Sete minutos de realidade virtual podem ajudar estudantes a reduzir o estresse e recuperar o foco

Em períodos de provas, entregas e cobranças acadêmicas, poucos minutos de pausa podem fazer uma diferença maior do que se imagina. Um estudo conduzido por pesquisadores da City St George’s, no Reino Unido, indica que uma intervenção de apenas sete minutos em realidade virtual pode ajudar estudantes a se sentirem mais calmos, menos ansiosos e mais preparados para lidar com as pressões da vida acadêmica.

Publicado na revista científica Scientific Reports, o trabalho surge em um momento em que escolas e universidades buscam novas estratégias para enfrentar o crescimento de problemas relacionados ao estresse, à ansiedade e à sensação de sobrecarga entre estudantes.

Os dados apresentados pelos pesquisadores ajudam a dimensionar o desafio. Uma pesquisa recente realizada com mais de 5.700 professores britânicos mostrou que 56% deles identificaram problemas de saúde mental relacionados à ansiedade diante de provas entre alunos do equivalente ao ensino médio. Quase metade relatou casos de estudantes que deixaram de frequentar a escola por causa da ansiedade provocada pelos exames.

No ensino superior, o cenário também chama atenção. Na Inglaterra, o número de universitários que declararam alguma condição relacionada à saúde mental praticamente quadruplicou ao longo da década encerrada no ano acadêmico de 2023/2024.

Uma pausa curta, mas intencional

A experiência analisada pelos pesquisadores foi desenvolvida pela empresa de tecnologia em saúde Phase Space e contou com a participação dos próprios estudantes durante sua criação.

O programa reúne técnicas já utilizadas no gerenciamento do estresse, como exercícios respiratórios, visualização e estratégias positivas de enfrentamento. A diferença está na forma como essas práticas são apresentadas. Com o auxílio de óculos de realidade virtual, sons e imagens procuram criar um ambiente imersivo capaz de favorecer a sensação de calma, presença e concentração.

Participaram da pesquisa 131 estudantes da área da saúde. Eles foram divididos aleatoriamente em dois grupos. Sessenta e sete utilizaram os óculos de realidade virtual, enquanto outros 64 assistiram ao mesmo conteúdo por meio de um smartphone. A experiência foi repetida durante cinco dias consecutivos.

Antes e depois de cada sessão, os participantes avaliaram como se sentiam em relação a aspectos como calma, estresse e ansiedade. Os pesquisadores também utilizaram questionários consolidados na área de saúde mental para avaliar o nível de estresse percebido, o bem-estar e sintomas depressivos no início do estudo e novamente duas semanas depois.

Os dois grupos apresentaram benefícios. No entanto, entre os estudantes que utilizaram a realidade virtual, a redução imediata de estresse e ansiedade foi significativamente maior, assim como o aumento das sensações de calma e felicidade.

Outro resultado relevante apareceu duas semanas depois. Os participantes que haviam realizado as sessões com realidade virtual ainda relatavam níveis menores de estresse percebido, indicando que os efeitos da experiência podem ultrapassar o momento imediato de utilização da tecnologia.

O valor de um “reset” emocional

Talvez um dos dados mais interessantes esteja na percepção dos próprios estudantes.

Quase nove em cada dez participantes do grupo de realidade virtual afirmaram que a experiência fez uma diferença real na maneira como se sentiam. Entre os que acompanharam o mesmo conteúdo pelo celular, esse índice foi de 34%.

Nos relatos coletados pelos pesquisadores, muitos estudantes disseram ter passado rapidamente de um estado de estresse e sobrecarga para uma condição de maior tranquilidade, estabilidade e capacidade de concentração.

Também foram mencionados sentimentos de maior controle e confiança, além de uma disposição maior para incluir momentos de autocuidado e reflexão durante períodos intensos de estudo.

Alguns participantes relataram ainda benefícios que ultrapassaram as próprias sessões, como melhora do sono, maior produtividade e percepção de que estavam mais preparados para administrar as demandas acadêmicas.

Esse ponto é especialmente importante porque os estudantes não enxergaram os sete minutos como um tempo perdido ou retirado do estudo. Ao contrário, perceberam a experiência como uma pausa estratégica, capaz de ajudá-los a retornar às tarefas em melhores condições emocionais e cognitivas.

Aprender a interromper o ciclo da sobrecarga

Para a pesquisadora Aileen O’Brien, principal autora do estudo, jovens precisam de mais do que intervenções destinadas apenas a momentos de crise. Segundo ela, também é necessário oferecer ferramentas práticas e baseadas em evidências que permitam administrar a pressão antes que ela se transforme em uma situação de esgotamento.

Essa compreensão se aproxima de uma discussão cada vez mais presente na ciência do bem-estar: cuidar da saúde mental não significa apenas reagir ao sofrimento quando ele já está instalado.

Também significa desenvolver recursos que nos ajudem a reconhecer limites, administrar emoções e criar espaços de recuperação ao longo da rotina.

O Instituto Movimento pela Felicidade trabalha justamente com a ideia de que felicidade e bem-estar não devem ser tratados apenas como estados ocasionais, mas como competências que podem ser cultivadas por meio de conhecimento, escolhas e práticas aplicáveis ao cotidiano. Essa perspectiva está alinhada à proposta de ampliar a compreensão científica da felicidade e de seus efeitos sobre a saúde mental e a qualidade de vida.

No livro Pessoas Felizes Fazem Coisas Incríveis, Benedito Nunes também apresenta a felicidade como uma construção cotidiana, alimentada por hábitos, escolhas e resiliência, e não como uma condição permanente ou resultado de grandes acontecimentos. Essa compreensão ajuda a olhar para práticas simples de autorregulação de maneira diferente: pequenas pausas podem não eliminar os desafios, mas podem modificar a forma como nos relacionamos com eles.

Tecnologia a serviço do bem-estar

Os pesquisadores não sugerem que escolas e universidades sejam capazes de eliminar as fontes de estresse da vida acadêmica. Provas, prazos, decisões profissionais e expectativas continuarão fazendo parte da experiência educacional.

A possibilidade que se abre é outra: ensinar os estudantes a interromper por alguns minutos o fluxo da pressão, reorganizar as emoções e recuperar perspectiva.

Zillah Watson, cofundadora e CEO da Phase Space, explica que os estudantes envolvidos no desenvolvimento da ferramenta deixaram claro desde o início que não queriam mais um recurso de bem-estar que parecesse uma tarefa adicional.

Eles buscavam algo simples, rápido e capaz de ajudá-los a diminuir o ruído mental provocado pelas cobranças do dia a dia.

Por isso, uma palavra apareceu repetidamente nos depoimentos: “reset”.

A tecnologia, nesse contexto, funciona menos como uma fuga da realidade e mais como uma ferramenta para retornar a ela em melhores condições.

É uma distinção importante. O objetivo do autocuidado não é construir uma vida sem desafios, o que seria impossível, mas ampliar nossa capacidade de lidar com eles sem permitir que a pressão ocupe permanentemente todo o espaço disponível.

Talvez esteja aí uma das principais contribuições deste estudo. Em uma cultura que muitas vezes associa desempenho a permanecer constantemente ocupado, parar por alguns minutos pode parecer improdutivo. A ciência, porém, começa a mostrar justamente o contrário.

Quando a pausa é consciente e orientada para a recuperação, ela pode se transformar em parte do próprio desempenho.

Mais do que sete minutos de realidade virtual, portanto, a pesquisa chama atenção para uma habilidade que pode ser útil dentro e fora das salas de aula: aprender a perceber quando a mente está sobrecarregada, criar espaço para reorganizá-la e então seguir adiante.

Porque bem-estar não significa ausência de pressão. Significa desenvolver recursos para que a pressão não determine, sozinha, a maneira como vivemos.

Postagem inspirada na notícia “Seven-minute virtual reality intervention helps reset student overwhelm, study finds”.

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