Mindfulness em 5 minutos pode aumentar a ousadia nas decisões, sugere estudo

Uma nova pesquisa aceita para publicação na revista Scientific Reports (recebida em 29 de novembro de 2025 e aceita em 23 de janeiro de 2026) levanta um ponto curioso — e relevante — para quem pratica (ou recomenda) mindfulness: uma única sessão breve de meditação guiada pode aumentar a propensão a assumir riscos, ao menos em tarefas controladas de laboratório.

O estudo, assinado por Lucy B. G. Tan, Marius Golubickis e C. Neil Macrae, investigou justamente o que ainda era pouco testado de forma causal: o efeito de um “dose única” de mindfulness (5 minutos) sobre decisões envolvendo ganhos e perdas. Para isso, os autores rodaram dois experimentos com participantes de contextos culturais distintos: no Reino Unido, online, usando a tarefa do “balão” (BART); e em Singapura, presencialmente, com a tarefa da “bomba” (BRET). Em ambos os casos, o padrão se repetiu: quem fez a breve prática de mindfulness se arriscou mais do que os grupos de comparação (um controle ativo com instruções para “se envolver” nos próprios pensamentos e emoções, e um controle “neutro” com um quebra-cabeça tipo tangram).

O que significa “se arriscar mais” aqui?

Nas tarefas, a pessoa escolhe entre continuar tentando ganhar mais (com o risco de perder tudo) ou parar e garantir o que já acumulou.

  • BART (balão): cada “inflada” rende um pequeno ganho, mas o balão pode estourar e zerar o ganho daquela rodada.

  • BRET (bomba): a pessoa seleciona caixas que valem dinheiro, sabendo que uma delas contém a bomba que zera a rodada.

Ou seja: não é “risco” no sentido de atitudes perigosas do cotidiano, e sim risco como decisão sob incerteza/possível perda.

Por que mindfulness aumentaria o risco?

Aqui entra a parte mais interessante do artigo: os autores aplicaram modelagem computacional para entender qual engrenagem mental mudou. A explicação mais consistente foi uma redução da aversão à perda durante o processo decisório. Em termos simples: após a meditação breve, as perdas parecem “doer menos” na avaliação do cérebro, e isso torna mais provável continuar jogando/avançando na tarefa.

O próprio texto discute que isso pode soar paradoxal, já que muita literatura associa mindfulness à redução de impulsividade e de comportamentos arriscados. Mas os autores lembram que “risco” não é uma coisa só: depende do contexto, do tipo de tarefa e do que está em jogo. Em cenários repetidos de decisão (muitas rodadas), reduzir a carga emocional do medo de perder pode até ajudar a avaliar com mais frieza — o que, em certos casos, melhora desempenho.

A leitura do Instituto Movimento pela Felicidade

No Instituto Movimento pela Felicidade, a gente costuma reforçar que felicidade e bem-estar não são só “sentir-se bem” — são competências humanas que podem ser desenvolvidas com base em ciência e aplicadas no dia a dia, inclusive nas organizações.

Esse estudo conversa com um ponto essencial: técnicas de bem-estar não são mágicas nem “sempre para o mesmo lado”. Uma prática curta de mindfulness pode, dependendo do contexto, diminuir a reatividade à perda — e isso pode ser ótimo para criatividade, inovação e coragem de experimentar (algo muito ligado ao florescimento humano). Mas também pode aumentar a ousadia em decisões que pedem cautela, como escolhas financeiras, mudanças estratégicas, compras, negociações ou até atitudes no trânsito.

Em ambientes de trabalho, isso tem um recado prático: mindfulness é ferramenta — e ferramenta precisa de propósito, critério e ética. Nossa visão, alinhada à ideia de liderança com propósito e ambientes saudáveis, é que práticas de bem-estar devem caminhar junto com governança, segurança psicológica e responsabilidade.

Como transformar isso em bem-estar (e não em imprudência)

Um jeito “IMF” de aplicar o insight do estudo é usar mindfulness como pausa de clareza, mas não como “sinal verde” automático para agir:

  • Após uma prática breve, antes de decidir algo importante, faça um “check” consciente: o que eu ganho, o que eu perco, e qual é o impacto para mim e para os outros?

  • Separe coragem de pressa: mindfulness pode reduzir o medo de perder; por isso, vale adicionar um passo de análise (dados, cenário, segunda opinião).

  • Em equipe, combine “rituais” de decisão: meditar para baixar ruído emocional e depois usar critérios objetivos (risco, segurança, custo, impacto humano).

  • Em temas de segurança e prevenção, trate a calma como aliada da atenção — não como licença para “forçar a barra”. (Esse é um ponto que aparece muito quando falamos de cultura organizacional e bem-estar aplicado.)

Fechando a ideia

No fundo, a notícia nos ajuda a amadurecer a conversa sobre felicidade e bem-estar: estar presente e menos reativo não significa automaticamente ser mais conservador. Às vezes, significa ficar mais disposto a avançar — porque a mente está menos “capturada” pelo medo da perda. Quando essa ousadia vem acompanhada de consciência, propósito e responsabilidade, ela pode virar crescimento, inovação e saúde emocional; quando vem sozinha, pode virar apenas impulso bem vestido.

Postagem inspirada no artigo “Brief mindfulness meditation increases risk-taking behavior“.

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