, não como assunto particular e silencioso. Também passa por diagnóstico e melhoria contínua, algo que está no centro do Programa de Felicidade, Bem-Estar e Saúde Mental no Trabalho do Instituto, voltado para medir e aprimorar práticas de gestão que influenciam engajamento e resultados.

No fim, afastamentos são um sinal. Eles mostram onde a vida ficou pesada demais para ser sustentada. E, em tempos de tantas demandas, talvez a pergunta mais importante para organizações e profissionais seja simples: o trabalho está ajudando as pessoas a viver melhor ou apenas a aguentar mais um dia?

Postagem inspirada na notícia “Doenças causaram o afastamento de 4,1 mi de trabalhadores das suas funções em 2025“.

Jogos digitais e saúde social: por que a conversa precisa começar agora

O jogo não acontece só na tela

Jogar, hoje, é uma experiência cultural e social para milhões de pessoas. Videogames e outras formas de “brincar no digital” deixaram de ser apenas entretenimento individual e passaram a ocupar um lugar parecido com o de praças, clubes e comunidades, onde vínculos são criados, identidades são testadas e pertencimento é negociado. É por isso que o tema ganhou uma nova camada de urgência com o foco recente da Organização Mundial da Saúde (OMS) em saúde social, um campo que olha para conexão humana como determinante real de saúde, e não como detalhe da vida moderna.

A discussão é especialmente relevante porque o debate público sobre videogames costuma oscilar entre extremos. De um lado, a promessa de socialização, criatividade e aprendizado. Do outro, o medo de isolamento, vício e danos emocionais. O que a OMS coloca na mesa é um convite para trocar rótulos fáceis por perguntas melhores: em quais condições o jogo aproxima, apoia e protege? E quando ele amplia riscos, solidão ou sofrimento?

Conexão social como determinante de saúde

A proposta parte de um ponto importante: se queremos ambientes digitais mais saudáveis, precisamos entender com mais precisão como o jogo digital impacta diferentes dimensões de saúde e bem-estar, incluindo aspectos físicos, mentais, cognitivos e, principalmente, sociais. Nesse contexto, a própria OMS reconhece que a evidência científica ainda é limitada e, muitas vezes, contraditória. Há sinais de benefícios, há sinais de riscos, e há um grande “depende” no meio, relacionado a fatores como idade, contexto familiar, tipo de jogo, tempo de exposição, relações dentro do jogo e qualidade do suporte fora dele.

O tema também se conecta a outras frentes já em andamento, como a investigação de uma comissão da The Lancet sobre uso problemático da internet e a inclusão do transtorno por jogos digitais na classificação internacional de doenças. A mensagem implícita é clara: não dá para tratar o universo gamer como um fenômeno pequeno ou passageiro. É uma das maiores comunidades digitais do planeta e tende a crescer ainda mais, com novas camadas como realidade virtual e sistemas de inteligência artificial tornando tudo mais complexo.

Um webinar para abrir caminhos, não para encerrar debates

É nesse espírito que a unidade de Tecnologias de Fronteira e IA da OMS, com apoio do time de conexão social, está organizando um webinar com uma proposta pouco comum: não é um debate para vencer argumentos, nem uma apresentação para concluir verdades definitivas. É uma conversa aberta para ouvir e aprender, reunindo perspectivas diferentes sobre como construir ambientes digitais que favoreçam saúde e bem-estar.

A intenção é mapear o que já se sabe sobre conexão social no mundo digital, situar a saúde social ao lado de outras dimensões igualmente importantes e refletir sobre implicações de saúde pública. Isso inclui desde sedentarismo e atividade física até saúde mental, desenvolvimento de problemas relacionados ao jogo e o papel dos interesses comerciais na forma como essas plataformas e produtos são desenhados para prender atenção e estimular consumo.

O que ainda falta entender e por que isso importa

O ponto mais honesto do texto é admitir que a ciência ainda não tem respostas simples. E isso não é fraqueza; é responsabilidade. Quando as evidências são mistas, a pior saída é decidir no impulso, seja para demonizar tudo, seja para romantizar tudo. A melhor saída é construir perguntas orientadas pela vida real: que tipo de interação acontece nesses espaços? Há apoio e amizade, ou humilhação e exclusão? O jogo vira refúgio saudável, ou substitui completamente relações e necessidades básicas? Os limites são claros, ou o design é feito para empurrar “só mais uma partida” indefinidamente?

Esse tipo de investigação também ajuda famílias, escolas, profissionais de saúde e empresas a saírem do improviso. Em vez de regras genéricas, abre-se espaço para estratégias de prevenção mais inteligentes, combinando educação digital, rotinas de descanso, práticas de autocuidado e ambientes online com mais segurança, moderação e responsabilidade.

Felicidade, pertencimento e o desafio de “ser humano” no digital

Do ponto de vista do Instituto Movimento pela Felicidade e Bem-Estar, a discussão toca num dos pilares mais sensíveis da felicidade: vínculos. Conexão social não é luxo, é necessidade. E, numa geração que vive parte importante da vida em ambientes digitais, o caminho não é simplesmente tirar o digital da frente, mas aprender a transformar esses espaços em lugares que fortaleçam pertencimento, sentido e respeito.

A conversa proposta pela OMS aponta para um futuro em que saúde e felicidade dependem, cada vez mais, da qualidade dos ambientes que frequentamos, inclusive os virtuais. Se o trabalho do bem-estar é cuidar das condições que sustentam uma vida boa, então entender o impacto do jogo digital é parte do mesmo compromisso. Não para concluir cedo demais, mas para começar com seriedade, evidência e humanidade.

Postagem inspirada na notícia “Social Health and Digital Play: A Conversation, Not a Conclusion“.

NR-1 e saúde mental: o que muda para empresas e trabalhadores com a fiscalização em 2026

Uma virada importante na saúde e segurança do trabalho

A partir de 26 de maio de 2026, a fiscalização da nova redação da NR-1 começa a valer de forma mais concreta nas empresas brasileiras. A norma, que estabelece diretrizes gerais de saúde e segurança no trabalho, passa a exigir de maneira explícita que riscos psicossociais entrem no radar do gerenciamento de riscos ocupacionais. Na prática, saúde mental deixa de ser um tema “paralelo” e passa a ocupar um lugar formal dentro das rotinas de prevenção.

Isso tem um peso simbólico e operacional. Simbólico porque reconhece que estresse crônico, assédio, burnout e violência no ambiente de trabalho não são apenas problemas individuais. Operacional porque obriga as organizações a identificar, avaliar e tratar esses fatores como tratam outros riscos: com método, acompanhamento e medidas preventivas.

O que significa incluir riscos psicossociais no GRO e no PGR

A NR-1 conecta essa mudança a dois instrumentos que já fazem parte do universo de SST: o GRO, que é o processo de gestão voltado a proteger a saúde e a segurança, e o PGR, o documento obrigatório que organiza os riscos existentes e as ações para controlá-los.

O ponto decisivo é o foco das intervenções. A norma reforça que a atenção não deve se concentrar apenas no indivíduo, como se a solução fosse “ensinar a pessoa a aguentar mais”. A prioridade passa a ser a organização do trabalho, com análise de jornadas, metas, sobrecarga, conflitos interpessoais, condições ergonômicas e outros elementos que, quando mal desenhados, viram gatilhos de adoecimento.

O primeiro ano como fase educativa

A regra deveria produzir efeitos antes, mas houve adiamento diante de dúvidas sobre aplicação prática. À época, o ministro Luiz Marinho explicou que o primeiro ano de vigência terá caráter educativo e orientativo, sem penalidades, para que as empresas possam se adaptar. Esse detalhe importa porque sinaliza a intenção de mudança cultural gradual, com foco em aprendizagem e estruturação, e não apenas em punição.

Não é só saúde mental: a cultura de prevenção fica mais exigente

Além da inclusão dos riscos psicossociais, a atualização reforça deveres de investigação de acidentes e doenças do trabalho por parte de todos os empregadores, e não somente de quem é obrigado a manter serviços especializados. Também aumenta a exigência de planos de ação com prazos, responsáveis e critérios de monitoramento, amplia o envolvimento de trabalhadores e da CIPA, e pede mais integração entre empresas que atuam no mesmo ambiente.

Na leitura do advogado Ricardo Calcini, professor do Insper, o recado é que a saúde mental deixa de ser uma discussão subjetiva e ganha forma de norma técnica, com obrigações comparáveis às de outros riscos ocupacionais.

Fiscalização e aumento de disputas: por que as empresas devem se antecipar

Quando um tema entra expressamente na norma, muda o jogo. A fiscalização passa a ter base objetiva para cobrar evidências de gestão e prevenção, e o contencioso tende a crescer quando a organização não consegue demonstrar que atuou sobre os fatores de risco. No campo judicial, a ausência de monitoramento e de medidas preventivas pode se tornar um ponto central em discussões sobre responsabilidade em casos de burnout, ansiedade e depressão relacionados ao trabalho.

Por isso, a adaptação não deveria ser vista como tarefa burocrática de “preencher um documento”. O coração do PGR é aquilo que ele representa: um sistema vivo de prevenção, revisado, monitorado e conectado ao cotidiano.

Bem-estar no trabalho é estratégia, não gentileza

Do ponto de vista do Instituto Movimento pela Felicidade e Bem-Estar, essa mudança tem um valor que vai além do compliance. Quando a norma aponta que a organização do trabalho precisa ser revisada para reduzir adoecimento, ela abre espaço para algo que muitas empresas ainda tratam como opcional: construir ambientes psicologicamente saudáveis como parte da estratégia.

Ambientes com metas claras e possíveis, liderança respeitosa, autonomia compatível com responsabilidade, apoio social real e canais de escuta seguros tendem a reduzir riscos e aumentar sustentação emocional. Isso conversa diretamente com felicidade e bem-estar porque vínculos, senso de justiça, segurança psicológica e significado no que se faz não são “mimos”. São condições que protegem saúde e, ao mesmo tempo, melhoram a qualidade das entregas.

A partir de 2026, a NR-1 ajuda a tirar esse tema do campo do discurso e levar para o campo do método. E esse é um bom sinal: quando o trabalho deixa de adoecer como regra silenciosa, ele ganha a chance de voltar a ser um lugar de desenvolvimento, pertencimento e vida possível.

Postagem inspirada na notícia “NR-1: A partir de maio, empresas deverão monitorar riscos à saúde mental“.

Felicidade no trabalho e retorno no longo prazo: quando cultura vira vantagem real

Um indicador pouco óbvio que aparece no preço das ações

Durante muito tempo, a conversa sobre desempenho empresarial ficou presa a números financeiros, custo, eficiência e pacotes de remuneração. Um estudo recente da Irrational Capital aponta um ângulo diferente: a felicidade dos funcionários no trabalho pode ter relação mensurável com o desempenho das ações no longo prazo. Ao analisar empresas do S&P 500, o levantamento indica que companhias no grupo dos 20% com maior felicidade superaram as do grupo dos 20% inferiores em quase 6% ao longo de 11 anos. Já o recorte de empresas bem avaliadas em salário e benefícios mostrou vantagem menor, perto de 2%.

O dado não significa que “ser feliz” substitui estratégia, produto ou governança. O que ele sugere é que cultura e experiência diária do trabalho não são apenas temas de RH. Elas podem se transformar em combustível para consistência, execução e resiliência, justamente o tipo de força que costuma aparecer com mais clareza no longo prazo.

Inovação como sensação de contribuição, não como slogan

Entre os fatores associados à felicidade no trabalho, a inovação aparece como o mais forte. A razão é simples: pessoas tendem a se envolver mais quando percebem que suas ideias são levadas a sério e que suas perspectivas influenciam decisões reais. Não basta pedir “criatividade” em campanhas internas se a rotina pune o erro ou ridiculariza sugestões.

Na prática, líderes que criam rituais de escuta antes de decisões, que valorizam experimentos bem desenhados e que dão visibilidade ao que foi implementado a partir das equipes ajudam a transformar participação em senso de autoria. Isso aumenta energia, e energia bem direcionada costuma virar melhoria contínua.

Gestão direta e a confiança que nasce da clareza

Outro ponto forte é a chamada gestão direta, que envolve comunicação clara e honesta. O estudo citado sugere que empresas com boa performance nesse aspecto superam concorrentes em mais de 7% no preço das ações. Por trás desse número, há um mecanismo humano: pessoas toleram incerteza, mas se desgastam quando convivem com mensagens vagas, silêncio em temas difíceis ou “corporativês” que não explica nada.

Clareza não é dureza. É respeito. Quando a liderança diz o que sabe, o que ainda não sabe e o que muda a partir de agora, as equipes trabalham com menos ansiedade e menos retrabalho emocional. Isso reduz ruído e aumenta foco.

Efetividade organizacional e o custo invisível da burocracia

A felicidade no trabalho também cresce quando a empresa remove obstáculos que atrapalham o avanço. Processos travados, aprovações intermináveis e sistemas que falham drenam motivação porque fazem a pessoa sentir que está gastando vida para entregar o básico. Quando o trabalho fica cheio de atrito, o resultado aparece em frustração, perda de iniciativa e cinismo.

O caminho mais pragmático aqui costuma ser mapear os “pontos de irritação” do dia a dia e simplificar o que já não serve. Pequenas reduções de burocracia podem gerar ganhos grandes de energia coletiva.

Engajamento como desenvolvimento com apoio

O estudo também destaca o engajamento ligado a oportunidades reais de crescimento. Pessoas se conectam mais quando enxergam futuro, aprendem algo novo e recebem incentivo para assumir responsabilidades com suporte, e não no modo “se vire”. Isso cria lealdade saudável, aumenta a competência interna e reduz a sensação de estagnação.

Quando desenvolvimento vira prioridade visível, não apenas um discurso, o trabalho deixa de ser só cobrança e passa a ser também construção.

Conexão emocional e o poder das relações no trabalho

A Gallup é citada na reportagem ao apontar que amizades reais no trabalho se associam a mais engajamento, produtividade e permanência. Relações de qualidade também aumentam segurança psicológica, o que favorece colaboração e inovação.

Isso não se cria com dinâmicas forçadas. Conexão emocional nasce quando existe espaço para convivência humana, quando as pessoas podem colaborar com autonomia e quando o ambiente não pune vulnerabilidade. Em culturas muito controladoras, até a espontaneidade vira risco.

Alinhamento entre discurso e prática: onde o propósito se prova

Por fim, aparece o alinhamento organizacional: a coerência entre o que a empresa declara como valor e o que ela realmente pratica. Nada corrói mais confiança do que missões bonitas em apresentações e comportamentos opostos no cotidiano. Quando há consistência, o trabalho ganha sentido, e sentido é um dos motores mais fortes de motivação sustentada.

Alinhamento não é marketing. É governança aplicada ao dia a dia: políticas, incentivos, decisões e exemplos da liderança apontando na mesma direção.

O que isso tem a ver com felicidade, de verdade

Para o Instituto Movimento pela Felicidade e Bem-Estar, esse tipo de evidência reforça uma ideia simples: felicidade no trabalho não é um “extra” simpático nem um programa isolado. É uma forma de desenhar cultura para sustentar desempenho sem adoecer as pessoas. Quando a organização melhora comunicação, reduz atrito, investe em desenvolvimento, fortalece vínculos e pratica coerência, ela não só aumenta engajamento. Ela aumenta a chance de entregar resultado de forma mais consistente.

Há também um efeito de proteção. Ambientes mais felizes tendem a reduzir rotatividade, ampliar cooperação e diminuir a energia desperdiçada em medo, conflitos mal geridos e desorganização. No longo prazo, isso pode virar vantagem competitiva. E, no curto prazo, já melhora a vida das pessoas.

A reportagem foi assinada por Caroline Castrillon, colaboradora da Forbes USA, e ajuda a traduzir esse ponto para líderes e profissionais: não se trata de escolher entre performance e bem-estar. Trata-se de entender que, cada vez mais, performance sustentável depende de bem-estar.

Postagem inspirada na notícia “Felicidade no Trabalho Impulsiona Desempenho das Ações, Mostra Estudo“.

Menos estresse, mais felicidade: o que muda quando a gente cuida do corpo, dos vínculos e do ambiente

Estresse não é só “pressão”, é um sinal do sistema

O estresse faz parte da vida e, em doses pequenas, até ajuda a lidar com desafios. O problema começa quando ele vira estado permanente. Aí, a resposta natural do corpo pode se transformar em sobrecarga emocional e impactar sono, apetite, foco e até a forma como nos relacionamos. O texto da PUCRS Online lembra que, quando o estresse se acumula, ele pode abrir espaço para ansiedade, tristeza persistente e outros desafios de saúde mental, e que aprender a gerenciá-lo é uma porta concreta para uma vida mais satisfatória.

Felicidade cresce em rede: relações como fator de proteção

Uma das ideias mais fortes do artigo é que saúde mental não é um tema apenas individual. Nossos relacionamentos contam, e muito. Ter amizades e vínculos confiáveis cria um lugar de acolhimento onde dá para dividir preocupações e respirar com mais segurança. Isso não exige ter um círculo social enorme, e sim construir relações significativas, daquelas que ajudam a aliviar a carga do dia a dia.

Essa visão conversa com o que o livro Pessoas felizes fazem coisas incríveis reforça: conexões saudáveis e pequenos gestos de cuidado, como perguntar “como você está?” de verdade, alimentam uma rede de apoio que volta para nós em forma de carinho e sustentação.

Hobbies, movimento e comunidade: o antídoto do “pertencimento”

Outro ponto import de prazer e interesse genuíno. Hobbies e atividades em grupo, como dança, corrida, arte ou qualquer prática que combine movimento e convivência, não servem apenas como distração. Elas criam pertencimento, renovam energia e ajudam a quebrar o ciclo mental de urgência constante.

O livro do Benedito Nunes traduz isso de um jeito bonito e prático: não se trata de esperar grandes acontecimentos, mas de treinar o olhar para as pequenas alegrias e, aos poucos, deixar que elas reorganizem a forma como lidamos com a vida.

Voluntariado e espiritualidade: quando o sentido acalma o coração

A matéria também destaca duas fontes clássicas de bem-estar que muitas vezes ficam fora no sentido amplo de propósito, comunidade e valores. A ideia é direta: quando a vida ganha significado e contribuição, a mente encontra um chão mais firme para atravessar dias difíceis. O envolvimento com causas e com grupos de apoio pode ampliar vínculos e trazer uma satisfação que não depende de desempenho.

Técnicas do cotidiano: menos heroísmo, mais consistência

Entre as práticas citadas estão mindfulness, meditação, exercícios físicos, respiração e a habilidade de estabelecer limites. A força dessas técnicas está na repetição simples: pequenos ajustes diários costumam funcionar melhor do que mudanças radicais que duram uma semana.

Aqui, vale um lembrete alinhado ao que o Instituto Movimento pela Felicidade e Bem-Estar defende: felicidade pode e deve ser tratada como conhecimento aplicado, com base em fundamentos científicos e foco em utilidade no dia a dia.

O ambiente também educa o cérebro

Por fim, o artigo chama atenção para algo bem concreto: o lugar onde vivemos e trabalhamos influencia diretamente nosso nível de estresse. Mais natureza por perto, menos bagunça, elementos que trazem boas lembranças e cores mais tranquilas podem parecer detalhes, mas ajudam so.

Conclusão: felicidade como construção possível

O Instituto Movimento pela Felicidade e Bem-Estar nasceu com o propósito de desenvolver, sistematizar e irradiar a Ciência da Felicidade para que seus benefícios sejam vividos nas atividades humanas, com aplicação prática. Quando a gente olha para o estresse por esse ângulo, a meta não é eliminar desafios, e sim aumentar repertório: vínculos mais saudáveis, hábitos mais sustentáveis, um ambiente mais favorável e escolhas que devolvam sentido.

No fim, reduzir estresse e aumentar felicidade não é um “projeto de perfeição”. É uma sequência de pequenas decisões que, juntas, mudam o jeito como a vida pesa do o estresse e aumentando a felicidade”.

Baseado no artigo “Reduzindo o estresse e aumentando a felicidade“.