O poder terapêutico dos espaços azuis na recuperação da saúde mental

Diante da imensidão do mar, algumas pessoas encontram mais do que uma paisagem. Encontram silêncio, perspectiva, acolhimento e uma oportunidade de reconstruir a relação consigo mesmas.

Foi o que aconteceu com Dave Phillips, ex-cabo do Exército britânico. Depois de perder várias pessoas próximas em um curto período e conviver por anos com os efeitos de um transtorno de estresse pós-traumático não tratado, ele chegou a um momento de profundo desespero.

Phillips, hoje com 67 anos, conta que pertence a uma geração na qual falar sobre sentimentos e sofrimento emocional não era comum. Durante muito tempo, tentou enfrentar tudo sozinho, até perceber que já não possuía recursos suficientes para lidar com a dor.

Ao procurar ajuda profissional para o transtorno de estresse pós-traumático, a ansiedade e a depressão, ele conheceu a Turn to Starboard, organização britânica que apoia veteranos por meio da prática da navegação.

A experiência no mar transformou sua trajetória. Para Phillips, estar na água o afastava temporariamente das pressões cotidianas e proporcionava uma sensação de calma que ele não encontrava em outros lugares.

Anos depois, ele passou a integrar uma tripulação que navegava ao redor do Reino Unido para arrecadar recursos para a instituição. Além de apoiar outras pessoas, voltou a sentir entusiasmo pela própria vida.

A história ajuda a compreender por que atividades realizadas em oceanos, rios e lagos estão sendo cada vez mais utilizadas como complemento em processos de recuperação emocional.

Quando a natureza participa do cuidado

A relação entre água e bem-estar não é recente. Em diferentes períodos históricos, médicos recomendaram banhos de mar, caminhadas pela costa e mudanças para regiões litorâneas como formas de recuperação da saúde.

Mais recentemente, práticas como natação em águas abertas, surfe terapêutico, vela, mergulho e permanência contemplativa junto ao mar ganharam visibilidade.

Esse movimento é frequentemente associado ao conceito de “espaço azul”, que se refere a ambientes naturais nos quais a água ocupa papel central. Oceanos, praias, rios, lagos e cachoeiras fazem parte dessa categoria.

O biólogo marinho Wallace J. Nichols ajudou a popularizar o tema com o livro Blue Mind, publicado em 2014. A obra explora como estar dentro, sobre ou próximo à água pode influenciar o cérebro, as emoções e o comportamento.

A ideia central é que ambientes aquáticos podem favorecer estados de calma, presença e recuperação da atenção. Essa influência não acontece de maneira isolada ou milagrosa, mas pode colaborar com outras estratégias de cuidado.

A terapia apoiada por espaços azuis não deve ser entendida como substituta de tratamentos médicos ou psicológicos. Em geral, ela é utilizada como parte de um processo mais amplo, no qual natureza, movimento, convivência e acompanhamento profissional atuam de maneira complementar.

Surfe como experiência de recuperação

A norte-americana Waves of Recovery é uma das organizações que utilizam o oceano em programas voltados a pessoas que enfrentam problemas de saúde mental e dependência.

A instituição promove retiros e experiências de surfe em parceria com centros de tratamento. O objetivo não é apresentar o mar como uma cura isolada, mas criar um ambiente no qual os participantes possam se movimentar, desenvolver confiança e vivenciar novas formas de conexão.

Uma das fundadoras do projeto, Sophie Pyne, também enfrentou esgotamento profissional e dependência. Quando subiu em uma prancha pela primeira vez, recuperou sensações que haviam se afastado de sua vida: liberdade, vitalidade e presença.

Na água, as hierarquias convencionais tendem a perder força. Instrutores, profissionais e participantes usam roupas semelhantes, enfrentam as mesmas ondas e precisam respeitar as condições do mar.

Essa experiência compartilhada pode diminuir a distância entre quem oferece ajuda e quem a recebe. Em vez de existir apenas uma relação na qual um profissional orienta e o participante obedece, surge a possibilidade de caminhar lado a lado.

Para Pyne, a natureza e o oceano tornam-se aliados no processo. A experiência também pode ajudar a reduzir o estigma relacionado à procura por apoio psicológico ou ao tratamento da dependência.

O participante não é definido exclusivamente por um diagnóstico ou por uma fase difícil. Naquele momento, ele é alguém aprendendo a equilibrar-se, a cair, a levantar e a tentar novamente.

Uma pausa para um cérebro sobrecarregado

A expansão das práticas ligadas aos espaços azuis também pode estar relacionada às características da vida contemporânea.

Grande parte do cotidiano é ocupada por atividades que exigem atenção constante. Trabalhamos diante de telas, respondemos a mensagens, alternamos tarefas e permanecemos expostos a um fluxo quase permanente de informações.

Esse esforço pode provocar cansaço mental e dificultar a recuperação emocional.

A geógrafa Catherine Kelly, pesquisadora do tema e consultora de iniciativas governamentais relacionadas aos espaços azuis, explica que os ambientes aquáticos parecem favorecer um tipo diferente de atenção.

Diante da água, muitas pessoas percebem o relaxamento dos ombros e dos músculos do rosto. A respiração se torna mais lenta e a mente entra em um estado no qual existe atenção, mas sem a necessidade de concentração rígida.

O movimento repetitivo das ondas, a amplitude do horizonte, o som da água e as mudanças de luz podem ajudar a reduzir a sensação de confinamento provocada pelas preocupações.

Essa experiência não significa ausência completa de pensamentos. Ela pode ser compreendida como um estado de deriva consciente, no qual a mente se distancia temporariamente da pressão para resolver, controlar ou produzir.

Em uma sociedade marcada pela aceleração, criar momentos de contemplação pode ser uma forma importante de preservar o bem-estar.

O corpo também participa da recuperação

Os benefícios associados aos espaços azuis não acontecem apenas por meio da observação. Atividades como vela, surfe, natação e mergulho envolvem o corpo e exigem contato direto com o ambiente.

No surfe, por exemplo, a pessoa precisa observar o movimento da água, ajustar o equilíbrio e responder a condições que mudam rapidamente.

Na vela, é necessário colaborar com outras pessoas, compreender o vento e aceitar que nem tudo pode ser controlado.

No mergulho livre, a atenção se volta para a respiração, o corpo e os próprios limites. A sensação de flutuação também modifica temporariamente a relação com o peso e o movimento.

O psiquiatra James Jung, veterano militar e responsável por um centro de mergulho livre na Califórnia, utiliza essa atividade como parte de experiências voltadas à regulação do sistema nervoso.

Segundo ele, o objetivo apresentado aos participantes é aprender a mergulhar. Entretanto, ao longo desse aprendizado, eles também precisam desenvolver consciência respiratória, reconhecer sinais do corpo e lidar com emoções como medo e ansiedade.

Jung ressalta que a recuperação de um trauma não deve ser vista apenas como a chegada a um destino. Trata-se de aprender a permanecer em um processo, respeitando o tempo necessário para reconstruir segurança e confiança.

Essa perspectiva está próxima da própria ideia de resiliência. Superar uma adversidade não significa apagar o que aconteceu, mas integrar a experiência e recuperar gradualmente a capacidade de viver, criar vínculos e construir novos projetos.

Natureza, propósito e relações

Os efeitos positivos dessas práticas não dependem apenas da presença da água. Muitas experiências realizadas em espaços azuis combinam diferentes elementos favoráveis ao bem-estar.

Existe o contato com a natureza, mas também há movimento físico, aprendizagem, cooperação e convivência.

Uma pessoa que participa de um programa de vela não permanece apenas observando o oceano. Ela pode receber uma função, colaborar com uma equipe e perceber que sua participação é importante para o grupo.

Alguém que aprende a surfar precisa persistir diante das quedas e celebrar pequenos avanços. Essa trajetória pode fortalecer a percepção de competência e autoeficácia, ou seja, a confiança na capacidade de agir e produzir mudanças na própria vida.

Os grupos também oferecem oportunidades de pertencimento. Pessoas que passaram por experiências semelhantes podem compartilhar histórias sem sentir que precisam esconder suas vulnerabilidades.

Em muitos casos, o que começa como uma atividade na natureza se transforma em uma rede de apoio.

Esse aspecto é especialmente relevante para a ciência da felicidade. As relações de qualidade, o propósito, a sensação de pertencimento e a participação em atividades significativas são componentes importantes do bem-estar.

O mar pode criar o ambiente, mas a transformação também acontece nos encontros construídos ao redor dele.

Espaços azuis no cotidiano

Nem todas as pessoas possuem acesso fácil ao oceano ou podem participar de programas de surfe, vela ou mergulho. Ainda assim, o conceito de espaços azuis pode ser adaptado a diferentes realidades.

Uma caminhada próxima a um rio, a permanência junto a um lago, a visita a uma cachoeira ou alguns minutos de contemplação em uma praia podem criar oportunidades de pausa.

O benefício não depende necessariamente de uma atividade radical. Em alguns momentos, sentar-se em segurança diante da água e observar seu movimento já pode ajudar a desacelerar a respiração e reorganizar a atenção.

Também é possível associar essa experiência a outros hábitos de bem-estar, como caminhar, conversar com alguém próximo, praticar exercícios respiratórios ou escrever sobre os sentimentos.

O mais importante é que a atividade seja segura, acessível e adequada às condições físicas e emocionais de cada pessoa.

Ambientes aquáticos também envolvem riscos. Correntes, mudanças climáticas, baixas temperaturas e limitações individuais precisam ser considerados. Práticas no mar, em rios ou em lagos devem contar com supervisão e equipamentos apropriados sempre que necessário.

No caso de sofrimento psíquico intenso, dependência ou transtornos relacionados a traumas, o acompanhamento de profissionais qualificados continua sendo essencial.

A natureza pode colaborar com o cuidado, mas não deve ser utilizada para justificar o abandono de tratamentos.

Uma área que ainda precisa avançar

Apesar do crescimento das iniciativas voltadas aos espaços azuis, a pesquisa científica sobre o tema ainda está em desenvolvimento.

Durante muitos anos, os estudos sobre natureza e saúde se concentraram principalmente em áreas verdes, como parques, florestas e jardins.

Esses espaços são mais simples de incorporar a algumas políticas públicas porque costumam apresentar menos riscos do que atividades realizadas dentro da água.

Programas de prescrição social, nos quais profissionais de saúde encaminham pessoas para atividades comunitárias, culturais ou na natureza, precisam considerar segurança, treinamento e acessibilidade.

Por esse motivo, ainda são necessários mais estudos para compreender quais intervenções ligadas aos espaços azuis são mais eficazes, para quem funcionam melhor e em quais condições devem ser aplicadas.

É importante evitar conclusões exageradas. O fato de uma experiência ter sido transformadora para uma pessoa não significa que produzirá o mesmo resultado para todas.

Ainda assim, os relatos e pesquisas iniciais apontam caminhos promissores. Eles sugerem que a água pode favorecer a calma, a conexão e a recuperação quando integrada de forma responsável a outras estratégias.

Felicidade também é recuperar o vínculo com a vida

Depois de anos tentando reencontrar a pessoa que era antes do agravamento de seus problemas de saúde mental, Dave Phillips afirma sentir que voltou a ser ele mesmo.

Essa percepção talvez seja um dos aspectos mais importantes de sua história.

A recuperação nem sempre significa retornar exatamente ao estado anterior. Muitas vezes, significa reconhecer as marcas da experiência e encontrar uma nova maneira de seguir em frente.

No livro Pessoas felizes fazem coisas incríveis, a felicidade é apresentada como uma construção diária, alimentada por hábitos, escolhas, relações e resiliência. Os espaços azuis podem fazer parte dessa construção ao favorecer momentos de presença, aprendizado e reconexão.

O mar não elimina o passado. As ondas também não oferecem respostas prontas. Mas a experiência de estar diante de algo vasto, vivo e em movimento pode nos lembrar que a realidade é maior do que o sofrimento que ocupa nossa mente naquele momento.

Ao navegar, nadar, caminhar pela margem ou simplesmente observar a água, podemos recuperar algo que a dor e a ansiedade frequentemente enfraquecem: a sensação de participação na vida.

Talvez seja essa uma das contribuições mais profundas dos espaços azuis. Eles não prometem ausência de dificuldades, mas podem oferecer condições para respirar, reorganizar emoções e encontrar forças para continuar.

A felicidade não está em evitar todas as tempestades. Ela também pode estar na possibilidade de pedir ajuda, aceitar companhia e reaprender a navegar.

Postagem inspirada na notícia “The rise of blue-space therapy: how the sea is helping people deal with trauma, anxiety and addiction”.

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