O poder do assombro: como a admiração profunda pode fortalecer a saúde mental
/0 Comentários/em Blog/por movimentopelafelicidadeHá momentos em que as palavras falham. O corpo reage com arrepios, o pensamento desacelera, e uma sensação estranha, quase impossível de definir, toma conta de tudo. É como se a vida, por alguns segundos, ficasse maior do que a nossa capacidade de explicar. Esse estado emocional tem nome: assombro, ou “awe”, um tipo de admiração intensa que surge quando nos deparamos com algo tão vasto que ultrapassa nossos mapas mentais.
O texto lembra que o assombro não é um sentimento “sempre bom” ou “sempre leve”. Ele pode ser positivo, quando a vastidão vem acompanhada de beleza e encantamento, como diante de uma montanha, uma obra de arte ou um pôr do sol. Mas também pode ser negativo, quando essa grandeza aparece junto do medo e da falta de controle, como em desastres naturais ou situações de ameaça. A mesma sensação de pequenez pode ser tranquilizadora ou aterradora, dependendo do contexto.
Por que o assombro mexe tanto com a mente
Do ponto de vista da neurociência, o assombro parece surgir quando acontece uma espécie de “choque” entre o que vivemos e o que conseguimos encaixar no que já sabemos. Nosso cérebro opera criando previsões, filtrando o que é esperado e prestando atenção no que surpreende. Quando a experiência é grande demais para ser assimilada rapidamente, aparece essa sensação de vastidão e de ruptura da compreensão, um convite involuntário para atualizar nossas referências.
Há também um efeito interessante na forma como nos percebemos. Ao vivenciar assombro, diminui a atividade em áreas cerebrais ligadas ao processamento autocentrado, aquele “modo eu” que alimenta ruminações, lembranças e preocupação constante com a própria história. Em termos práticos, a atenção se desloca do interno para o externo. Isso ajuda a explicar por que o assombro costuma trazer a sensação de que somos pequenos diante do mundo, mas, paradoxalmente, isso pode ser um alívio.
Quando o assombro é terapêutico
O texto destaca que o assombro positivo tende a estar ligado a maior atividade do sistema parassimpático, associado ao descanso, à redução de arousal e a uma sensação de calma. Já o assombro negativo se aproxima mais do modo “luta ou fuga”, ligado ao sistema simpático. Essa diferença é essencial para entender por que nem todo assombro melhora o bem-estar. O que faz bem é a experiência de grandeza que, em vez de ameaça, vira expansão.
A pesquisa emergente sugere que o assombro pode apoiar a saúde mental e o bem-estar de várias maneiras, como favorecer relaxamento fisiológico, reduzir o excesso de autocentralidade, aumentar a disposição para ajudar outras pessoas, fortalecer sensação de conexão e ampliar significado. Ainda não se crava que os benefícios sejam duradouros em todos os casos, mas buscar experiências desse tipo, de forma intencional, pode reduzir estresse e aumentar satisfação.
O viés do IMF: felicidade também é transcendência cotidiana
No Instituto Movimento pela Felicidade e Bem-Estar, a felicidade não é tratada como euforia permanente, e sim como competência humana, treinável e ancorada em ciência, com impacto real na saúde mental e no modo como vivemos e trabalhamos. O assombro entra aqui como uma via muito interessante porque ele reposiciona a mente: troca o excesso de controle por presença, substitui a obsessão por desempenho por contato com algo maior, e abre espaço para sentido.
Quando falamos em “espiritualidade e sentido”, um dos temas que o Instituto aborda como urgente de ser resgatado, não estamos falando necessariamente de religiosidade formal, mas da capacidade de recuperar o transcendente na vida, aquilo que nos reconecta ao que importa e pacifica o ruído interno. O assombro, nesse sentido, pode ser um atalho para esse resgate, uma forma concreta de lembrar o corpo e a mente de que existe beleza, grandeza e profundidade para além do roteiro automático do dia.
E há um detalhe precioso: não é preciso ir ao espaço para sentir isso. Uma caminhada em meio à natureza, uma música que nos atravessa, um momento coletivo que nos faz sentir parte de algo, ou até uma “awe walk”, uma caminhada com intenção de notar beleza e vastidão, podem ser exercícios simples de reconexão.
No fim, cultivar assombro é praticar presença. É treinar o olhar para perceber o extraordinário que mora no comum. E, em tempos de ansiedade alta e atenção fragmentada, talvez essa seja uma das formas mais humanas de cuidar da mente: ampliar o mundo dentro de nós, para que os problemas não ocupem todo o espaço.
Postagem inspirada na notícia “How a sense of awe can be good for your mental health”.




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